A democracia tem horror ao vazio
- 24/07/2026 15:06
- Redação
Sem confiança no Estado e nos seus protagonistas a credibilidade da ação política desmorona-se.
O fator mais importante nem é o acerto das decisões. Haverá, como sempre, quem defenda e quem discorde de decisões e de políticas. Em democracia, tal discussão é saudável, para não dizer indispensável.
O mais importante é conceber e aplicar medidas de modo consistente, assentes numa racionalidade defensável e escrutinável. Sem unanimidade, mas com densidade. E sem deixar que o excesso de voluntarismo deite a perder as melhores intenções.
A falta de justificação e fundamento de decisões ou a sucessão de verdadeiros "pensos rápidos", para atacar epidemias, acaba por destruir a ação política e fragiliza os seus responsáveis.
Outro fator essencial: quando a integridade de um dirigente político é sucessivamente posta em causa, por indícios alegadamente criminais, e não há, consecutivamente, respostas cabais e consistentes, a confiança dos cidadãos é diretamente afetada.
Em simultâneo, a sugestão que entre organismos policiais e judiciais do Estado pode estar a decorrer um confronto político, protagonizado por diferentes campos ideológicos é, no mínimo, aterradora.
Nas últimas semanas, as áreas da Educação, num caso, e da Administração Interna, no outro, têm estado debaixo de fogo cerrado. Embora por razões muito diferentes que não podem confundir-se nem misturar-se.
Desse ponto de vista, o ministro Fernando Alexandre tem assumido, de frente e sem fugas, as ondas da tempestade.
Porém, objetivamente e nas duas situações, o descrédito não é pequeno. E se não houver ações reparadoras e convincentes, em ambos os casos e no curtíssimo prazo, as consequências serão seguramente maiores.
Quando surgem estes episódios num governo moderado (seja ele mais à direita ou mais à esquerda) os extremos esfregam as mãos. Como se fossem porta-vozes admiráveis de uma credibilidade perdida e que eles próprios não têm.
O pior que nos podia suceder é a sobranceria política dos moderados entregar à extrema-direita e à extrema-esquerda o papel de guardiões do regime.
Porque a democracia tem horror ao vazio, às vezes preenche-o da pior forma possível.