As drogas criaram "uma sombra", mas Vasco Ribeiro está de volta três anos depois: "É a minha maior vitória"

As drogas criaram "uma sombra", mas Vasco Ribeiro está de volta três anos depois: "É a minha maior vitória"

  • 28/07/2026 01:30
  • Redação

O mundo cabia na prancha de surf de Vasco Ribeiro, aos 19 anos de idade. Mas os desportistas "não são máquinas". Quando o vício bateu à porta, Vasco, assoberbado pelo peso da expectativa, deixou-se levar. A queda foi grande e arredou-o do surf por três anos. Agora, está de regresso e espera que a sua história possa ajudar alguém.

"Eu às vezes era uma sombra, estava mas não estava", conta o surfista, de 31 anos.

Vasco recorda que "tinha muita vergonha de pedir ajuda" e não tinha plena noção das linhas que pisava. Teve de aprender que "sozinhos não vamos a lado nenhum" e agora, sóbrio, admite que cada dia é "uma escolha, usar ou não usar".

"Eu escolho não usar", sublinha o surfista, que, apesar das dificuldades, olha para o caminho feito com orgulho: "Competir bem, competir presente e limpo, e estar aqui hoje, para mim, é a minha maior vitória. É o meu maior título."

Passados três anos desta batalha que nunca termina, Vasco Ribeiro conversa com Bola Branca sobre o peso do talento, a saúde mental, a "normalização" das substâncias, que critica, e o regresso, marcado para 5 de agosto, no Reino Unido, a contar para o circuito de qualificação europeu da World Surf League.

Antes desta re-estreia como surfista, como é que se sente? Quais são as sensações?

Antes de mais, obrigado por me receberem aqui. Agora sinto-me um bocado nervoso [risos], mas sinto-me bem e estou feliz e muito contente por estar aqui a falar também. Estou com alguns nervos, mas estou bem.

As sensações são ótimas. Ao longo destes últimos anos, voltar a estar dentro de água, voltar a aprender a gostar de estar no mar, e não sendo só como trabalho, foi uma grande vitória e é algo muito bom para mim. Tudo isto agora está a ser um bónus e está a ser incrível, e as sensações são ótimas, como é óbvio.

Os meus pais e os meus avós têm um restaurante na Praia da Poça e, portanto, eu nasci na praia, ali no Estoril. O meu pai já fazia surf e ainda faz, portanto, foi um bocadinho através de ir vendo o meu pai, ir vendo as pessoas ali.

Aí por volta dos seis, sete anos, comecei a entrar na água. As coisas foram evoluindo, fui fazendo alguns surfs com o meu pai. Às vezes ia, outras vezes não ia, porque tinha medo. E depois, aos nove anos, comecei a treinar com os meus atuais treinadores, o David e o Telmo, quando eles começaram o grupo de treinos. E o resto é história. Foi na altura o começar a fazer os campeonatos, foi o começar a fazer as primeiras viagens. Olhando para trás, são as melhores memórias que eu tenho.

E foi uma ascensão, penso que podemos dizer isto, meteórica também. E depois, ao longo dos anos, a expectativa também cresceu em torno do talento do Vasco. Foi fazendo contratos maiores, a pressão também foi crescendo. Sentiu esse peso, o peso do talento?

Eu acho que ao início não. Ao início, era uma criança muito ingénua, para mim não era um trabalho. Era mais um dia, era ir surfar, era estar com os meus amigos, os meus treinadores, a minha família que sempre me acompanhou.

Depois, vem esse peso todo, que é normal quando uma pessoa se torna profissional, mas pronto, faz parte de uma pessoa lidar com isso.

Mas também sente que a certa altura começou a ser demais ou, pelo menos, cada vez mais difícil de lidar?

Sim. As coisas depois começam a ficar cada vez mais sérias e eu acho que o especialmente difícil de lidar foi a expectativa exterior. Obviamente, representar Portugal é o meu maior orgulho de sempre, mas, com isso, também vem um bocado essa responsabilidade de as pessoas gostarem do que eu estava a fazer, do meu trabalho, mas ao mesmo tempo também quase que estão sempre a exigir que eu ganhe.

Cada vez que eu não ganhava, cada vez que as coisas não corriam tão bem, eu sentia esse peso de estar a desapontar. E não era bem assim, obviamente, mas era assim que eu via as coisas. Essa expectativa de fora, a expectativa que eu também carregava para dentro — uma expectativa muito alta de que, se não ganhasse, era quase como se não valesse a pena. Lidar com isso, enquanto criança — estamos a falar de 16, 17, 18 anos — foi muita coisa para ter de lidar com tudo ao mesmo tempo. Mas, olhando para trás, foi bom e eu acho que, nessa altura, fui gerindo da melhor maneira possível.

Ao longo dos anos, acabou por desenvolver uma adição às drogas. Como é que começou, qual foi o primeiro contacto? Como é que tudo aconteceu, no fundo?

Acho que foi entrando na minha vida. Eu nem gosto muito de falar disso, obviamente, mas faz parte e é um bocadinho da minha história.

Foi entrando na minha vida, aos poucos, como uma fuga, como um escape. Um escape para a minha vida profissional e para a minha vida pessoal, muitas vezes. E pronto, depois uma pessoa acaba por perder o controlo e aquilo é uma espiral. Uma espiral que não tem como parar.

É um bocadinho por aí, eu acho que foi entrando ao longo dos tempos, com o não querer lidar com as pressões, com o não saber lidar com isso, com o já não estar a conseguir estar nas expectativas e nos resultados de que eu estava à espera e que as outras pessoas esperavam. Acabou por ser uma fuga, um escape.

Sem querer estar a mexer muito na ferida, como é que começou? Ou seja, foi um fácil acesso nas viagens, festas a seguir a competições? Como é que teve esse contacto?

Infelizmente, hoje em dia, em Portugal — em Portugal e em todo o lado —, o acesso não é muito difícil e cada vez as coisas estão mais normalizadas, o que a mim faz imensa confusão.

Eu acho que o primeiro acesso, o primeiro contato, deve ter sido com pessoas, com amigos, em algum sítio. Sinceramente, é uma coisa que eu não me apetece muito relembrar, nem pensar, porque felizmente faz parte do passado, e é uma coisa que já está...

Mas sim, mas eu acho que também é importante tocar no ponto de que, hoje em dia, está tudo muito normalizado. É preciso ter cuidado e eu acho que também é um bocado por aí que eu gosto de poder falar e contar um bocadinho mais. No meu caso, não tinha noção. Mas é uma coisa que eu prefiro não falar muito, porque, realmente, já está no passado. E essa parte mais de detalhes, especialmente, acho que não faz parte.

Sim. Na minissérie documental que lançou agora sobre o regresso ao surf, um dos seus treinadores diz que "sabiam e não sabiam" que algo estava errado. Houve uma competição na África do Sul que foi um alerta. O Vasco disse também que, como as pessoas diziam que estava muito bem, ia cada vez mais longe. Como é que conseguiu manter isso escondido e como foi essa sensação de estar a tentar o risco?

Essa sensação de achar que estou a conseguir esconder e controlar, e esse episódio que aconteceu na África do Sul retrata muito bem... Essa parte foi muito difícil, porque como ele disse, "sabíamos, mas não sabíamos", e uma pessoa nunca sabe muito bem o que é que se passa com outra pessoa, a não ser que essa pessoa partilhe. Eu era uma pessoa que não partilhava muitas coisas, guardava tudo muito para mim. Afastei-me das pessoas que me eram importantes, porque também tinham muita vergonha de não estar bem e também de não saber como lidar com isso. E pronto, eu acho que só o facto de eles estarem ali, e só o facto de eu poder ter um sítio e pessoas com quem eu pude falar, ajudou muito.

Muitas coisas eles não sabiam, porque eu escondia, ou tentava esconder. Também acho que é muito importante essa parte de que as pessoas muitas vezes diziam que eu parecia bem e que estava bem. E eu vejo isso acontecer diariamente com "n" pessoas. É um bocado aquela falsa crença de que está tudo bem e isso dá-nos aquela ideia de que "ok, se calhar não estou assim tão mal", e muitas vezes acaba por ser um gatilho para uma pessoa chegar cada vez mais fundo. Eu, pelo menos, pensava para mim: "Bem, se eles acham que eu estou bem, se calhar não estou assim tão mal."

Um sorriso esconde muita coisa. E eu tinha um sorriso que mascarava um bocadinho as coisas. As pessoas perguntavam-me: "Então e estás bem?" E eu respondia sempre: "Sim, está tudo bem." E não conseguia dizer que não estava bem, não conseguia dizer que precisava de ajuda. Até a um certo ponto, obviamente. Acho que esse episódio é bom e foi muito importante para mim, porque foi aí o ponto de viragem e a primeira grande ajuda. O pedido de ajuda.

Foi confrontado em casa dos seus pais, depois dessa competição na África do Sul. Conta, também, que quis fugir várias vezes. Já falou um bocadinho, agora, da vergonha, mas como é que foi, na altura, ter de encarar as pessoas mais próximas e ter de se encarar a si próprio?

É, isso aí foi… Só de pensar nisso, parece que estou a reviver esse dia outra vez.

O admitir que tinha um problema, que tinha uma adição, que tinha uma doença que é a adição, admitir que não tinha controlo, admitir que precisava de ajuda — e eu sempre fui uma pessoa que achava que conseguia resolver tudo sozinho, ou que conseguia fazer as coisas sozinho. Sempre tive muita vergonha de pedir ajuda. Isto era um bocadinho aquelas ideias pré-concebidas que eu tinha, que não podia pedir ajuda e que tinha de resolver tudo e que tinha de esconder. E nessa semana, eu lembro-me de pensar várias vezes, antes de ter recorrido a ajuda profissional, que queria fugir, que não estava assim tão mal e que não queria encarar isso, não queria olhar para o meu problema.

Porque também tinha muito medo. Não sabia o que ia acontecer, não sabia o que estava a acontecer na minha vida. A fuga era um bocadinho para aí, era medo, mais uma vez, de enfrentar os problemas que estavam à minha frente. Ainda bem que não fugi.

Durante algum tempo, o meu maior medo foi o medo de morrer. O medo de perder aquilo que eu depois voltei a perceber que tinha de tão bom na minha vida, que é a minha família, as minhas filhas, amigos. Isso era um grande medo que eu tinha. Comecei a perceber que poderia perder isso tudo e que podia não estar aqui hoje. É uma coisa que eu não pensava nunca e esse medo estava lá, e está cá muitas vezes.

Depois, era um bocadinho o medo de não saber viver, nem com, nem sem o álcool e as drogas, as substâncias. Isso foi super difícil porque tive de reaprender a fazer isso. Quando pedi ajuda, tive essa ajuda e agora estou aqui, mas nem sempre foi fácil. Nem sempre é fácil lidar com isso, nem sempre é fácil optar pelo que eu vou fazer no meu dia, porque isto é sempre uma escolha, usar ou não usar. E eu escolho não usar, mas a verdade é que, como eu disse também há bocado, hoje em dia é tudo tão normal e está tudo tão normal, que às vezes é difícil.

Tento proteger-me o máximo possível e tenho pessoas à minha volta que me protegem, que me ajudam, e pronto, e fica tudo muito mais fácil. Mas as coisas estão cá, as coisas estão aí. E esse era um dos meus medos, era o não saber como é que ia ser a minha vida daí para a frente, como é que eu ia viver, como é que eu ia fazer as coisas, como é que eu ia simplesmente beber um café. Todas estas pequeninas coisas que são tão banais, tão normais e de que naquela altura eu tinha medo.

Agora, obviamente, já superei muitos desses medos. Continuo a ter muito medo de muita coisa, mas também tenho ajuda e isso é fundamental.

E o que é que o fez seguir em frente, querer continuar a dar esses passos na reabilitação?

Acaba por acontecer de dia para dia. É um processo de um dia de cada vez. Fui começando a ganhar algum brilho, algum amor próprio. Fui começando a gostar cada vez mais de estar, realmente — de estar mesmo, de estar fisicamente. Eu às vezes era uma sombra, estava mas não estava. E voltar a estar presente com as pessoas que me são importantes, voltar a aprender a gostar de estar na água... A vida a desenrolar-se, o ter de recomeçar a fazer alguma coisa para além de competir, as aulas de surf, ensinar, que era uma coisa que eu também não sabia que gostava. Porque muitos anos foi só competir e, então, eu não sabia, sequer, se sabia ensinar ou não.

Portanto, todas estas coisas foram muito importantes e são muito importantes para me darem força para continuar. Quando estou a ter um dia mau, paro e penso e realmente sou grato pela vida que tenho e pelas pessoas que tenho na minha vida, pelo apoio, pela ajuda, por aquilo que eu já construí. Tenho muito orgulho nisso, porque, há quatro anos, se me dissessem que eu ia estar aqui hoje a falar contigo, eu não acreditava. Só preciso de me lembrar disso, isso é a força de que eu preciso.

Como disse ainda há pouco, a adição é uma doença e é uma luta diária. Como é o dia a dia e como mudou o dia a dia para si, de há quatro anos para cá?

Foi um bocadinho do dia para a noite. Hoje em dia, o meu dia é normalíssimo: acordo, faço as coisas que tenho de fazer, vou trabalhar, vou treinar, estou com as minhas filhas, com a minha namorada, com a minha família. É estar atento. Basicamente, é estar atento, ter consciência das coisas, ter consciência de que eu tenho, realmente, uma doença, que é a adição, e tenho de ter esse cuidado e essa atenção, mas é um dia normal.

Vou treinar de manhã, dou aulas, faço um dia normal. E é tão bom. É tão bom poder fazer isso, porque, há quatro anos, isso não existia na minha vida. Ter estas pequeninas vitórias, pequeninas coisas na minha vida, que não são pequeninas, mas que eu olhava na altura e pensava que eram, é isso que é o meu dia a dia. O meu dia a dia é isso, é com consciência, é estar atento para não repetir os mesmos erros e andar para frente, evoluir, aprender e tentar ser o melhor possível.

Temos, em geral, uma ideia comum, mesmo que inconscientemente, de que os atletas de topo são máquinas. O que não é de todo verdade, são tão humanos como qualquer outro. Mas como é confrontar essa realidade de que ninguém é à prova de bala?

Hoje em dia, é uma maravilha [risos]. Isso foi o que me deu vida, foi o admitir que, realmente, não sou uma máquina e que preciso de ajuda.

Eu olhava, antigamente, para o não pedir ajuda e não querer mostrar que não estava tudo bem, como sendo uma pessoa forte. Isso era o que eu achava que era ser uma pessoa forte e uma pessoa corajosa. Hoje em dia, para mim, uma pessoa forte é uma pessoa que pede ajuda quando precisa de ajuda, e consegue ser vulnerável e consegue falar sobre isso.

Eu não sou uma máquina, nem eu nem nenhum atleta. Claro que há muita disciplina, há muita coisa que nós fazemos, há muitos treinos. Por isso é que as pessoas muitas vezes acham que nós somos máquinas, pelos horários, por aquilo que fazemos, pelos treinos, por tentarmos estar sempre ali no nosso 100%. E depois daí, também, quando não estamos, vem esta pressão e esta expectativa. Não é só no surf, é no desporto em geral. Mas a verdade é que nós não somos máquinas. Eu, pelo menos, não sou máquina.

Por isso é que, hoje em dia, se fala tanto da saúde mental e realmente é importante. Hoje em dia, eu trato a minha saúde mental como um treino físico. Da mesma maneira que eu treino o físico todos os dias, também tenho as minhas consultas com o meu terapeuta, com a minha psicóloga, com isso tudo. Tenho amigos com quem falar. E isso faz parte do meu treino, isso é um treino para mim. Portanto, eu não sou uma máquina, não quero ser uma máquina, e acho que deixar cair essa capa e deixar cair essa máscara, de que realmente não sou uma máquina, foi um alívio muito grande.

Nunca pensei que fosse dizer isso, mas a verdade é essa, é que eu não sou uma máquina e também não quero ser [riso].

Se pudesse agora passar uma mensagem a alguém que esteja, neste momento, a bater no fundo, e sozinho, o que é que diria?

Diria para ter força, para continuar, para pedir ajuda. Que há melhor. Que há a possibilidade de realmente sair desse sítio. Uma pessoa tem de ter coragem e acreditar que é possível. Nem sempre é fácil, porque quando eu estava nesse fundo do poço eu também não acreditava e houve pessoas e houve ali alguma coisa realmente maior do que eu que me puxou.

Portanto, a mensagem que eu quero deixar é que é possível. É que há muito mais do que para além desse fundo do poço, apesar de muitas vezes as pessoas não conseguirem ver para além disso. E que pedir ajuda profissional, pedir ajuda à família, pedir ajuda a amigos, seja o que for, é importante.

Esta é a mensagem que eu quero passar, porque esta é a mensagem que eu queria ter ouvido, se calhar, nessa altura, e que não ouvi. Se eu conseguir ajudar uma pessoa que seja, para mim já faz sentido. É um bocadinho essa a mensagem que eu quero passar a quem está a sofrer, a quem está a precisar de ajuda e que não consegue sair: é que é possível.

A oferta de ajuda pode partir dos outros, mas também tem de haver um pedido de ajuda, não é?

É, eu acho que, quando uma pessoa está mesmo nesse fundo do poço, muitas vezes, por ela mesma, é difícil sair daí. Lembro-me que eu próprio, quando aceitei a ajuda e quando fui, eu nem acreditava. Era um bocadinho um fingir para acreditar. Deixei-me ir, porque, realmente, percebi que da maneira que eu estava, já não dava.

Acho que essa ajuda muitas vezes vem daí, é uma coisa que eu aprendi: é as pessoas acreditarem e confiarem em mim antes de eu conseguir perceber isso ou acreditar que é possível. E isso é muito importante. Mas tem de haver vontade nossa de querer sair daí ou de querer melhorar, porque, sem essa vontade e sem essa intenção de melhorar, é...

O querer ser ajudado é muito importante. Sem esse querer, fica muito difícil, não é? E eu sei muitas histórias e, se calhar, muita gente que vai ouvir vai lembrar-se de muitas histórias de querer ajudar alguém e essa pessoa não querer ajuda e não dá. E eu acho que esse querer ser ajudado é muito importante; ter a humildade de querer ser ajudado.

Mas esse caminho também não se faz sozinho, certo? Ou seja, temos de ter ajuda para sair destes buracos.

Sim. Temos de ter ajuda. De familiares, de amigos, de uma pessoa de fora. Temos de ter ajuda, sozinhos não dá. Eu acho que isso também é uma coisa importante que eu aprendi, é que sozinho não vou a lado nenhum. Com ajuda e com pessoas é muito mais fácil e é o que dá a possibilidade de sair daí.

Que tipo de ajuda? Toda a gente é diferente, mas, obviamente, com pessoas ao nosso lado é muito mais fácil.

Por que razão decide agora partilhar a sua história? É o regresso ao surf, mas também sentia que não poderia regressar sem contar a história?

Não, eu acho que poderia regressar sem contar a história. Mas se eu conseguir ajudar alguém, uma pessoa que seja, já vai valer a pena. É por isso que eu escolho contar a história.

Eu tinha vergonha, tinha medo, mas a verdade é que a coisa de que eu mais me orgulho na minha vida é de ter saído desse [buraco]... Essa é a vitória da minha vida. Não é o ser campeão do mundo, isso são títulos, são resultados. Também tenho muito orgulho nisso, mas isto é a minha maior vitória. E por isso eu escolho contar.

Agora, se faz sentido, se vou conseguir ajudar, isso já não sei. Mas o poder regressar a fazer aquilo que eu mais amo, que é competir, e acima de tudo competir bem, competir presente e limpo, e estar aqui hoje, para mim, é a minha maior vitória. É o meu maior título. Por isso é que eu também escolho contar.

Chegou a tentar regressar em fevereiro de 2025, em Marrocos, mas foi impedido à última hora. Como é que isso aconteceu?

Essa parte foi um bocado mal entendido que houve na altura, mas eu preferia não falar desse episódio, porque é uma parte que já passou e eu gostava de não falar disso. Faz parte do passado. O importante é que essa suspensão já foi e daqui a uma semana já me vou embora [risos].

E porquê regressar agora? Depois de toda esta viagem, se calhar seria até mais fácil não voltar ao surf profissional. Na minissérie, diz que uma das grandes motivações é que a sua namorada possa vê-lo surfar. A motivação para voltar também se prende muito com isso?

Sim, eu acho que era muito mais fácil não voltar [risos]. E muitas vezes pensei nisso. Muitas vezes pensei que, se calhar, era melhor ficar aqui no meu cantinho. Mas poder ter essa oportunidade de voltar a competir e ser eu... Eu acho que é o poder voltar a decidir se quero competir ou não, poder ter essa oportunidade e essa decisão ser minha. Se eu quero continuar, se eu quero fazer disto vida ou não.

Acima de tudo, é um celebrar. Para mim, isto é um celebrar de vida, é um celebrar poder voltar. É encarar isso com orgulho. Obviamente que ter a oportunidade de a minha namorada me poder ver, que ela nunca me viu a competir, as minhas filhas, estas pessoas todas que estiveram ao meu lado nesta caminhada destes últimos quatro anos... É claro que eu surfo para mim e eu quero muito fazer isto por mim, mas eu também o faço muito por eles e eu quero muito que eles estejam presentes, porque a verdade é que sem eles e sem muitas pessoas, não era possível.

Também só é possível hoje em dia porque, através da minissérie, houve a possibilidade de haver a parceria com a Buondi e de fazer esta minissérie, contar um bocadinho mais e também, através disso, poder voltar a competir. É por eles e é por estas pessoas que acreditaram, como a Buondi, que acreditou na minha história, acreditou que era possível antes de toda a gente — isso é bonito e é por eles que eu também faço este regresso. Era mais fácil ficar quieto, mas é por eles mesmo, é por essas pessoas todas.

É. É uma carreira totalmente nova. Eu acho que sim. Ao mesmo tempo, é o mesmo Vasco Ribeiro, o nome está lá. Mas é uma pessoa diferente. É uma pessoa com mais consciência, com outros objetivos, com outra maneira de ver as coisas e, acima de tudo, mais leve, mais feliz, mais contente, e que está muito orgulhoso de estar ali outra vez. É o recomeçar uma carreira, mas é quase... É uma carreira nova. Para mim, é uma carreira nova e eu estou muito contente.

  • Fonte: Rádio Renascença
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