Um Pinhal de Leiria com muito mais do que pinheiros e um Montado em novas paragens?
- 28/07/2026 17:53
- Redação
No caso do Pinhal de Leiria, de acordo com o ICNF, o cenário do futuro não será igual ao do passado, mas mais diverso e não apenas uma mancha de pinheiros. "Em termos absolutos e imediatos, queremos repor o coberto vegetal e as zonas de pinhal que estavam na zona do Pinhal de Leiria. Mas, aproveitando a iniciativa do Restauro da Natureza, o Ministério do Ambiente vai ter projetos mais ambiciosos, que ainda estão a ser esboçados, para que a recuperação desse pinhal possa ir um pouco mais além e que inclua mosaicos de outro tipo de vegetação, e ser o suporte de mais biodiversidade", explica Carlos Albuquerque, vogal do Conselho Diretivo do Instituto de Conservação da Natureza e Florestas.
A ideia não é apenas repor o que estava no território antes da passagem da tempestade Kristin e dos incêndios de 2017. "Não é voltar apenas a um pinhal plantado para as caravelas dos Descobrimentos portugueses, mas que seja uma mancha grande, de contínuo florestal, com espaços de mosaico que sejam mais biodiversos e mais ricos", explica este dirigente do ICNF.
A filosofia do Restauro da Natureza aponta para uma "matriz integrada de desenvolvimento do território" centrada nos ecossistemas como uma infraestrutura "tão relevante como as redes viária e ferroviária, os aeroportos, os espaços urbanos, as escolas, e toda a intervenção humana da construção do território"
Do mesmo modo, este investigador garante que a ciência não consegue ainda determinar quão frequentes serão estes fenómenos de grande intensidade. "Sabemos que os eventos extremos vão ser mais intensos, que as ondas de calor vão ser mais intensas e frequentes. Mas não sabemos se estes episódios de chuvas brutais mais intensos serão mais frequentes. Não conseguimos ainda saber se a tempestuosidade muito intensa está a aumentar", diz Filipe Duarte Santos, também presidente do Conselho Nacional de Ambiente e Desenvolvimento Sustentável.
O climatologista adverte que os pinheiros não aguentam ventos de 140 a 150 quilómetros por hora, como os registados este ano na região. " Esse tipo de ventos existe em certas zonas do mundo, afetadas por ciclones tropicais. As árvores adaptadas a esses tipos de ventos são palmeiras enquanto o pinheiro é das zonas temperadas, em que os ventos não chegam a essas velocidades", alerta o investigador da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa que recorda como os pinheiros foram desaparecendo de algumas dessas zonas. "As pessoas não querem ter pinheiros, porque podem cair em cima das suas casas. Mas há 60 anos era proibido arrancar pinheiros mesmo dos quintais das pessoas".
Carlos Albuquerque, do Conselho Diretivo do ICNF, assinala que nos mosaicos a explorar em Leiria e noutras Matas Nacionais " algumas espécies serão de mais rápido crescimento e outras mais lentas a crescer". O dirigente do ICNF diz que a intenção é introduzir um "sinal de mudança" com várias ações "que, ao princípio, podem parecer dispersas e desconexas, mas terão uma matriz de fundo, que é este tecido do Restauro de Natureza".
Apesar de a maior parte dos espaços florestais ser privada em Portugal, o ICNF assume querer dar "bons exemplos e podermos até, a título experimental e de laboratório, testarmos e mostrarmos quais são as melhores práticas de sustentabilidade". A ideia, diz Albuquerque, é que o território "não seja apenas mais uma figura de conservação da natureza que deixa a maior parte das pessoas um tanto indiferente, como apenas uma iniciativa dos conservacionistas".
A listagem oficial soma atualmente quase 4 dezenas de Matas Nacionais, no total de 55 mil hectares e 3% da superfície florestal portuguesa. Na sua visão estratégica, divulgada em Junho, o Plano Nacional de Restauro da Natureza admite a criação de novas Matas Nacionais, nomeadamente no Alentejo, onde o montado é descrito como "habitat prioritário" e "barreira ativa contra a desertificação".
Carlos Albuquerque sublinha que a riqueza do montado faz com que esteja descrito em diversos temas do PNRN, desde os ecossistemas terrestres às florestas, passando pela agricultura. Na apresentação do Plano, a Ministra do Ambiente revelou que existe uma verba de 12 milhões de euros dos chamados EEA Grants ( financiamento da Islândia, do Liechtenstein e da Noruega para reduzir as disparidades no Espaço Económico Europeu) que pode ser usado para candidaturas de restauro de montado. Na altura Graça Carvalho admitiu que a verba não será toda para esse efeito, mas disse aguardar "uma proposta forte da zona do Alentejo".
Para o Restauro da Natureza em todo o país, o plano nacional inclui um investimento anunciado de de 500 milhões euros anuais até 2030. A associação ambientalista ZERO elogia a existência do plano mas denuncia que faltam dados sobre as fontes de financiamento, as datas, os mapas e até as entidades que vão gerir as intervenções.
"Não temos a capacidade de saber como está a funcionar. Não temos uma resposta em relação a cada uma das 406 medidas. Não se sabe qual é a entidade responsável, porque não temos ainda o modelo de governança", critica Francisco Ferreira, presidente da ZERO. O dirigente ambientalista ressalva que tem "toda a confiança" num plano baseado no trabalho de mais de 200 investigadores, de 20 instituições nas áreas associadas à biodiversidade, clima ou a água. "Entre aquilo que está no papel, em termos de diagnóstico, e o que é preciso executar, estão as nossas dúvidas", salienta Francisco Ferreira que só conseguiu somar apenas 169 milhões dos 500 milhões de euros anuais do Plano.
O dirigente do ICNF ressalta que pela primeira vez, e de forma incomum na conservação da biodiversidade, Portugal vai entregar a proposta de plano dentro do prazo estabelecido, sujeita ainda a revisão da Comissão Europeia até março de 2027, para entrega de uma versão final até agosto de 2027.
"Nós tínhamos que escolher. Ou fazer o ótimo - e com isso arriscávamos a demorar outra vez anos e anos - ou então fazer algo bom, minimamente capaz, onde sejamos capazes de nos rever nesse trabalho. Quanto mais depressa o fizermos, também forçamo-nos a tentar fazer o melhor possível e rapidamente, em vez de tentar aportar e à procura do ótimo. Fazemos já o bom e seremos dos primeiros a reclamar o pacote financeiro dedicado ao restauro", explica Carlos Albuquerque, respondendo desta forma também aos receios da ZERO em relação à experiência da Rede Batura 2000,que ficou com planos de gestão por executar. "A grande crítica que se poderia fazer era não estarmos a cumprir. Essa não vai existir, não vamos deixar, vamos cumprir o prazo".