Investigadores portugueses resgatam "Corpos Santos" do esquecimento
- 23/07/2026 01:30
- Redação
Ainda existem em muitas igrejas, por todo o país, mas nem sempre se valorizam devidamente, e muitos até se encontram escondidos. Ao todo estão identificados em Portugal 59 relicários de corpo inteiro, que se acredita serem de mártires das catacumbas de Roma, e que depois da reforma protestante começaram a ser enviados para todo o mundo, para ajudar a reforçar a fé dos católicos.
Diversos conflitos armados, o terramoto de Lisboa e também o desprezo que houve por parte dos cientistas do século XX, fizeram com que este património fosse destruído ou negligenciado. Mas, uma equipa multidisciplinar de investigadores portugueses está agora a revelá-lo, para ser mais conhecido e valorizado.
Teresa Ferreira, docente do Departamento de Química e Bioquímica da Universidade de Évora, onde integra o Laboratório HERCULES, é a coordenadora do projeto Holy Bodies - "Santos Corpos. Um atlas dos Corpi Santi em Portugal", envolvendo também as Universidades Católica e Nova de Lisboa, e a Direção Geral do Património Cultural, através do Laboratório José de Figueiredo.
Financiado pela Fundação Ciência e Tecnologia, o projeto Holy Bodies teve início em março de 2023 e terminará no final de 2026. Um livro, publicado em junho, mostra os vários olhares científicos que o projeto já permitiu, abordando os relicários sob várias perspetivas: da história e significado religioso, à sua materialidade e conservação.
Além da publicação do livro e da exposição, a equipa está ainda a preparar um Congresso, para setembro, que será dedicado ao tema.
Este é um projeto financiado pela Fundação Ciência e Tecnologia, em 2022, que depois arrancou em 2023. A temática é muito fora da caixa, mas para nós – equipa – tem um passado, porque há uma tese anterior ao projeto.
É a Universidade Católica do Porto que dá o primeiro passo. Em 2015, recebeu um contacto da Sé do Porto, a dizer que tinham duas urnas muito bonitas no seu espaço, não sabiam o conteúdo, mas tinham muito interesse em recuperar as urnas. A UCP Porto tem o curso de Conservação e Restauro, e as urnas foram para lá. Havia remanescentes ósseos dentro das urnas, e perceberam que, efetivamente, se tratavam de relicários de Santo Aurélio e São Pacífico.
O trabalho de conservação do Santo Aurélio deu uma dissertação de mestrado, da Joana Palmeirão, que eu depois fui arguir ao Porto, e a Joana ficou muitíssimo interessada em continuar o trabalho. Ela teve uma bolsa de doutoramento, que começou em 2017. Estivemos durante quatro anos e meio, mais ou menos, a trabalhar na tese da Joana, o que constituiu um passado muito importante para a criação deste projeto, porque percebeu-se que havia um mundo a descobrir, muito trabalho que se poderia continuar a explorar e a investigar. Montámos uma equipa de orientadores, escrevemos o projeto Santos Corpos, e candidatámo-lo à Fundação para a Ciência e Tecnologia. Teve início a 11 de março de 2023 e vai terminar a 31 de dezembro de 2026.
Ainda está a decorrer neste momento. Essa tese de doutoramento foi só sobre o que foi encontrado na Sé do Porto?
Não, não. O doutor Carlos Evaristo, da Regalis Lipsanotheca de Ourém, já conhecia uns quantos que existiam em Portugal, e nós depois continuamos o trabalho. A Joana focou-se muito nesses, mas depois disso viemos já a descobrir, no projeto, dois novos que não estavam mapeados: o São Clemente, no Palácio de Queluz – que foi descoberto pelo próprio palácio de forma surpreendente, quando foram fazer obras na capela, dentro de um altar, quando abriram viram que havia um corpo, e contactaram a nossa colega, Paula Monteiro, do Laboratório José de Figueiredo.
Depois fizeram chegar à Joana um folheto de uma festa em Monção, dedicada a São Félix, que neste momento já não sai em procissão, porque o corpo já está bastante fragilizado, mas sai o seu estandarte. Foram os dois últimos que descobrimos, já durante o projeto.
Isto é quase um trabalho de ciência cidadã, pedir a todas as pessoas que saibam onde há indícios, porque é impossível nós conseguirmos mapear por nós tudo, seria correr Portugal, todas as igrejas, todas as capelas privadas. Não é possível.
Do que é que falamos quando falamos de Santos Corpos? São relíquias de Santos sepultados nas catacumbas de Roma, e que vieram para Portugal?
Exatamente. Para cá, e não só, foram para todos os sítios. Todo o mundo cristão católico recebeu estas relíquias.
Com a reforma protestante, no século XVI, tudo aquilo que é materialidade da fé acaba por ser destruído, porque não faz sentido para o protestantismo. E o Concílio de Trento vem reafirmar, precisamente, a materialidade: a relíquia, um terço, uma imagem, uma pintura, ajuda os católicos a rezar. Trento reafirma isso e passados 15 anos, enquanto se faziam obras num vinhedo, na Via Salária, em Roma, dá-se a enorme coincidência de se descobrir uma entrada para um cemitério paleocristão (*período inicial do Cristianismo. entre o século II e o século VII). Essa descoberta foi importantíssima nesse momento, porque embora já fossem conhecidas catacumbas, nomeadamente a de São Sebastião - eram conhecidas dos oratorianos, dos jesuítas -, era um conhecimento bastante restrito.
Esta descoberta traz imediatamente à memória dos homens do século XVI o enterramento dos primeiros mártires nessas catacumbas, e toda a comunidade cristã queria ser enterrada junto dos mártires. Estamos neste contexto de reforma contra reforma, e esta possibilidade de ter acesso aos ossos dos mártires serviu para o reforço da fé. Passa a ser um manancial importante para enviar para os países católicos.
Exatamente. Começa-se a fazer a exumação desses corpos. Durante algum tempo, – estamos a falar de 100 anos – vai nascer a arqueologia cristã, com Antonio Bosio, e há todo um trabalho de redescoberta das catacumbas. São, de facto, muitos quilómetros de catacumbas e a Igreja tem um trabalho extraordinário, vai imediatamente criar figuras que passam a ser responsáveis pela exumação e até identificação das relíquias dos mártires – porque nem todos os corpos eram considerados mártires, evidentemente, havia que identificar: se a lápide tinha gravada a palma do martírio, eram logo identificados como mártires, tal como quando se encontrava aquilo que se chama o vaso de sangue, acreditava-se que existia algum sangue do mártir no vaso.
Há aqui um processo que ainda não conhecemos muito bem, porque não existe, ou pelo menos não foi encontrada até o momento, documentação suficiente, para dizer como todo o processo decorria. Começou em 1578. Já no século XVII são criadas estas figuras que vão, de alguma maneira, fazer uma vistoria e certificar os ossos. São eles que recebem os pedidos dos corpos, que vão chegando. Estamos a falar de corpos inteiros, que chegavam em caixas de madeira, desmontados. Sabemos, por exemplo, que Vila Viçosa recebeu alguns corpos, no tempo de D. José de Mello (arcebispo Évora), no início do século XVII, em 1609, 1611, à volta disto.
Na última década do século XVII, através de um colega arqueólogo romano, em Vasto, Itália, conhece-se a primeira montagem de um corpo nesta forma de relicário antropomórfico. Ou seja, já não temos apenas os ossos numa caixa, mas temos os ossos montados numa figura completamente encenada, em diálogo com as artes decorativas do período Barroco. Porque estes relicários não são para estar fechados, como as relíquias normalmente estavam fechadas, em armários, etc, são para estar expostos, são figuras de convite, interpelam quem as observa, para as olhar e para lhes rezar.
O primeiro que vai chegar a Portugal, de que nós tenhamos conhecimento, é precisamente o São Peregrino, que está no Convento dos Cardaes, em Lisboa, em 1703.
Acreditamos que em Portugal não haveria oficina de montagem, mas pode ter havido oficina de remontagem. Há vários deles que foram modificados e pensamos, claramente, que tenha existido um trabalho de remontagem, em alguns casos devido a destruições várias que tivemos, desde as invasões francesas, o terramoto…
Perderam-se muitos. Estas figuras vão ser montadas, tratam-se, portanto, de relicários. Podemos, às vezes, pensar que estamos perante um 'boneco' – por exemplo, uma Santa Teresa do Menino Jesus, que vemos com a sua veste carmelita e as pétalas, ou um Cristo morto, que interpela quem vê. Estes relicários podem ser confundidos com esses 'bonecos' – digo entre aspas, sem desprimor, não estou a falar de uma forma negativa.
Sim. Santa Teresa do Menino Jesus, por exemplo, tem a roupa de carmelita. Estamos a falar de duas tipologias de vestimentas, digamos assim: aqueles que eram masculinos eram vestidos como soldados romanos, e as virgens como esposas de Cristo, algumas bastante mais decoradas, outras mais simples, mas, em geral, bastante decoradas, com pedras falsas, com têxteis de grande qualidade, com muito fio metálico, pétalas, coroas de flores. Um trabalho exímio, de imensa qualidade.
São figuras que interpelam de uma forma muito forte quem as olha – no caso do São Peregrino, temos um altar com um retábulo com um nicho no coro baixo da Igreja, e o São Peregrino está pensado para aquele altar.
Se formos à Baixa de Lisboa, à Igreja da Madalena, do lado de esquerdo está o S. Fulgêncio, claramente pensado para aquele altar lateral. Em S. Nicolau, temos o São Bonifácio e a Santa Vitória, na Igreja de Santo António temos a Santa Justina, e na Igreja dos Mercês temos o São Sabino. Alguns já mais tardios, e alguns mexidos - por exemplo, o caso da Igreja da Encarnação, que tem o Santo Inocêncio, parece-nos que ele foi metido ali, porque está muito baixo, apertado. Não seria a postura original, parece-nos.
Um dos objetivos desta investigação é preservar e valorizar estes artefactos religiosos. Ao todo já encontraram quantos?
Cinquenta e nove. Ainda existem em Portugal 59, mas sabemos que existiram muito mais. Sabemos que veio para Portugal um S. Vítor, para o seminário do Porto, que foi destruído num incêndio. Porque já fomos à Biblioteca Apostólica Vaticana, ao Arquivo Vaticano e ao Arquivo do Vicariato de Roma. Fomos uma equipa, dentro da equipa do projeto, liderada pela nossa colega Fernanda Olival, que é historiadora com especialidade em trabalho de arquivo, e fomos consultar a documentação disponível.
No Arquivo do Vicariato, em particular, há ainda um conjunto de seis tomos, de dimensões consideráveis, onde estão as cartas, os pedidos que foram feitos destes relicários. E foram feitos pedidos para todo o mundo!
Estivemos lá em maio, pela segunda vez. Os pedidos mais curiosos que encontrei foram para as Ilhas Maurícias e para a Austrália. Houve pedidos desde o Canadá, de todo o continente americano, todo o continente europeu, e também para o Leste, por exemplo, Índia, Goa.
Temos de tudo, e pensamos que pode ter havido intermediários. Estamos a estudar esta possibilidade, porque vimos um nome que aparece mais do que uma vez a fazer pedidos em momentos diferentes.
Outras vezes são altos dignitários: temos pedidos para a Imperatriz do Império Austro-húngaro, e a sua família, os Papas, há pedidos de famílias de casas senhoriais, de altos prelados, superiores de ordens religiosas. Estamos sempre a falar de quem tem poder económico, porque não seria possível trazer estes corpos para Portugal sem ser de forma onerosa. As relíquias são oferecidas, mas o trabalho de montagem requer um contrato, e é preciso deslocar o relicário até ao porto de Génova, e daí até Lisboa ou ao Porto.
Sabemos que no caso francês, depois da Revolução Francesa, estes corpos foram enviados ara reabastecerem as igrejas, onde muitos tinham sido destruídos. Também na contra-reforma, nos países de língua germânica foram recebidos muitos, e aí sabemos que eram montados nos mosteiros, porque são de tipologias completamente diferentes daqueles que temos cá: os nossos são o que chamamos estilo italiano, do ponto de vista estético são bastante mais bonitos, com roupas mais trabalhadas e toda a estrutura bastante mais elaborada. Nestes países - Alemanha, Suíça e Áustria - o esqueleto está completamente exposto e decorado com pedras, uma exuberância imensa, que até choca um pouco. É uma coisa um bocadinho "creepy".
Os nossos não. Os nossos podem ser figuras, como um Cristo morto. São figuras que não são sóbrias, porque são muito resplandecentes com os seus dourados, mas são elegantes.
O que tem a ver com cada época histórica. O primeiro a chegar a Portugal foi São Peregrino, que é o que está no convento dos Cardaes, em Lisboa, onde está a decorrer agora uma exposição. Quando veio foi logo para ali?
No caso dos Cardaes sim, porque foi oferecido diretamente à comunidade Carmelita, que vivia no convento. Mas, por exemplo, o conjunto que existe neste momento na Santa Casa de Misericórdia de Almada pertencia ao Conde da Caparica, foi oferecido à Santa Casa de Misericórdia por volta de 1831-1832, possivelmente relacionado com a venda da propriedade, e é lá que estão.
Às vezes, são movidos dentro da própria instituição. No caso de Sé do Porto, sabemos que o Santo Aurélio e o São Pacífico estariam, provavelmente, na nave central, e neste momento estão numa capela lateral. Penso que a Sé tem interesse em voltar a colocá-los na nave central.
Há aqui um aspeto importante, que tem a ver com a mentalidade de finais do século XIX, e já mesmo no século XX, e a forma como o homem católico, e a própria Igreja, olham para a relíquia. Estas relíquias são de uma tipologia muito particular, que é muito diferente da relíquia hoje de Carlos Acutis, de São João Paulo II ou de Santa Teresa do Menino Jesus, que estão perfeitamente documentadas e não há qualquer dúvida sobre a sua veracidade.
Embora a Igreja tenha feito, com as ferramentas que tinha na época, o processo o mais fidedigno e credível possível, sabemos que podem ter ocorrido erros na identificação dos mártires. Por um lado, porque a palma não é garantia de que foram mártires – podiam ser questões decorativas e isso já se discutiu bastante. Por outro lado, os próprios vasos de sangue geraram muita controvérsia, porque já no início do século XX, usando as ferramentas que estudam a materialidade e permitem fazer a caracterização analítica em laboratório dos conteúdos destes vasos – isso foi feito a um conjunto vasto de vasos –, percebeu-se que a quantidade de ferro que existia era demasiado elevada para ser sangue, e que podia ser um vaso de unguentos, porque haveria um ambiente bastante pesado nas catacumbas, de mau odor, etc.
O que nós pensamos hoje é que talvez esta postura (do século passado) tivesse sido um bocadinho radical: a postura das ciências físicas passou a ser determinante sobre a veracidade do martírio. Mas, a parte orgânica - que é aquilo que precisaríamos, de facto, para poder dizer que há marcadores de sangue, ou não - está perdida no tempo, não sobrevive, não vai chegar até nós de maneira nenhuma. Por isso, nunca posso dizer que há, ou não há, sangue nesses vasos, e não tenho condições para dizer se são, ou não são, mártires. O que temos condições de dizer é que, pela datação por radiocarbono conseguimos estimar, com maior probabilidade e certeza, o período em que aquela pessoa pode ter morrido. Temos alguns casos em que a morte pode ter acontecido já nos finais do século IV, século V, o que imediatamente indica que essa pessoa, certamente, não seria um mártir - porque a partir de 313, com Constantino, termina a perseguição à Igreja termina e deixa de haver martírio.
Mas, durante todo o século IV, e ainda no século V, vai haver uma imensa devoção dos cristãos, que querem ser enterrados junto daqueles primeiros mártires....
Queriam ser enterrados o mais perto possível dos mártires, e ficaram também nas catacumbas. Portanto, essa identificação errónea, não intencional, aconteceu.
O Palácio Caldas tem o São Vitório, que é um exemplar excelente... mas, como noutros casos, foi possível identificar que tem ossos de mais do que um indivíduo. A imagem material de alguém que tinha morrido pela fé era tão importante para as comunidades católicas do século XVIII e XIX que autoriza que se juntem ossos, provavelmente de mais do que um mártir, ou suposto mártir, para fazer estas montagens, e que eram batizadas depois.
Estes nomes que estou a dizer, São Vitório, São Peregrino, são nomes batizados, é-lhes dado um novo nome. Estes corpos têm várias camadas, e uma delas é terem um novo nome.
Por exemplo, no Palácio Marquês de Pombal estão Santa Eleonora, Santa Vitória e o São Búrcio, que tinham nome próprio na lápide, na Catacumba, e quando o nome é próprio significa que era o nome original.
Sim. Quando aparece o nome próprio, quer dizer que era o nome verdadeiro da pessoa. Nos outros casos, são nomes que remetem para atributos de Deus, como clemência – Clemente; Aurélio vem de ouro, luz; Pacífico, Peregrino... começamos a perceber que são atributos. Como em Vitória, relacionado com vitorioso, a vitória sobre a morte, etc.
É curioso que temos vários Clementes em Portugal, havia talvez uma predileção por este nome que foi sendo dado, e temos vários espalhados pelo país.
Este projeto não termina, está sempre em aberto. Somos cientistas das ciências físicas, não só das ciências humanas, mas não temos qualquer pretensão de identificar mártires. Os objetivos são, por um lado, perceber o que é que temos ali, o que é que são estas figuras? Porque a descredibilização que tiveram no início do século XX, a dúvida sobre os vasos de sangue e sobre a palma, fez com que se pusesse em causa a grande maioria destes relicários. E isto não aconteceu só em Portugal, aconteceu por toda a Europa e por todo o mundo.
Muitos deles foram retirados dos locais onde estavam, foram tapados. Por exemplo, o Clemente, de Queluz, está dentro de um altar, um armário que fecha, e o Vitório, no Palácio Caldas, tem um frontal de altar de madeira que foi aparafusado e que se tapou. Muitos foram escondidos, ou retirados do local onde estavam, perdeu-se completamente a noção do que é que temos, não foi transmitida a informação. Claro, há casos em que foi mantida: por exemplo, a casa de Mateus tem um, e esse mantém-se conhecido, mas há outros que se foi perdendo completamente a informação de que se tratavam de relicários.
Em alguns casos pensa-se que são corpos incorruptos, porque são construídos com camadas de gases. Havia três tipologias: os primeiros que chegam – como terá chegado o Vitório, que é um exemplar excelente porque está inalterado, tem apenas uma fina camada de gases a cobrir o rosto. O Peregrino já não está assim, tem uma máscara com várias camadas de gases, e isto provavelmente terá acontecido mais tarde, porque os que nos aparecem, por exemplo, nos anos 70 do século XVIII, esses já tinham máscara feita em várias camadas. O caso do Clemente, no Palácio da Queluz, tem ainda uma tela branca que reveste o corpo também. Depois, mais tardios, aparecem os ceroplásticos, que são feitos de cera ou de cartão com gesso. Vai-se evoluindo. Os primeiros têm muito mais osso exposto, nomeadamente a caveira.
Exatamente. Depois deixou de se tornar agradável à vista e começaram-se a criar estas máscaras, que seriam colocadas provavelmente num molde de gesso, que depois era partido e ficava-se com o rosto humano, que em alguns casos, com o tempo, escureceu e parece um corpo incorrupto. Os mais tardios, em cera ou gesso, parecem mesmo um rosto humano.
O que é que pode ser visto até 13 de agosto na exposição no Convento dos Cardaes?
Temos dois núcleos, um núcleo fotográfico e um núcleo de uma exposição imersiva, com óculos de realidade virtual. As duas têm o mesmo objetivo: são monotemáticas, é apenas sobre os Corpi Santi e os seus "Simulacra" – palavra latina 'simulacrum, simulacra', quer dizer precisamente o simular do corpo. Focamo-nos apenas nessa tipologia de relíquia, nestes corpos inteiros.
Existem em Portugal ainda 59, na zona do bairro Alto e da Baixa de Lisboa há uns quantos - também há o Santo Urbano nas Chagas, e o São Sabino, nas Mercês, não os tinha referido ainda; e Santa Prima, que está no Palácio Mitelo, mas que não está acessível, era um dos que pertenciam ao Marquês de Pombal. O que pretendemos é divulgar, mostrar o que são efetivamente, e onde se encontram.
É um núcleo fotográfico, temos as fotografias. Não é exaustivo, não temos os 59, mas temos um conjunto já abrangente desde Almada até ao Minho.
Alguns sim, como os de Guimarães, estão nas igrejas. Os de Lisboa também. O do Palácio Nacional de Queluz não, está fechado, e o de São Nicolau, no Porto, está tapado. Mas, os da Sé do Porto estão numa capela pequena, infelizmente neste momento não podem ser vistos, o que é uma pena, porque são mesmo muito bonitos, mas tenho esperança que voltem para a nave principal, porque foram recuperados.
No núcleo fotográfico o que se pretende é mostrar, por um lado, a equipa em ação. Temos várias fotografias da equipa a estudar para perceber como é que chegamos ao simulacro, nalguns casos trabalhamos in situ, temos de subir a altares, etc, e queríamos mostrar esse trabalho.
Depois, temos o núcleo dedicado ao São Peregrino, que inclui uma radiografia que mostra aquilo que não se vê: toda a montagem e estrutura, os ossos, os ferros que são usados para suportar o corpo, uma rede de malha quadrada que anos mais tarde vai evoluir para uma malha hexagonal. Todos estes pormenores podem ser vistos nessa radiografia.
Depois, lateralmente, temos o núcleo dos vários "simulacra" espalhados pelo país, pormenores fotográficos do São Peregrino e pormenores de microscopia ótica e eletrónica de varrimento. O que estamos a ver são ampliações que geram imagens, que não têm leitura única, porque esta técnica da microscopia permite ver quer as fibras, quer o fio metálico e a sua corrosão.
Queríamos mostrar uma materialidade que, para uma pessoa que não tem uma formação nas ciências físicas, pode ter uma leitura completamente livre, e isso é muito interessante também.
A investigação já resultou num livro que foi apresentado no início de junho, agora há esta exposição. Que reações é que têm tido? Há interesse? Isto tem suscitado curiosidade nas pessoas?
Sim, muito interesse. Nós fizemos uma primeira exposição, com os óculos de realidade virtual e a versão desktop, que agora estão também nos Cardaes. Esteve duas semanas na Sé de Évora, em dezembro de 2025, e nessa altura deixámos – como agora nos Cardaes – um questionário em português e em inglês, para a exposição virtual, para que as pessoas pudessem manifestar que tipo de sentimentos é que tinham.
Tivemos resultados interessantíssimos, o feedback foi muito bom. As pessoas estão muitíssimo interessadas, não faziam a mínima ideia. Houve pessoas que foram de propósito de Lisboa a Évora para ver a exposição virtual. A Sé de Évora tem um número muito grande de visitas diárias, e nessa altura tivemos pessoas de todo o mundo que passaram e preencheram o questionário.
Também tenho tido feedback muito positivo dos próprios sacerdotes e dos donos, digamos, dos relicários, como a Misericórdia da Almada, o Palácio Marquês de Pombal ou o Palácio Nacional de Queluz.
Nós tentamos desconstruir, para o público em geral, e quem detém as peças, perceber o que é que tem, e valorizar. Embora possamos olhar para elas, num primeiro momento, como um objeto de património, não podemos 'coisificar' estas peças, porque temos várias camadas: temos, em primeiro lugar, remanescentes ósseos humanos, que merecem toda a consideração, e depois há uma outra camada, que é a camada religiosa. Embora em muitos casos possa já não haver uma devoção, muitos ainda continuam em espaço sacro, dentro das igrejas, e tiveram muita devoção ao longo dos séculos.
Há um respeito que tem de haver, parece-me a mim, pelo passado, independentemente de hoje questionarmos se foram mártires, ou não. Há muita relíquia que se sabe que não é verdadeira e, no entanto, a população, o devoto não se preocupa com isso. São camadas e camadas de devoção ao longo dos anos, que dão vida àquela relíquia, independentemente de ela ser verdadeira, ou não.
E que, por esse feedback que também têm tido, são relíquias que continuam a fazer sentido neste século XXI?
Tal e qual. Para mim é muito importante que este estudo, que nasceu na universidade, leve conhecimento à sociedade civil, ao público em geral, aos donos destes relicários, para que se perceba algo que ficou praticamente perdido durante o século XX e que se tornou esquecido, deixou-se de se interpretar, deixou-se de se perceber e que foi tão importante.
Estou a pensar no São Marciano, no Sobral da Lagoa, há a descrição das festas que houve quando chegou, a sua valorização. Há um registo, no Palácio Nacional de Queluz, da deslocação da rainha ao Palácio Marquês de Pombal para ver os relicários que o Marquês recebeu. Isto foi algo que foi, de facto, importante na sociedade portuguesa durante quase dois séculos.
Em alguns casos ainda existe muita devoção: em Louriçal do Campo, onde está o São Fiel, que foi pedido para o Colégio de São Fiel, e ainda hoje a população mantém a devoção. Ou em Monção, com o São Félix, que já não sai em procissão porque está muito fragilizado, mas sai o seu estandarte.
Há cerca de três meses estava na igreja de São Nicolau, em Lisboa, fui olhar novamente para o São Bonifácio, e de repente vejo uma senhora parada frente ao altar. Estava a rezar. O altar tem uma imagem, uma pintura, vários santos, e São Bonifácio por baixo. Tive curiosidade, e perguntei: 'mas, a senhora inclui nas suas orações o São Bonifácio?'. 'Sim, claro. Ele está aqui, estou a rezar a ele também. Rezo a todos os santos deste altar, não há problema nenhum de rezar a todos". Ou seja, há muita devoção que nós não conseguimos documentar, o que é uma pena, mas que continua a existir. As pessoas têm devoção, mesmo sem saber muito bem que se trata de um relicário e que são remanescentes ósseos das catacumbas de Roma. Não interessa, está ali o Santo, e rezam.
Mas, com este projeto e esta divulgação, há aqui também um cuidado em evitar que isto se transforme num turismo da morte?
Sim. Queremos muito valorizar estes relicários, considerando a sua função inicial, que era uma função de devoção e oração. Não queremos que sejam considerados esse turismo da morte, nem que sejam vistos de uma forma negativa, valorizando o macabro.
Tem existido, sim. No caso da Alemanha, houve uma exploração mais virada para essa vertente, porque os esqueletos estão expostos e estão decorados de uma forma exuberante, com as pedras. Pode-se ter caído num turismo de morte, de culto do macabro, coisa que nós não queremos, de todo, porque os nossos não são isso, nunca foram isso. Aqui o que se pretende é mostrá-los tal como foram, para que é que serviram e as funções que cumpriram.
Em Portugal, em particular, podiam ser vistos como formas de poder: para os trazer, era preciso haver, de facto, disponibilidade económica, não era qualquer pessoa que recebia um corpo, eram pessoas ou famílias importantes, a coroa, etc. Todo esse conjunto de camadas - quer a devoção popular, quer estas formas de poder - são aquelas que devem ser vistas nestes corpos e nunca o macabro, porque o macabro não entra neste jogo.
Creio que ainda teremos aqui bastante trabalho para fazer, porque não se esgota. Mas é, de facto, muito recompensador o feedback que temos tido.