"19% dos incendiários (e são jovens) voltam ao local e ajudam a combater as chamas"

  • 22/07/2026 02:00
  • Redação

Estuda há perto de 30 anos os perfis dos incendiários. Cristina Soeiro, psicóloga da Polícia Judiciária (PJ), explica que “enquanto nós, urbanos, ficamos muito aflitos quando vemos um fogo, as pessoas que moram em contexto rural não têm a mesma perceção, porque lidar com o fogo é coisa do quotidiano”.

“Os instrumentais são indivíduos que usam o fogo de uma forma planeada, com um objetivo concreto. Por exemplo, uma pessoa que faz o pastoreio de uma zona do interior do país e, de repente, ele precisa de passar num local e há muita área que não está limpa, e isto pode ser o início de uma situação de fogo posto e, às vezes, acontece”. São integrados e estão integrados numa família. Aqui as multas funcionam bem e são reabilitadoras, afirma Cristina Soeiro.

No caso das motivações instrumentais estão as dinâmicas do dia a dia e os ganhos. “Por exemplo, às vezes jovens institucionalizados colocam incêndio porque não têm trabalho e não estão integrados e o dia a dia é vazio”.

A psicóloga explica que, apesar de saberem que não deviam ter feito, perdem muitas vezes o controlo e dizem: “Ah, mas o meu objetivo era só queimar este bocado aqui, agora eu não controlo o São Pedro”. Têm consciência do que fazem e do que acaba por acontecer.

Os casos mais comuns são os comportamentos expressivos. Dentro destes há “um grupo que se caracteriza pelo seu padrão de consumo de álcool, dificuldade de integração na comunidade, enquanto os instrumentais são geralmente indivíduos integrados na comunidade”.

Cristina Soeiro explica que “o álcool é um facilitador de más decisões” não sendo a grande razão da ignição que resulta, muitas vezes , de emoções “como aborrecimento, revolta, vingança e necessidade de chamar a atenção”.

A reabilitação destas pessoas é mais difícil. São indivíduos que agem muitas vezes sem explicação clara, podem até ter a associação de questões mentais. Este grupo representa mais de 50% de indivíduos identificados por incêndio florestal.

Hoje em dia, embora predominem questões ligadas ao álcool, começam a surgir problemas associados ao consumo de drogas.

O ano passado houve 22 mulheres detidas pelo crime de incêndio, num total de 98 pessoas. Representam cerca de 20%, “é uma fasquia que se tem mantido ao longo dos tempos”, indica Cristina Soeiro.

E porque cometem o crime? “As mulheres têm motivações ligadas às relações que têm com familiares e para chamarem à atenção. Muitos problemas com os ex-maridos, com o companheiro, revoltas, vinganças, etc...”

E deu o exemplo: “Uma senhora, que morava no interior do centro do país e colocou um incêndio. Ela disse: ‘isto é o dia mais movimentado da minha vida, estão aqui os senhores polícias, os senhores bombeiros, e eu só falo com as galinhas, o meu marido vai-se embora e não me liga nenhuma’. E porque é que ela fez aquilo? Para chamar a atenção”.

Os estudos mostram que, ao contrário dos homens, “as mulheres não precisam do álcool como desinibidor para cometerem o crime, embora às vezes estejam sob mistura de medicações. Muitas mulheres estão, às vezes, em estado de depressão". Já os homens, que representam a maioria dos incendiários, “usam o incêndio como forma de resolver os seus problemas sociais, nem sempre claros”.

Cristina Soeiro constata que “temos uma percentagem enorme de pessoas que precisa de uma intervenção específica, e fazer prevenção secundária, há coisas que se resolvem na comunidade, explicando, ajudando, por exemplo, como é que se faz uma queimada”.

No Norte do país, há registo de incendiários com formação superior da área da agricultura, com comportamentos de risco e consequências grandes e sujeitos a medidas da justiça.

A zona Centro tem alguns estudantes universitários que colocam fogo rural. “São pessoas que têm depressão profunda associada a outros problemas e o fogo acaba por ser uma expressão, uma resposta de libertação”, refere a psicóloga.

"Nós temos 19% de indivíduos estudados, e são os mais jovens, que ou voltam ao local com os bombeiros, ou ficam a ver e ajudam no combate às chamas”, sublinha.

Explica que “a malha do interior está a alterar-se, a malha humana, nos últimos três anos, começámos a ter muitas pessoas cuja profissão está associada à construção civil”. As pessoas estão a sair mais dos centros urbanos “são pessoas que fazem trabalhos, não são engenheiros, mas que trabalham nas obras, fazem vários tipos de trabalho” e é o que temos identificado.

“Mais de 50% dos indivíduos que estão identificados por incêndio rural ou incêndio florestal, não conhecem sequer o dono do terreno”, refere Cristina Soeiro.

Nos incêndios florestais há uma representatividade de todas as faixas etárias. A mais comum é aquela que está entre os 40 e os 50 anos, “mas também temos muitos indivíduos mais velhos, 60, 70 anos”.

A especialista da PJ afirma que “há muitos indivíduos com 50 anos, por exemplo, que vivem com os pais, não se conseguiram emancipar e fazem pequenos biscates nas florestas, têm poucas competências sociais, ou problemas de integração na comunidade”.

E engana-se quem acha que há na sua maioria motivações económicas nos incêndios.

“Essas motivações económicas não são um padrão muito presente. As causas de incêndio mais comuns são situações do dia a dia”, afirma Cristina Soeiro, revelando que “alguns indivíduos, que são poucos, recebem um montante por atearem fogos, montantes que são muito pequenos, são entre 50 a 100 euros, e no relatório de 2025, nem surge qualquer caso desses”.

Os incendiários, por vezes, voltam a repetir o crime. É um desafio e as pessoas estão identificadas.

“Durante os meses de verão, há certas pessoas que ficam recluídas. Há indivíduos que são monitorizados pelas polícias. A Guarda Nacional Republicana ou a Polícia Judiciária, têm alguns indivíduos com quem às vezes até fazem prevenção logo em maio, fazem uma visita à pessoa”, afirma Cristina Soeiro, explicando que há até quem fique com uma pulseira eletrónica e em vigilância. Quem controla é o tribunal e as polícias.

No podcast Direito à Justiça, a psicóloga diz que “em 17% a 20% dos casos de incêndio os indivíduos já o tinham praticado antes”.

Mas a grande questão, considera, é o que é que se deve fazer além disso. “Falta trabalhar a intervenção, se há um individuo com problemas de álcool e com problemas psicológicos graves, é aqui que temos de intervir e não é um trabalho isolado da justiça, é multidisciplinar”, “são pessoas que precisam de intervenção [um tratamento ou medicação] e não apenas de controlo, isso sim reduz os comportamentos de risco”.

Aumentar as penas? Não faz sentido se não se fizer nada com as pessoas, defende. “Eu acho que se conseguíssemos intervir nas pessoas de uma forma holística, era melhor do que aumentar as penas. Se permanecermos com as pessoas presas e não fizermos nada com elas, não adianta”, sublinha.

Destacando que “temos uma percentagem enorme de pessoas que precisa de uma intervenção específica, e fazer prevenção secundária, há coisas que se resolvem na comunidade, explicando, ajudando, por exemplo, como é que se faz uma queimada, etc…”.

A Justiça restaurativa, com trabalho comunitário, às vezes tem maior efeito, porque "a maioria não tem antecedentes criminais”.

Cristina Soeiro partilha o testemunho de um incendiário: "Um senhor que eu entrevistei disse: 'doutora, aquele que está ali na cela, esse matou uma pessoa, eu não matei ninguém, as árvores voltam a crescer'.

A psicóloga da PJ considera ser preciso apostar na prevenção ligada à floresta, “tudo o que se faz nas escolas, com os miúdos pequenos, sobre a importância do espaço florestal, da nossa responsabilidade como cidadãos é muito importante”.

“Todos somos responsáveis pela floresta e quando os incêndios existem é preciso mostrar o espaço ardido, não mostrem só as chamas, mostrem as consequências do fogo”, apela.

  • Fonte: Rádio Renascença
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