Ondas de calor geram desinformação climática

  • 21/07/2026 02:27
  • Redação

Várias regiões da Europa já sofrearam com as consequências de ondas de calor neste verão. No entanto, os especialistas avisam que os próximos meses também poderão ser de temperaturas elevadas.

Em junho, registaram-se temperaturas recorde em todo o continente, desde Espanha e França até a países menos habituados ao calor extremo, como os Países Baixos, a Dinamarca ou a Áustria. A World Weather Attribution — uma organização académica que junta, entre outras, instituições como o Imperial College de Londres, o Instituto Meteorológico Real dos Países Baixos, a Universidade de Princeton, o Centro Nacional de Investigação Atmosférica dos Estados Unidos e especialistas em impacto climático do Centro Climático da Cruz Vermelha — concluiu que as alterações climáticas induzidas pelo homem são, de forma inequívoca, responsáveis pela intensidade das ondas de calor e que temperaturas desta magnitude teriam sido praticamente impossíveis há 50 anos.

No entanto, a Euranet Plus identificou várias formas de desinformação climática — desde a negação total das alterações climáticas até posições mais complexas ou políticas — que têm circulados amplamente nas redes sociais e na imprensa generalista, semeando dúvidas e confusão.

Esta equipa de fact checking sublinha que a maioria das alegações não nega que as ondas de calor ocorram. Em vez disso, procuram minimizar a sua importância ou lançar dúvidas sobre as suas causas. Entre os exemplos, estão as alegações de que os registos de temperatura são enganadores e servem para semear a dúvida. Outras afirmam que as condições extremas "não têm nada de excecional", uma vez que há década que ocorrem ondas de calor.

"Muitas destas alegações recorrem a acontecimentos históricos reais ou a dados isolados, mas retiram-nos do seu contexto científico mais amplo. Estas táticas não são utilizadas apenas para minimizar o papel das alterações climáticas no contexto dos fenómenos meteorológicos extremos, mas também para desacreditar a ciência em geral – e isto já se verifica há anos", conclui a Euranet Plus.

Grande parte desta desinformação não nega a ciência climática em si, mas visa antes opor-se às políticas climáticas.

A desinformação é frequentemente oportunista. Ou seja, aproveita-se de um evento, num determinado local, para introduzir variações nas narrativas contrárias às alterações climáticas.

Neste sentido, a equipa de verificação de dados assinala que, por exemplo, em Itália, "as teorias da conspiração centram-se em alegações [...] de que os alertas de ondas de calor têm como objetivo promover o Pacto Verde Europeu".

Já os países mais expostos a incêndios florestais, como Portugal, Espanha ou Grécia, tendem a ser alvo de desinformação relacionada com o início dos fogos rurais e as políticas de prevenção. Por exemplo, na Grécia, "existem teorias da conspiração que alegam que as florestas são incendiadas deliberadamente para dar lugar a turbinas eólicas e de que os incêndios florestais são provocados pelo homem — em particular por migrantes — e não estão relacionados com as alterações climáticas".

Nesta matéria, "os cientistas distinguem entre o início do incêndio e a sua propagação. Embora muitos incêndios sejam provocados pelo homem, seja por negligência ou por fogo posto, são o calor extremo, a seca e os ventos fortes que criam as condições que permitem que os incêndios se propaguem mais rapidamente, queimem com maior intensidade e se tornem muito mais destrutivos".

A Euranet Plus recorre a dados do Observatório Europeu dos Meios de Comunicação Digitais (EDMO), para defender que "o ecossistema da desinformação climática inclui empresas de combustíveis fósseis, think tanks partidários, políticos, influenciadores, anunciantes, plataformas online e motores de busca".

"O EDMO e outros institutos de investigação, revelaram que também campanhas russas procuram minar o apoio às políticas climáticas, polarizar o debate público e enfraquecer a confiança nas instituições europeias, apresentando a ação climática como economicamente prejudicial ou motivada por razões políticas."

Já o NewClimate Institute — uma organização sem fins lucrativos que atua nas áreas da política climática e da sustentabilidade global — também destaca o longo historial do Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, na divulgação de alegações falsas sobre as alterações climáticas, incluindo ataques repetidos à transição energética da Alemanha.

Embora grande parte da desinformação circule nas redes sociais — o que levou vários grupos a apelar a políticas mais rigorosas para responsabilizar as plataformas —, os meios de comunicação tradicionais também desempenham aqui um papel importante. "O QuotaClimat - uma organização sem fins lucrativos de ativismo climático -, constatou que, ao longo de três meses, foram identificados 128 casos de desinformação climática transmitidos na televisão e na rádio em França, o que representa uma média de cerca de 10 alegações por semana. O setor dos meios de comunicação social comerciais foi responsável por mais de 80 por cento do total de casos", assinala a equipa de verificação de dados.

Mesmo com as campanhas de desinformação em curos, "a opinião pública continua a apoiar de forma esmagadora as medidas climáticas".

De acordo com o último inquérito do Eurobarómetro, 85% dos europeus consideram as alterações climáticas um problema grave. 84% acreditam que têm na sua origem a atividade humana e 81% apoiam o objetivo da União Europeia de alcançar a neutralidade climática até 2050.

Mesmo assim, destaca a Euranet Plus, "mais de metade dos inquiridos afirma não receber informações claras sobre as alterações climáticas, o que abre margem para a propagação da desinformação". É por isso que "o público precisa de manter um espírito crítico em relação ao que vê e lê online, para evitar ser enganado pela desinformação".

  • Fonte: Rádio Renascença
Envie fotos, vídeos, denúncias e reclamações para nossa equipe pelo E-mail contato@portugalemfoco.pt.

Compartilhar: