Crise migratória em Ceuta "pode ser aviso de Marrocos"

  • 31/07/2026 18:12
  • Redação

A crise migratória provocada pela entrada de 50 mil pessoas em Ceuta em 24 horas pode ser “um aviso de Marrocos” de que pode tomar aquele território e Melilla “assim que o desejar”, afirma o especialista em geopolítica Manuel Poêjo Torres.

O Governo espanhol tem que resolver de forma célere e eficiente algo que é natural àquilo que é a geografia da soberania espanhola. A cidade de Ceuta, o município de Ceuta e o município de Melilla têm condicionantes geopolíticas que são conhecidas há séculos.

A falta e a inatividade do Governo espanhol em garantir a segurança do cidadão espanhol nestas terras demonstra, não apenas incoerência política, falta de planeamento e falta de conhecimento sobre o momento de crise acentuada que a Europa vive.

A Europa não pode ser uma porta aberta. A Europa tem que garantir as prioridades dos europeus primeiro, a defesa dos direitos humanos sempre, tem que garantir que as repúblicas europeias permanecem na vanguarda da defesa dos direitos humanos, mas tem que conseguir discernir aquilo que é uma verdadeira emergência humana daquilo que é um movimento, uma manobra política para pressionar Estados vizinhos com o objetivo de expandir a soberania e tomar a soberania dos espanhóis.

Estou-me a referir ao instrumento de engenharia humana de colocar nos portões de Ceuta uma grande massa humana, que ali não se materializou por acaso. Nós, à medida que vamos observando os diferentes vídeos que chegam às redes públicas, vamos compreendendo que existiu uma logística para trazer estas pessoas até Ceuta.

Não sabemos ainda quem é que patrocinou este movimento, mas sabemos que não aparecem camiões carregados de pessoas e que os ali libertam às portas de Ceuta.

Ceuta tem 19 quilómetros quadrados, tem uma força de Guardia Civil de cerca de 550 soldados, portanto é equivalente à nossa GNR. Não é suficiente nem para conseguir garantir a segurança de 80 mil cidadãos que ali estão, muito menos para fazer frente àquilo que é, garantidamente, um assalto à soberania espanhola em Ceuta.

Ceuta passou por mãos portuguesas, neste momento está debaixo da Coroa espanhola e é reconhecido por Marrocos. Existem acordos internacionais de reconhecimento de Melilla e de Ceuta. E isto estaria a acontecer a conta gotas ao longo dos últimos meses. Não aconteceu por acaso.

Mas é estranho e nós temos que refletir, porque existem movimentos já bem estudados e bem observados no flanco Leste da NATO, utilizado pela Rússia de forma menos expressiva, em empurrar refugiados que vêm do Cazaquistão para a fronteira da Bielorrússia e da Bielorrússia para a Polónia.

Portanto, aquilo a que assistimos é uma grande massa humana, jovens em idade para combater, que aparecem aos portões de Ceuta com uma mão atrás e uma mão à frente, sem mochila de sobrevivência, sem saco de cama, sem nada. Muitos deles descalços e em tronco nu. De onde vieram? Qual era o objetivo? E porquê que se juntaram todos ao mesmo tempo nos portões de Ceuta?

Portanto, há muitas perguntas que não são respondidas, mas se nós observarmos aquilo que os meios locais dizem e sentem, um jornalista de uma rádio espanhola, diz que contava cerca de 200 indivíduos a entrar em Ceuta por minuto. 200 por minuto.

E obriga-nos a refletir sobre as políticas de Sanchez para esta região. Não faz sentido Sanchez ir de férias e pedir um destacamento da Guardia Civil de 60 homens para o proteger durante as férias e enviar apenas 42 de apoio às operações em Ceuta.

Ceuta não está em estado de sítio, Ceuta não está em estado de guerra, esta população convive amigavelmente com as populações vizinhas, não está em estado de conflito, mas garantidamente que esta massa humana é um reflexo de guerra híbrida, guerra de baixíssima intensidade, cujo objetivo é pressionar o governo local e garantir a expansão dos seus interesses.

Em Ceuta, Marrocos nunca escondeu que não tem interesse nem de partilhar as suas terras com portugueses nem com espanhóis, e, portanto, certamente que, à luz da sua visão, Ceuta e Melilla não pertencem à Europa nem pertencem à Espanha.

Não podemos ignorar que este tipo de ações têm que ser consideradas um assalto à soberania, um ataque direto aos interesses dos cidadãos espanhóis que ali habitam, em território reconhecido internacionalmente, e existem manobras políticas com o objetivo muito claro de utilizar os mais vulneráveis para atingir objetivos políticos.

Estes não são migrantes climáticos, migrantes ou refugiados de guerra, não são migrantes que andam fugidos de perseguição política, estamos a falar de pessoas que foram entrevistadas, falam inglês, falam espanhol, falam árabe, e que dizem diretamente: ‘nós vimos para aqui’, uns porque têm braços partidos e querem segurança social, outros porque foram na turba de pessoas e querem ter acesso àquilo que são as terras da Europa, e outros simplesmente que foram por arrasto e não sabem porque é que estão ali. Como é que estas pessoas vão dormir?

Espanha, à medida que avança com as suas políticas de aceitação de toda a imigração e legalização de migrantes ilegais, acaba por criar anticorpos junto de governos de centro-esquerda, centro-direita e de extrema-direita. No entanto, nós sabemos que, se este evento tivesse acontecido numa ilha italiana, muito provavelmente, hoje, as nações estavam a discutir a ativação do artigo 5º.

Porque há uma diferença muito grande entre migrantes que chegam por via daquilo que são refugiados de grandes conflitos e outros que simplesmente entram em território europeu porque foram ali colocados e têm um objetivo simplesmente de penetrar.

A pergunta que a coloca diz respeito à suspensão de Espanha do Espaço Schengen. Nós sabemos que estados individualmente não podem, valem no propor, pode ser discutido, mas não têm o poder para o fazer.

Mas parece-me que é natural, é uma resposta natural àquilo que são as políticas levadas a cabo pelo Governo de Sánchez, que têm provado não estar alinhado nem com as políticas portuguesas, nem com as políticas francesas, e muito menos com as italianas e com as polacas. E isto, mais tarde ou mais cedo, acabaria por nos levar para uma posição de fragmentação das políticas europeias.

Portanto, isto vai obrigar os europeus a terem que conversar e a decidir quais são os limites sobre a aceitação de migrantes, legais e ilegais, e que posição é que têm que ter quando estas pressões políticas, planeadas, coordenadas e executadas, acontecem. Aconteceu em Ceuta e em Melilla. Pode acontecer em outro tipo de territórios, nomeadamente nas ilhas croatas, nas ilhas gregas, nas ilhas italianas.

Isto não é um fenómeno humano, isto é um fenómeno político, planeado, diz respeito à guerra subversiva, à tentativa de atingir objetivos militares utilizando o mínimo de força possível, e que consequentemente tem que ter impactos diretos sobre aquilo que é a coesão e resiliência dos Estados europeus.

Aliás, isto só agrada aos inimigos da Europa, aos adversários que querem dividir para conquistar. Claro que os Estados do Norte observam o que se passa no Sul com muito descontentamento e com muita preocupação, porque se entraram 50 mil em Ceuta, é bem verdade que existe uma barreira natural chamado o Mar Mediterrâneo, mas, mais tarde ou mais cedo, podem chegar à Europa, e depois o que acontece? Quando entram 100 já faz notícia, quando entram mil é debatido em sede parlamentar, quando entram 10 mil, 50 mil, 60 mil, o que é que a Espanha está disposta a fazer? E o que é que os outros Estados vão fazer?

Eu sei que este é um tema que está em discussão no Parlamento Europeu, é um tema de debate no Conselho Europeu, e é algo que preocupa muitos os aliados no seio da NATO, no quartel-general em Bruxelas, que estão perturbados com os contornos militares que esta situação tem.

Ceuta e Melilla são territórios espanhóis, estão considerados o abrigo do artigo 5º do Tratado da NATO, e noutro caso, muito provavelmente, se fosse em Itália, ou se fosse num país como a Polónia, este tipo de ações levariam garantidamente à ativação do artigo 4º, que são só consultas, e à discussão do artigo 5º. Foi para isso que o artigo 5º foi criado, e é considerado, por grande parte dos media em Espanha, aqueles que não estão alinhados com o Governo de extrema-esquerda de Sanchez, como um ataque e um ato de guerra. Foi isto que disse Federico Jiménez Losantos, que é conhecido por ser um apoiante da direita espanhola, mas que ainda assim é uma voz muito expressiva nos media espanhóis e que tem esta posição.

Tudo isto está a ser analisado, tudo isto está a ser analisado, mas garantidamente que não é simplesmente um fenómeno migratório, até porque o nível, o aparato que estas pessoas trouxeram, não foi nenhum, e normalmente os migrantes trazem sempre famílias, mulheres, mantimentos, comida, água...

Dá-me a sensação que pode ser um aviso de Marrocos que pode tomar Ceuta e Melilla assim que o desejar.

  • Fonte: Rádio Renascença
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