Sérvio sugado em voo da Ryanair: "O estrondo está sempre presente quando fecho os olhos para dormir"
- 22/07/2026 06:23
- Redação
As circunstâncias ainda estão sob investigação. A 10 de julho, o avião tinha descolado minutos antes do Aeroporto de Salónica e tinha como destino o Aeroporto de Memmingen, na Alemanha.
Segundo os meios de comunicação gregos, o incidente terá sido causado por um pedaço do motor que se soltou e partiu uma janela, levando à despressurização da cabine. O ruído estrondoso da janela a estilhaçar-se, acordou Ljubisa do sono quando seguia no lugar 11F, junto à janela.
Onze dias depois, sente aquele momento como a entrada para “o caos”, “para a catástrofe” que ainda o mantém acordado à noite.
A usar um colar cervical, que vai usar até perceber se será necessária uma intervenção cirúrgica, Ljubisa acrescenta ao jornal britânico: “É o ruído antes do caos, o ruído que está sempre presente quando fecho os olhos para dormir.”
Ljubisa Karović ficou com queimaduras e contusões visíveis no braço direito, que se estendem até à axila e ao peito.
“Tenho sorte”, afirma ao Guardian. “Não me lembro de grande coisa e ainda me doem a cabeça e o pescoço, mas continuo vivo. Pode ter sido o cinto de segurança, o facto de ainda estar preso. Mas talvez seja o destino. Acredito em Deus e agradeço-Lhe todos os dias”, acrescenta.
O advogado grego da vítima, Vasilis Tsiaras, descreve este pai de dois filhos, de constituição magra, como “estando vivo por engano”.
“O Ljubisa esteve à beira da morte”, diz. “Quando a cabina perdeu pressão, foi projetado pela janela, da cintura para cima, e perdeu imediatamente a consciência. Estava naquele avião a caminho da Alemanha para celebrar o aniversário do irmão. Em vez disso, a 15 000 pés, acabou com a cabeça e o braço direito fora da aeronave, enquanto esta se deslocava a uma velocidade superior a 600 km/h. Imaginem só! Ele olhou para a morte, para aquele outro mundo, e voltou”
Os passageiros do voo FR1879, incluindo a esposa de Karović, Svetlana, sentada no lugar 14C, três filas atrás do marido, ainda têm memórias vívidas do momento em que a janela se estilhaçou, das máscaras de oxigénio a descerem, da agitação que se seguiu enquanto garrafas e outros objetos voavam pelo ar e os outros passageiros agarravam Ljubisa, tentando desesperadamente mantê-lo no lugar.
A Ryanair defendeu o desempenho do seu pessoal, afirmando que a tripulação de cabina fez um “trabalho fenomenal”. Tsiaras, o advogado, discorda desta afirmação. Embora o filho de Karović, Danjell, que reservou o voo, tenha sido contactado pela empresa, nem Ljubisa nem Svetlana foram contactados nem receberam qualquer assistência ou apoio, afirma.
“Não temos qualquer queixa em relação ao piloto, que seguiu os protocolos de segurança e lidou muito bem com a situação”, acrescenta Tsiaras, referindo-se à descida rápida a que são obrigados no caso de uma perda de pressão na cabina do avião.
“O meu cliente desmaiou duas ou três vezes: uma vez no exterior da aeronave, quando foi parcialmente sugado para fora da janela, e duas vezes no interior, quando, mais uma vez, perdeu a consciência. Em nenhum momento a tripulação de cabina se ofereceu para ajudar”, lamentou o causídico.
A Ryanair contestou essa alegação, afirmando que, durante o processo de despressurização e descida rápida para uma altitude mais baixa, todos os passageiros e tripulantes de cabina são obrigados a apertar os cintos de segurança e a colocar máscaras de oxigénio.
“Assim que o avião desceu para uma altitude segura, a nossa tripulação de cabina prestou assistência ao Sr. Karović, transferindo-o para outro lugar (ao lado da sua esposa) e providenciou que um médico a bordo se sentasse com eles até o avião aterrar em segurança em Salónica. Também providenciaram que houvesse assistência médica à espera à chegada a Salónica”, afirmou a companhia aérea num comunicado ao Guardian.
Acredita-se que os momentos insuportáveis em que viu o marido “meio dentro e meio fora do avião” tenham durado entre um minuto e meio e dois minutos.
“Dizem-me que desmaiei duas vezes e outra vez dentro do avião e que o meu rosto ficou brevemente inchado e deformado por causa da pressão, da corrente de ar”, diz Karović.
Quando questionado se há alguma mensagem que queira passar, o sérvio diz: “Certifiquem-se sempre de que usam o cinto de segurança. Não quero que ninguém passe pelo que me aconteceu”.