Crise migratória em Ceuta "é instrumento de pressão de Marrocos sobre Espanha e a UE"

Crise migratória em Ceuta "é instrumento de pressão de Marrocos sobre Espanha e a UE"

  • 31/07/2026 07:52
  • Redação

O politólogo Diogo Noivo, especialista em política espanhola, considera que o cenário de crise migratória em Ceuta é mais um exemplo da forma como Marrocos usa "há muitos anos, a imigração ilegal como um instrumento de pressão sobre Espanha e sobre o conjunto da União Europeia".

Nesta análise, Diogo Noivo recorda que "estes episódios são mais ou menos recorrentes", sendo que "o mais grave, até agora, tinha ocorrida em 2021".

"Espanha está sempre sujeita a este tipo de ações que, na verdade, são uma arma da política externa marroquina para castigar Espanha, por algo que Espanha tenha feito e que Rabat não tenha gostado, ou para influenciar negociações em curso", aponta.

"Muito recentemente, houve negociações entre Madrid e Argel. Portanto, este episódio é, não exclusivamente, mas também, parte deste quadro geral de política externa", acrescenta Noivo.

"O completo descalabro da entrada, de supetão, de muitas pessoas em território espanhol, obriga outros Estados-membros da União a tomar posição".

Para o especialista em política espanhola, Portugal também devia olhar para a situação em Ceuta.

"É evidente que Itália e França estão sujeitas a uma pressão migratória do Mediterrâneo que Portugal não tem e, portanto, Itália e França são muito mais sensíveis a este problema do que Portugal. No entanto, dado o manifesto descontrolo, parece-me que seria prudente que Portugal olhasse para isto com alguma atenção."

Diogo Noivo sublinha que este episódio "se enquadra num contexto migratório muito mais amplo, no qual, em Espanha, nos últimos anos, tem entrado muita gente e nem sempre com o controlo que seria desejável".

Diogo Noivo lembra que há, ainda, decisões espanholas que criaram as condições para a crise migratória em Ceuta, nomeadamente, a alteração, de há poucas semanas, da política de fronteiras.

"A lei espanhola de estrangeiros permite a devolução imediata a Marrocos de todos os imigrantes encontrados a cruzar a fronteira. No entanto, o Tribunal Supremo Espanhol veio agora dizer que este entendimento apenas vale para quem atravessa a fronteira por terra. Quando a travessia é feita por mar, Espanha está obrigada a acolher os imigrantes. Ora, em Ceuta, a travessia marítima é de poucos metros. Qualquer pessoa que saiba nadar consegue cruzar a fronteira marítima sem grandes dificuldades."

O politólogo refere, também que a política migratória do governo de Pedro Sánchez teve um "efeito chamada" de migrantes, depois de, recentemente, o Executivo madrileno ter aprovado uma regularização extraordinária de imigrantes limitada a 500 mil pessoas, sendo que, na realidade, quase 1,2 milhões já aderiram ao processo. Os números, do início do mês de julho, divulgados pelo Governo espanhol, revelam que metade já teve uma resposta positiva.

  • Fonte: Rádio Renascença
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