Teologia na Católica. "Turmas são cada vez mais plurais e isso é fantástico"
- 29/07/2026 01:30
- Redação
Sem formação teológica, muita da cultura portuguesa e europeia "não se entende", sublinha o diretor da Faculdade de Teologia (FT) da Universidade Católica Portuguesa (UCP).
Figueiredo Rodrigues diz que esta é uma "boa fase", com cada vez mais alunos a conseguirem bolsas para doutoramento e produção em teologia "interessante", destacando, por exemplo, as publicações da "Cátedra Manuel Sérgio - Ética, Desporto e Transcendência".
Garantindo que a Teologia "é para todos", "humaniza" e ajuda a compreender melhor a realidade, o sacerdote considera urgente combater a iliteracia religiosa, porque "o bem comum é empobrecido quando a reflexão sobre a fé" e o "pensamento religioso (...) não são tidos em conta na sua plenitude".
O diretor da Teologia da UCP defende que a formação dos leigos e das comunidades cristãs deve ser uma prioridade na Igreja, até para dar solidez às reformas em curso na Igreja, no âmbito do processo sinodal.
Autor de uma tese de doutoramento sobre "O digital ao serviço da fé", Luís Figueiredo Rodrigues reconhece o esforço da Igreja a este nível, mas entende que, no geral, falta "competência". Ter "boa vontade" e presença nas redes sociais não chega para evangelizar. Também aqui é preciso formação.
Criada há 59 anos, a Faculdade de Teologia da Católica é a única no país, garantindo a formação teológica aos futuros padres e a quem tenha interesse em aprofundar o conhecimento nesta área. É também aqui que se formam os professores de Educação Moral e Religiosa Católica, já que o mestrado em Ciências Religiosas é o único que habilita para lecionar a disciplina.
Dos 370 alunos inscritos na Faculdade, 130 são estrangeiros. Muitos estudantes são de outras confissões religiosas, numa pluralidade que o atual diretor da FT considera ser uma mais valia.
A funcionar desde 1968, a Faculdade de Teologia divide-se em três polos, Lisboa, Porto e Braga, mas é a única Faculdade de Teologia em Portugal. Esta exclusividade também aumenta a responsabilidade da instituição e de quem nela trabalha?
De facto, nós somos uma única faculdade, um único corpo docente, os cursos acreditados para os três campi onde funcionamos, mas somos efetivamente uma só faculdade, com tudo o que isso implica. Também somos a única Faculdade de Teologia em Portugal, o que acrescenta a nossa responsabilidade, por sermos a única faculdade para todo o território - Portugal continental, as Ilhas dos Açores e as Ilhas da Madeira. Isso cria-nos uma responsabilidade muito acrescida, acima de tudo porque somos a Faculdade da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) e da missão da Igreja depende muito o pensar, o formar, o ler os sinais dos tempos, o pensar a fé, em sentido lato, com tudo o que isso implica.
Acredito que a maioria das pessoas ainda associe a Teologia apenas ao sacerdócio, como formação indispensável para quem quer ser padre. Ainda é de facto assim, ou a procura dos cursos que oferecem também já evoluiu de uma maneira diferente?
Efetivamente, quando pensamos na figura do teólogo vem à nossa imaginação um senhor, já com alguma idade, de barbas, metido num convento a ler uns livros muito antigos. Mas isso é uma caricatura. A Teologia é para todos.
A Igreja em Portugal confia à Faculdade de Teologia a formação teológicam científica dos candidatos ao ministério, quer dos seminários diocesanos, quer das ordens religiosas - os que estudam em Portugal -, mas o nosso corpo de alunos é muito maior. Só para lhe dar uma ideia: neste momento temos à volta de 370 alunos, 130 são estrangeiros e na nossa formação ao longo da vida tivemos quase mil participantes. Por estes números já se vê que nós não temos só candidatos ao ministério ordenado.
Acresce que também temos um outro grupo interessante, com uma grande responsabilidade eclesial, que é a formação dos professores de Educação Moral e Religiosa Católica, que pela lei portuguesa têm de ter habilitação própria....
Não é o curso de Ciências Religiosas, isso é uma licenciatura. Temos o mestrado em Ciências Religiosas, especificamente via ensino, que é o único que habilita para lecionar Educação Moral e Religiosa Católica (EMRC) em Portugal.
Sim, são um terço dos nossos alunos, oriundos da América do Sul, da África, se bem que a proveniência de alunos europeus a estudar connosco, essa não é significativa, é bastante residual.
Sim. Nós, Faculdade de Teologia, temos a vantagem de estarmos inseridos, somos uma faculdade da Universidade Católica Portuguesa (UCP), o que nos permite, desde logo, participar nas redes onde a UCP também está inscrita.
A isto acresce-se que temos as nossas próprias redes, os nossos próprios protocolos e parcerias. para lhe dar uma ideia: no nosso curso de doutoramento temos sempre um ou dois docentes estrangeiros a lecionar connosco, e que vêm precisamente destas relações. Temos, ainda, redes de pesquisa, de investigação, em que somos parte de consórcios, e aí engloba faculdades quer da Europa, quer da América.
Por exemplo, neste momento estamos a construir um duplo doutoramento internacional com outras faculdades da Europa, que nos permite consolidar esta rede de internacionalização. Porque se nós somos a única Faculdade de Teologia em Portugal, para termos sinergias, trabalharmos em equipa e, em última instância, para cumprirmos bem a nossa missão, temos necessariamente que ir para o estrangeiro. E essas relações acontecem, quer de uma forma mais informa - um investigador, ou um professor que tem um trabalho em comum com outro e publica um artigo ou faz um projeto conjunto -, quer também através de protocolos e de projetos que nós, como faculdade, através do nosso centro de investigação, participamos e candidatamos com outras faculdades e universidades.
Voltando ao universo de alunos, não sei se fazem hoje em dia propriamente essa análise, mas há mais mulheres, e naturalmente mais leigos, na faculdade de teologia?
Sim. Essa questão entre homens, mulheres, leigos, candidatos à vida religiosa, para nós é uma distinção artificial. Nós queremos formar os nossos alunos com o melhor que for possível e dar-lhes as condições para eles progredirem até onde quiserem e forem capazes. Se é homem, se é mulher, se é candidato à vida religiosa, se é um leigo - e acontece muito, temos muitas pessoas que querem fazer, por exemplo, Ciências Religiosas, como é um curso à distância, permite uma flexibilidade de tempo muito grande. Há pessoas que querem ter uma formação mais aprofundada para compreender as razões da sua fé, ou então porque querem conhecer e saber sobre estudos de religião e fazem formação connosco. Portanto, isso para nós não é o mais significativo.
É evidente que a Igreja nos confia a formação científica dos candidatos ao ministério ordenado, e isso para nós é muito importante. Mas, isso é o mínimo. Procuramos sempre ir mais além.
E como é que está Portugal em termos de produção teológica? Temos bons teólogos?
Em Portugal estamos numa boa fase da Teologia. Pela primeira vez, o sistema científico em Portugal avaliou como bom o nosso centro de investigação em Teologia e Estudos da Religião. Não estamos contentes, porque queremos mais, mas é a primeira vez que isso acontece.
Acresce que muitos dos nossos alunos já conseguem obter bolsas da FCT (Fundação para a Ciência e Tecnoloia), do Estado, para fazer o seu doutoramento em Teologia, quer connosco, na Faculdade de Teologia, quer quando querem ir para outra universidade no estrangeiro.
Neste momento estamos com uma produção de Teologia muito interessante: recordo, por exemplo, as publicações da Cátedra Manuel Sérgio...
Vou-me esquecer de alguém, mas só para dar alguns exemplos: tivemos durante uns anos um projeto financiado sobre ecologia e casa comum - deve sair nas próximas semanas mais um volume dessa produção; temos duas revistas, uma de história religiosa, a Lusitania Sacra, outra de teologia, a Ephata, que têm produção regular e, acima de tudo, conseguem atrair autores de outros países que querem publicar connosco. Isto diz qualquer coisa da nossa implementação e do nosso diálogo. Estamos a produzir, em termos de texto.
Também estamos a cumprir, parece-me, aquela missão essencial que é ser uma presença lúcida para ajudar a discernir a fé nos dias de hoje. Por isso estamos muito apostados naquilo que eu poderia denominar uma "teologia pública", não pensada apenas para dentro da instituição eclesial, para formar os seus ministros, mas uma teologia que é capaz de ter uma palavra junto das outras ciências, na construção do bem comum, para mostrarmos como o bem comum é empobrecido quando a reflexão sobre a fé, o pensamento religioso e tomar consciência daquilo que é a identidade do ser humano, não são tidos em conta na sua plenitude. Por isso também estamos nesses diálogos e aí temos a nossa voz. Resultado disso, temos em elaboração projetos de investigação que englobam diversas áreas de saber: a teologia com ciências da saúde, teologia com literatura, teologia com enfermagem, só para dar alguns exemplos de como a teologia está em diálogo. Só que isto não é muito visível. Se a nossa faculdade tivesse um acidente, alguém se aleijava, isso era notícia. Nós publicámos uma série de artigos em revistas internacionais de alto impacto, temos grandes projetos de investigação que dão resultados muito interessantes, mas isto não é notícia. Mas, tem o seu efeito, porque paulatinamente vai influenciando a opinião pública, vai produzindo ciência, vai dando origem à comunicação de ciência, e isto é uma coisa que não acontece com a velocidade da notícia, mas é algo que vai acontecendo e se vai instalando.
Num contexto particularmente complexo, como é aquele em que vivemos, é fundamental reforçar a formação nesta área, nomeadamente a formação dos cristãos? Também depende disso a forma como se encaram temas-chave na sociedade e se tomam decisões?
Sem dúvida! Sendo eu diretor da Faculdade de Teologia não me fica bem dizer isto, mas já o dizia antes: a formação teológica é imprescindível, sob pena de perdermos duas coisas - e aqui a ordem dos fatores é arbitrária: primeiro, sem formação teológica, muita da nossa cultura não é legível. Sem uma literacia espiritual, muito daquilo que é a cultura portuguesa, a cultura europeia, não se entende. Por exemplo, aquele senhor que 'foi o bode expiatório daquela situação', isto é uma expressão tipicamente bíblica, se eu não sei o que é o bode expiatório do Antigo Testamento, eu não entendo bem esta expressão. Vamos à nossa arte, à nossa literatura, à nossa música, sem o mínimo de literacia religiosa, não entendemos muito.
Acresce que sem formação teológica sólida, muito daquilo que são as grandes opções da Igreja podem ficar apenas por boas intenções. Dou o exemplo da sinodalidade: discernir alguém sem competência é um erro. E a sinodalidade, se não for acompanhada de uma boa formação teológica do povo de Deus, compromete o seu sucesso.
Não podemos delegar sem formar. Se se delega uma tarefa em alguém que não está preparado, está-se a desrespeitar a instituição e a desrespeitar a pessoa em quem se delega, sem lhe dar condições para se capacitar suficientemente para fazer esta missão.
Quando apostámos no ensino à distância, foi precisamente para isto. O ensino à distância não é um ensino mais leve, é um ensino exigente, tem uma pedagogia diferente, tem resultados pedagógicos e científicos muito interessantes e consegue isto: a distância é a língua. Quem falar português pode fazer um curso connosco, falar e escrever, o que faz com que esteja tão perto da Faculdade aquele que mora na Luz, como aquele que mora em Vila Real Santo António, Bragança ou na Ilha do Fogo, em Cabo Verde.
Esse ensino à distância e novas formas de presença universitária vão continuar a ser apostas?
Sim. Neste momento em ensino à distância, em sentido estrito, temos a licenciatura e o mestrado em Ciências Religiosas. Depois, em sala virtual - que não é ensino à distância, é outra coisa - , temos também a decorrer o nosso doutoramento em Teologia, que tem três áreas - sistemática, bíblica e prática, que permite que qualquer pessoa, em qualquer ponto geográfico possa assistir às aulas, que são síncronas (em tempo real). Terá de se deslocar à universidade uma ou duas vezes por ano, porque temos momentos intensivos, o que permite arrumar agendas e preparar-se devidamente e com alguma facilidade - sendo que 'fazer um doutoramento' e 'facilidade' são palavras que não combinam, direi 'com menos dificuldade' pode realizar o seu doutoramento.
Portanto, esta vai ser uma aposta. E continuar a combater a iliteracia religiosa?
Nós temos muitas atividades. Na iliteracia religiosa fazemo-lo por três vias: primeiro, os nossos docentes e investigadores têm uma grande presença no tecido eclesial e social. O facto de sermos plurilocalizados - estarmos em Lisboa, Porto e Braga - permite que, a partir daí, se irradie. São muitas vezes convidados para intervir em comunidades eclesiais, para falar em espaços públicos, para disseminar conhecimento de forma espontânea.
Depois também temos a nossa formação estrutural - os nossos cursos conferentes de grau. E depois temos a disseminação do conhecimento, a aprendizagem ao longo da vida e a extensão universitária. Por exemplo, no Norte, temos uma formação que nos foi pedida para formar candidatos ao Diaconado Permanente. Colaboramos com outras escolas que precisam de competência teológica para a sua formação - por exemplo, Escolas de Ministérios que nos pedem, e nós cedemos os nossos professores. E temos atividades de formação permanente ao longo do ano: Jornadas de Teologia Prática (este ano foram em Coimbra), Jornadas de Teologia, no Porto.
Nós não só estamos nos três campi, Lisboa, Porto e Braga, como vamos descentralizando sempre que é possível, dentro das possibilidades e dos recursos que podemos alocar para estas atividades.
Efetivamente, e aprendemos isso com o mestrado em Ciências Religiosas: ultimamente há muita gente que não é católica, até de outras denominações religiosas, que quer estudar connosco. E isto que fique claro: quando alguém se inscreve na faculdade, eu não lhe pergunto se é católico ou não é católico, se é solteiro ou se é casado. Nós não perguntamos isso, só perguntamos se tem a habilitação necessária para ingressar num curso superior, e entra. Não fazemos nenhum tipo de triagem nesse aspecto, como é evidente. Mas, também sabemos que a maior parte daqueles que nos procuravam antes, eram pessoas que tinham uma grande proximidade à Igreja. Hoje já não. Hoje já começamos a ter pessoas de outras denominações religiosas, e também pessoas que estão em busca, que querem saber mais sobre religião, querem conhecer este campo, e isso tem sido uma descoberta muito interessante e muito enriquecedora, porque os nossos grupos, turmas, são cada vez mais plurais, e isso é fantástico. É bom para todos.
A teologia já foi arma de arremesso político, como vimos há uns meses, quando o vice-presidente dos Estados Unidos JD Vance entrou quase numa discussão direta com Leão XIV, considerando que o Papa devia "ter cuidado" quando fala sobre teologia - isto porque o Papa criticou os senhores da guerra, e disse que "Cristo, príncipe da paz", nunca está ao lado dos que lançam bombas. Como é que assistiu a este momento em particular, com a teologia a ser assim trazida para o discurso político?
Eu já estou habituado a conviver com iliteracia religiosa e espiritual, por isso chamar a isso teologia... não é teologia, no sentido em que eu entendo. Mas, até por isso o estudo da teologia é muito importante, para percebermos a paz, para percebermos a dignidade do ser humano, para percebermos o que é o bem comum, isso é importante.
Mas, uma coisa é o estudo da teologia, outra coisa distinta - que eu diria diametralmente oposta - é a ideologia. E o estudo da teologia o que faz é desmontar e, digamos assim, declarar o que é uma ideologia.
Uma ideologia, no fundo, é uma resposta simples a problemas complexos. E é uma coisa muito má porque, se reparar, no século XX grandes ideologias deram origem a tanto sofrimento, a tanta morte, a tanta guerra.
A teologia é precisamente o antídoto da ideologia. Porque o pior que pode acontecer a um crente é não ter dúvidas. O pior que pode acontecer à fé é não se interrogar. O pior que pode acontecer a uma Igreja é não querer conhecer e saber mais, e deixar-se ser criticada para perceber se está, ou não, a corresponder àquilo que o Senhor lhe pede. Ora, para isto são necessárias competências teológicas.
E deixe-me que lhe diga: se um aluno ou um colega meu, usar o seu conhecimento teológico para humilhar o próximo, não tem categoria de teólogo. Quem estuda a teologia, se há coisa que o deve distinguir, é ser mais humano. A teologia humaniza-nos no sentido em que nos ajuda a tomar consciência de quem somos, do que é o mundo e do projeto de Deus para o mundo e para cada um de nós. Ora, isto muda por completo. Por isso, esse episódio que falou entre o vice-presidente dos Estados Unidos e o Papa Leão XIV é uma caricatura, mas uma caricatura muito interessante, porque nos faz pensar...
Não sejamos ingénuos: nós também temos isso dentro das comunidades eclesiais. Por isso, quando eu dizia há pouco que, não haver competência teológica e delegar tarefas, quem tem uma tarefa na sua mão, usa as ferramentas que tem. Se não teve uma boa formação teológica, com muita facilidade, se agarra a duas ou três ideias, que para ele até foram muito importantes, foram amarras muito importantes na sua vida, e por isso absolutiza-as. Ora, absolutizar duas ou três coisas para uma realidade complexa é ideologizar, não é? E, nesse sentido, o estudo da teologia, o frequentar espaços teológicos - quando digo estudar, não tem de ser necessariamente fazer um curso graduado, pode ser participar numa jornadas, ou no RELIGARE Talks - o Religari é o instituto de estudos de Religião da Faculdade de Teologia - que nós fazemos todos os meses, ou participar na Summer School - este ano já não vão a tempo, mas no próximo ano -, são ofertas formativas de curta duração, mas que nos permitem ir ganhando 'endurance', para pensar teologicamente a realidade.
Em 2016 concluiu o seu doutoramento em Teologia, com uma tese intitulada 'O Digital no Serviço da Fé - Formar para uma Oportunidade'. Acaba de ser criada em Portugal uma rede nacional dos missionários digitais, para agregar os vários projetos e influenciadores que evangelizam online. Dez anos depois da sua tese, como é que olha para a evolução a este nível na Igreja?
A evolução a este nível é fantástica. Faz parte da própria natureza da Igreja - nós, que acreditamos num Deus trindade, a comunicação é ontológica em nós, faz parte de nós o comunicar. Por isso, a Igreja ao longo dos tempos sempre acompanhou as evoluções que ajudaram os humanos a comunicar melhor e a aproximar-se mais.
A última revolução foi a digital. Nesse sentido, estamos a crescer, mas falta-nos competência digital. Por exemplo, há pouco falávamos em projetos - eu e outro colega, estamos juntos e fizemos um projeto em conjunto com Blanquerna (Universidade em Barcelona), a que chamámos 'Discípulos digitais', para criar formação online. São cursos MOOC - Massive Open Online Course, para formarmos discípulos digitais. Deverá surgir no próximo outono, estamos a montar agora os materiais.
Uma das coisas que descobri, quando fiz a pesquisa para o doutoramento, e a que tenho estado atento, porque é uma coisa que me interessa muito, é que nós temos muito boa vontade e pensamos que uma boa evangelização vem dos recursos: tenho um vídeo com muito brilho, tenho um podcast cheio de imagens, sons e tudo mais, isto é importante, como é evidente, o produto que se entra tem de ter qualidade, mas o conceito de evangelização, distinguir entre evangelizador e influenciador é muito importante! Um influenciador não evangeliza, e um evangelizador não consegue ser um influenciador. Porque a lógica do algoritmo, aquilo que faz saltar a influência dos influenciadores, desculpe a redundância, busca o conflito, temas berrantes, busca aquilo que choca, ao passo que o evangelizador é aquele que é capaz de dizer uma palavra de esperança e uma palavra de sentido no meio do ruído da rede. Por isso, um evangelizador não tem sorte com os algoritmos, não estão preparados para o potenciar. Entender esta mecânica e perceber o que é a transmissão da fé, que não é apenas uma simples transmissão de informação, isto implica uma formação - e estou a dizê-lo de forma simples.
Por isso, eu vejo com muita esperança. Muitas vezes pensamos que o digital e para os jovens, mas temos muita gente já com muitas diuturnidades nesta vida que passa tempo no computador, ou no seu tablet, a fazer coisas, a partilhar. Há muitos agentes de pastoral que fazem os seus pequenos recursos, que depois distribuem pelo seu grupo do WhatsApp, pela rede de Instagram, Facebook, que tem com os seus grupos paroquiais. Há muita gente a trabalhar a este nível.
O digital permite fazer recursos educativos e pastorais com menos custos económicos e tem uma capacidade multiplicadora muito grande. Mas, se não há uma formação teológica básica, podemos estar a usar gramáticas que não se coadunam com o Evangelho, ao fazermos estes materiais
É preciso mais sensibilização e formação. Não é por ter uma presença no mundo digital que eu já estou a evangelizar, ou não é por andar a replicar coisas que outros fazem que eu tenho uma presença evangelizadora, quando muito estou a ser um retransmissor.
Mas, estamos no caminho? Acredita que o caminho continuará a ser feito da melhor maneira?
Sim, estamos no caminho. Há pouco falei dos evangelizadores individuais, mas agora temos as dioceses, a Conferência Episcopal Portuguesa (CEP)...Já temos uma grande presença e de qualidade. Há dioceses e secretariados diocesanos com presenças fantásticas, dignas de serem analisadas.
Calculo que tenha lido com particular atenção a encíclica do Papa ´'Magnifica Humanitas', relacionada com a Inteligência Artificial (IA). Como é que acolheu este documento e o que o Papa nele defende? É muito oportuno?
Eu diria que é mais do que oportuno! O Papa começa por dizer de novo coisas que podiam parecer antigas: começa por afirmar o que é a doutrina social da Igreja, a sua finalidade, dizendo que a Igreja também tem de se avaliar, como é que nós estamos a aplicar os princípios da doutrina social da Igreja dentro de casa?
Depois fala da Inteligência artificial não como uma ameaça, mas como algo que está aí, é evidente. E ele foi muito ousado, porque nós ainda não sabemos muito bem onde é que isto vai parar, mas ele teve a lucidez e a coragem de ter uma palavra profética.
Eu sintetizaria desta forma: não importa se a Inteligência Artificial imita muito ou pouco o humano, interesse é que ser humano estamos a promover e a defender? Dito de uma forma muito simples, não interessa se a IA pensa bem, o que é importante saber é 'será que eu estou a viver bem como ser humano? Será que eu estou a respeitar e a ser respeitado como ser humano, ou em nome de uma tecnologia, de uma ferramenta, eu estou a anular algo que é essencial no ser humano?
Depois traça uma distância, que a mim me parece muito saudável: uma coisa é a máquina, outra coisa é o ser humano, permitindo chegar a esta conclusão: aquilo que é mais belo e bonito no ser humano é a fragilidade e o erro, coisa que a inteligência artificial não faz.
A IA erra, mas não assume que erra, que não é capaz. E quando nós pensamos numa lógica de eficácia e de eficiência, podemos dizer que aquilo que a máquina faz é melhor que o ser humano. O ser humano é corpo, é frágil, erra, e é no seu ser corpo, na sua fragilidade, no seu erro que nós temos as melhores escolas para nos humanizarmos.
Se nos deixamos iludir por uma suposta eficácia da Inteligência Artificial estamos a esquecer aquilo que é mais específico no ser humano, na sua identidade.
E o Papa, na encíclica, de uma forma muito bela, pronto como só o Papa sabe fazer, chama-nos a atenção de uma forma simples, mas incisiva, para estas questões.