Cantar reduz o stress, melhora o humor e reforça a imunidade? O que diz a ciência

Cantar reduz o stress, melhora o humor e reforça a imunidade? O que diz a ciência

  • 31/07/2026 13:21
  • Redação

Já alguma vez se perguntou porque é que sabe tão bem cantar no duche? Ou porque é que aumentar o volume do rádio e cantar a plenos pulmões durante um engarrafamento pode melhorar o humor?

Cantar produz efeitos mensuráveis no corpo e no cérebro, quer esteja sozinho, a fazer harmonias num coro ou a cantar com amigos num bar de karaoke.

Há vários anos que os cientistas estudam este fenómeno, conhecido como singer’s high ("euforia de cantar").

As evidências apontam cada vez mais para uma conclusão consistente: cantar pode estimular a produção de hormonas, acalmar o sistema nervoso, reforçar o sistema imunitário e aumentar o sentimento de pertença — tudo em simultâneo.

Uma das conclusões mais consistentes da investigação é que cantar reduz os níveis de cortisol, a hormona mais frequentemente associada ao stress.

Vários estudos, que recorreram à análise de amostras de saliva recolhidas antes e depois de sessões de canto, registaram reduções significativas dos níveis de cortisol, tanto em quem canta sozinho como em grupos, por exemplo durante ensaios de coros.

Parte da explicação é biomecânica. O ato de cantar exige expirações longas e controladas, semelhantes a um padrão respiratório conhecido como respiração pranayama, que ativa o nervo vago.

O nervo vago, que se estende do tronco cerebral até ao abdómen, é a principal via nervosa do sistema nervoso parassimpático, responsável por abrandar o ritmo cardíaco, reduzir a pressão arterial e favorecer a digestão.

Por isso, é frequentemente designado como a via do "descanso e digestão", uma vez que promove um estado de calma quando é ativado, ao contrário do sistema nervoso simpático, que desencadeia a resposta de "luta ou fuga" em situações de stress.

Uma revisão aprofundada sobre este processo respiratório concluiu que a respiração lenta, com expirações prolongadas, estimula de forma consistente o nervo vago, ajudando o organismo a sair do estado de alerta e a entrar num estado de maior tranquilidade.

Para beneficiar deste efeito, não é necessário integrar um coro. O mesmo acontece quando se canta sozinho no carro depois de uma semana de trabalho intensa ou enquanto se ensaia uma música no duche.

Cantar também pode desencadear a libertação de endorfinas, os analgésicos naturais produzidos pelo organismo.

Um estudo avaliou este efeito de forma indireta, recorrendo a testes do limiar da dor. Os investigadores partiram do princípio de que uma maior tolerância à dor após determinada atividade poderia indicar uma maior libertação de endorfinas.

Em várias experiências que incluíram canto, dança e percussão, verificou-se que todas estas atividades aumentam o limiar da dor dos participantes. Em contrapartida, ouvir música de forma passiva não produziu o mesmo efeito.

A oxitocina, hormona associada aos laços sociais e à confiança, também parece desempenhar um papel neste processo, embora as evidências sejam menos consistentes. Alguns estudos concluíram que os níveis de oxitocina aumentam após cantar em grupo, sobretudo entre participantes mais experientes. Outros observaram precisamente o contrário.

Outra investigação concluiu que os dados ainda não permitem retirar conclusões definitivas, sugerindo que o impacto do canto na oxitocina poderá depender do grau de proximidade entre os participantes e do nível de descontração do contexto.

Ainda assim, há um resultado que surge de forma consistente: depois de cantarem em conjunto, as pessoas referem sentir-se mais bem-dispostas e mais próximas umas das outras, mesmo quando os efeitos bioquímicos não são totalmente claros.

Para além dos efeitos no humor e nas hormonas relacionadas com o stress, há indícios crescentes de que cantar também pode produzir efeitos mensuráveis no sistema imunitário, responsável pela defesa do organismo contra infeções.

Um pequeno estudo analisou sessões de canto com doentes oncológicos e os seus cuidadores. Os resultados mostraram que, além da melhoria do estado de espírito e da redução dos níveis de cortisol, as análises à saliva revelaram um aumento dos níveis de citocinas.

As citocinas são mensageiros químicos fundamentais para o funcionamento do sistema imunitário, desempenhando um papel essencial na regulação da inflamação.

Sabe-se também que níveis cronicamente elevados de cortisol tendem a suprimir a atividade do sistema imunitário. Assim, se cantar reduz o cortisol, é provável que isso tenha igualmente um efeito positivo na resposta imunitária.

Ainda assim, os autores sublinham que se trata de evidência preliminar e defendem a realização de estudos de maior duração para confirmar estes resultados.

Os efeitos do canto na redução do stress, associados à respiração, parecem verificar-se em ambos os casos. No entanto, quando se trata de criar laços sociais, cantar em grupo destaca-se claramente.

Um amplo ensaio clínico aleatorizado, realizado com coros comunitários compostos por pessoas mais velhas, concluiu que seis meses de canto em grupo reduziram significativamente a solidão e melhoraram o estado de espírito dos participantes, em comparação com um grupo de controlo.

Outros estudos demonstram ainda que cantar ativa, em simultâneo, diferentes regiões do cérebro responsáveis pela audição, linguagem, emoções e coordenação motora. Esta estimulação integrada pode fortalecer a conectividade cerebral e contribuir para um envelhecimento mais saudável.

Provavelmente já sabia, por experiência própria, que cantar faz bem. Mas os benefícios vão muito além de uma simples distração agradável. Cantar ajuda a reduzir o stress, acalma o sistema nervoso e reforça o sentimento de ligação aos outros.

E, se prefere cantar sozinho no duche ou no carro, pode continuar a fazê-lo sem hesitação: muitos destes benefícios mantêm-se, mesmo sem plateia.

  • Fonte: Rádio Renascença
Envie fotos, vídeos, denúncias e reclamações para nossa equipe pelo E-mail contato@portugalemfoco.pt.

Compartilhar: