Em Lisboa há aprendizes de calceteiro, mas falta atrair jovens e um bom profissional "leva anos a formar"
- 02/08/2026 03:47
- Redação
02 ago, 2026 - 08:47 • Sónia Miguel (texto) e Pedro Lapinha (vídeo), da agência Lusa
Com um joelho apoiado no chão, Carlos Conceição debruça-se para consertar uma caravela desenhada na calçada artística portuguesa em Lisboa. Há 36 anos que é calceteiro. Aprendeu com "mestres antigos" e hoje é ele quem orienta os aprendizes.
"Um bom calceteiro leva anos, leva anos a formar, porque há que ter conhecimento [...]. Nós olhamos para a calçada e vemos que ali leva um bico, ou ali leva uma pedra direita, só mesmo com a experiência é que nós conseguimos olhar e conhecer que tipo de trabalhos é que há", realça o profissional, em declarações à agência Lusa, que acompanhou uma manhã de trabalho dos calceteiros na Avenida Almirante Reis.
A chefiar uma equipa das Brigadas LX da Câmara Municipal de Lisboa (CML), que diariamente estão nas ruas da cidade a intervir na calçada, inclusive a reparar buracos, Carlos Conceição conta que existem, atualmente, "cerca de 20" calceteiros a trabalhar na autarquia.
"É um trabalho difícil, ao princípio não é muito bem remunerado, e os jovens não se sentem aliciados a vir para aqui", desabafa o calceteiro, confidenciando que, até há uns 10 anos, tinha sido o último a entrar para exercer a profissão na CML.
Por isso, a preocupação com o risco de extinção da profissão é já tema "há muitos anos", admite Carlos Conceição, que fez o curso na Escola de Calceteiros de Lisboa, em 1989, e depois foi trabalhar para a CML.
"Na altura em que nós entrávamos, nós vínhamos da escola, já vínhamos com alguma formação, já tínhamos alguma base, e este pessoal que está a entrar agora um ou dois é que vieram da escola, porque todos os outros nunca tinham trabalhado aqui na calçada. Tem de começar do zero e, por esse motivo, acho que é mais difícil conseguirmos que eles tenham mais qualificação, porque isto leva tempo", reforça.
A consertarem parte de uma bandeira de Lisboa gravada nos passeios da calçada da Almirante Reis, a equipa de quatro calceteiros começa por utilizar um molde de ferro para traçar o desenho, preenchendo-o com pedras brancas e pretas, algumas reaproveitadas e outras novas. Grande parte do tempo é dedicado ao processo de partir e dar forma à pedra, designado por aparelhar. Com força, mas também com minúcia, cada pedra tem de encaixar, quase como um puzzle. Junta-se areão com cimento, rega-se com água e bate-se com o maço, ferramenta tradicional do calceteiro, para assentar e ajustar as pedras. E, assim, fica concluído o trabalho.
Orientando os aprendizes, o calceteiro sénior explica que teve a oportunidade de trabalhar ao lado dos "mestres antigos" e, esboçando um sorriso, defende que "aqueles é que eram mestres".
"Fui aprendendo com eles e, como trabalhei muito tempo com eles, aprendi. E agora tento transmitir aquilo que aprendi", sublinha, ressalvando que é preciso ter "um bocadinho de vocação" para ser calceteiro. Isto porque, adianta, há trabalhadores que estão há anos nesta área, mas sem conseguirem progredir: "Não têm queda para isto.".
Este é "um trabalho duro, mas também minucioso". Carlos Conceição revela que "é o detalhe que faz a diferença do calceteiro artista e do não artista".
Entre os aprendizes está Odília Mambo, uma mulher de 45 anos no meio de uma profissão sobretudo de homens. Quando se candidatou, através de um concurso público lançado pela CML em 2024, havia outra candidata mulher, mas acabou por pedir transferência para a área da educação.
Natural de Angola e a viver em Lisboa há quatro anos, Odília Mambo confessa que não sabia muito sobre a calçada artística portuguesa. Ainda assim, conseguiu passar a prova de aptidão para ser calceteira com 16 valores, numa escala de 20.
"Nós tivemos formação trabalhando [...], porque já não se fazia os cursos na escola, parece que tinha parado, então fui aprendendo trabalhando", adianta.
Vai fazer um ano desde que foi contratada e regista já algum conhecimento, apesar de ter a consciência de ainda ter muito para aprender: "Se me derem um espaço para fazer, eu já sei qual é o primeiro passo.".
"Eu estou muito feliz, pretendo continuar e estou aqui para ficar", exterioriza, com a missão de ser uma calceteira profissional.
Quanto à dureza da profissão, Odília Mambo salienta que tem bons colegas, que se disponibilizam para fazer as tarefas mais pesadas, mas avisa que para ser calceteiro é preciso força, equilíbrio e "comer antes de ir trabalhar", para ter energia para cavar ou bater o maço.