Barco solar vai percorrer costa portuguesa pela primeira vez

Barco solar vai percorrer costa portuguesa pela primeira vez

  • 24/07/2026 12:42
  • Redação

Um barco totalmente elétrico vai percorrer o litoral português praticamente de uma ponta à outra a partir desde sábado. A expedição-piloto — nomeada “Invocatio” — é desenvolvida pela FEUP Academic Solar Team, uma equipa de estudantes de engenharia daquela faculdade portuense e pretende alcançar um feito inédito: fazer a primeira descida da costa portuguesa num "solar boat" (ou barco solar).

Para tal, o grupo concebeu a embarcação "Atlântico", o primeiro protótipo tripulado feito totalmente de fibras naturais que trabalha com recurso a energia solar. Partindo de Matosinhos, a expedição-piloto vai cumprir um percurso de aproximadamente 800 km até Vila Real de Santo António. Vai ser "um marco inédito na engenharia naval nacional”, garante a organização.

A expedição experimental vai servir para testar o protótipo nas condições reais do Oceano Atlântico, “permitindo monitorizar o desempenho dos seus sistemas e validar as soluções tecnológicas implementadas”. Desta forma, o grupo composto por cerca de 50 estudantes pretende contribuir para uma transição da engenharia naval “mais sustentável”.

“Temos tido um compromisso inabalável com a sustentabilidade e pretendemos mesmo alinhar a sustentabilidade e a inovação tecnológica", admite o estudante. "Sendo [o Atlântico] o primeiro protótipo desta classe feito de fibra de linho, tem essa componente associada: a componente da sustentabilidade”, explica Gonçalo Marques, que assegura que essa preocupação com a sustentabilidade esteve presente "desde o primeiro momento", a começar, precisamente, pelos materiais utilizados para construir o casco.

“A maior parte das embarcações de competição — não só da Solar Class [Categoria Solar], mas de outras classes — são feitas com fibras sintéticas: a fibra de vidro ou fibra de carbono, por exemplo. No nosso caso, utilizamos fibras naturais. A fibra de linho é, basicamente, o linho das nossas camisas, só que menos processado”, elucida o responsável, que relembra que o linho, "durante o seu tempo útil de vida", também absorve dióxido de carbono e, por isso, ajuda a “reduzir algumas das emissões que são inevitáveis de fazer durante o processo de produção", passando a ser “um exemplo da aplicação de materiais sustentáveis em contextos de elevado desempenho”.

Já no que diz respeito à energia que o propele, o Atlântico, enquanto barco alimentado a painéis solares, foi desenhado para utilizar "baterias de dimensão inferior", o que o obriga a fazer a viagem ao longo da costa em 16 etapas - divididas por 16 dias.

A equipa vai aproveitar a travessia faseada para "espalhar a palavra" da "sustentabilidade no setor naval" junto do público. Para o conseguir, à chegada e saída de cada porto vão ser dinamizados “momentos de contacto" com quem visitar o "Atlântico" para partilhar o trabalho desenvolvido pelo grupo.

A vertente social da iniciativa não se fica por aqui: antes de zarparem, já estiveram em escolas básicas e secundárias "a mostrar aquilo que a engenharia é". "Não só a engenharia naval, mas o que é que se pode fazer com a engenharia e como é que podemos tornar isto algo benéfico para a sociedade”, conta o estudante. "O nosso objetivo é mesmo esse: aproximarmo-nos da sociedade, mostrar o que fazemos, qual a importância daquilo que fazemos e, eventualmente, inspirar alguém.”

O projeto está a ser desenvolvido em regime de atividade extracurricular, pelo que levantou desafios ao grupo de estudantes, todos do curso de engenharia da Universidade do Porto, que tiveram de conciliar "toda a vida académica, pessoal e ainda a vida na equipa". O outro grande obstáculo foi o financiamento, revela Gonçalo Marques, que admite que este “não é um projeto particularmente barato”. “Sendo um grupo de estudantes, é um caminho longo para conseguirmos um financiamento adequado”, admite o jovem, que lamenta ser "sempre complicado" conseguirem entidades que apoiem alunos e confiem neles "para levar o projeto avante”.

Mesmo assim, e depois de meses de desenvolvimento e preparação, a Invocatio vai mesmo, este sábado, fazer-se ao mar, “o seu maior desafio". “Missão concluída com sucesso é metermos o barco na água e só o tirarmos em Vila Real de Santo António, quando tivermos toda a costa portuguesa feita”, afirma Gonçalo Marques, confiante de que esta expedição pioneira de 16 dias vai servir para combinar conhecimento científico, ambição e uma visão sustentável para o futuro da navegação.

  • Fonte: Rádio Renascença
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