Temos tempo livre, mas não descansamos? "É um lazer sério. Tenho de ser produtivo no meu descanso"

  • 23/07/2026 14:00
  • Redação

Ter uma vida harmoniosa continua a não passar de uma miragem. Segundo estudos da Fundação Europeia para a Melhoria das Condições de Trabalho e de Vida, o equilíbrio entre vida pessoal e profissional em Portugal piorou em 2024: subiu para 30% nesse ano o número de inquiridos que dizem preocupar-se com o trabalho em casa e também os que dizem que o trabalho os impede de passar tempo com a família.

Os culpados não são difíceis de adivinhar: por um lado, a estrutura de trabalho que “herdámos do século XIX” e, por outro, a tecnologia que esbateu todas as fronteiras.

E, na visão desta especialista, os desejos por “flexibilidade” que muitos trabalhadores europeus pedem hoje em dia não passam de uma visão “romântica”: até pode ser bom não ter um horário fixo de sete ou oito horas de trabalho, mas os riscos podem rapidamente ultrapassar os benefícios.

“Em termos abstratos, a ideia é muito atrativa, mas a tecnologia tornou o nosso trabalho muito portátil. O lazer também é permanentemente mediado por ecrãs, por plataformas digitais e, portanto, o trabalho entrou-nos no bolso. Quando o trabalho nos entra no bolso, através do telemóvel, entra também no jantar, nas férias, no fim de semana.”

Por essa razão, Ana Rita Cruz lamenta que a reforma laboral que esteve em debate no Parlamento também fosse uma “perda de direitos” no que toca ao tempo livre e ao lazer. O caso, diz, é especialmente preocupante para a geração Z que têm “ainda maior dificuldade” em usufruir de tempo livre, perante a “precariedade laboral” e o stress provocado por problemas como “as rendas elevadas”.

E, por essa razão, frisa que, mais do que nunca, o foco agora tem de ser a “proteção”. “No século XX, a luta foi conquistar o tempo livre. No século XXI, talvez seja protegermos esse tempo para termos tempo verdadeiramente livre”.

Uma story na praia, outra com o jantar e ainda mais uma de copo na mão ao final da noite. As partilhas nas redes sociais em tempo de férias tornaram-se numa constante – e, se para uns, é uma rotina normal e sem pensar em quem vê ou comenta, para outros é produto de “pressão social”.

“O nosso descanso fica também muito contaminado pela pressão da disponibilidade, de poder ser contactado a qualquer momento, a pressão da produtividade. Mesmo quando estou a descansar, tenho de ser produtivo no meu descanso. E depois a pressão também da exposição e de publicar o que fiz”, afirma Ana Rita Cruz.

Por detrás de muitos destes comportamentos, há a vontade de mostrar “autenticidade” e de replicar o trabalho dos influenciadores digitais. Mas, recorrentemente, isso leva a um paradoxo: a tentativa de ser autêntico passa a exigir trabalho. “E, por isso, a autenticidade tornou-se muito rapidamente uma das mercadorias mais desejadas do turismo contemporâneo”, lamenta.

Este padrão de exigência é identificado pelos sociólogos em alturas de férias, mas também no lazer do dia a dia. Ana Rita Cruz indica o conceito de “lazer sério” que, muitas vezes, ajuda a explicar como as atividades do tempo livre se tornam numa forma de “afirmação identitária” das pessoas.

“Não são trabalhos no sentido clássico, porque resultam de uma escolha individual, mas também não são um mero passo a tempo casual, porque exigem a continuidade e o compromisso. Por exemplo, o teatro amador, a pessoa tem de ir aos ensaios e apresentá-la em palco”.

Toda esta exigência pode acabar a cansar e isso também ajuda a explicar o crescimento de pacotes turísticos construídos na experiência da “desconexão”, nomeadamente em caminhadas, retiros ou turismo cultural. Mas também aqui há contradições frequentes.

“Muitas vezes, fazem-no guiados por aplicações. Vamos fazer caminhadas com mapas digitais, baseados em rankings, em fotografias que vimos também nas redes sociais, recomendações de plataformas. A desconexão é organizada através de mediadores digitais”, assinala.

  • Fonte: Rádio Renascença
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