Serviços de secretos de Espanha acreditam que a crise migratória em Ceuta não foi planeada por Marrocos
- 03/08/2026 02:59
- Redação
Os serviços secretos espanhóis acreditam que a invasão de dezenas de milhares de imigrantes marroquinos em Ceuta, não foi planeada por Rabat, mas as autoridades marroquinas “não só não travaram a onda humana que se dirigia para o Tarajal, como lhe abriram caminho e tiraram partido político da repercussão internacional do acontecimento”.
Esta é a conclusão a que chegaram os serviços de inteligência espanhóis após analisarem uma crise que apanhou de surpresa um Governo concentrado nos incêndios florestais e confiante no vizinho do sul, notícia esta segunda-feira pelo diário espanhol “El País”.
Em Espanha especulou-se inicialmente se Marrocos estaria por detrás da avalanche de migrantes e quais as razões. Várias teorias pulularam desde a recente visita de Pedro Sánchez à Argélia, à nacionalização dos saharauis ou mesmo a rivalidade pela organização da final do Mundial de futebol de 2030.
Mas a conclusão dos serviços secretos é de que não houve um motivo, porque não foi fruto de uma decisão premeditada. Consideram que se tratou de um ato de oportunismo que teria escapado ao controlo dos promotores, adianta ainda o El País.
Os serviços de inteligência acreditam ainda que o êxodo em massa teve origem numa notícia falsa divulgada através das redes sociais e de grupos de mensagens, na sequência da recente decisão do Supremo Tribunal que confirmou que aos imigrantes que chegassem a nado a Ceuta e Melilha não lhes poderia ser aplicada a repatriação imediata.
Embora a operação não tenha sido planeada pelos órgãos do Estado marroquino, segundo os especialistas espanhóis, estes viram-na como uma oportunidade.
O El País diz ainda que resultado é que, apesar do seu altíssimo custo em vidas humanas, Marrocos conseguiu colocar a sua reivindicação sobre Ceuta e Melilha na primeira página dos meios de comunicação de todo o mundo e na agenda dos governos.
As imagens de uma multidão a atravessar ilegalmente a fronteira serviram também à extrema-direita para endurecer o discurso contra a imigração e opô-lo à suposta política de portas abertas do Governo espanhol de esquerda.
O Departamento de Estado dos EUA classificou o que aconteceu como uma “violação flagrante da soberania” espanhola, para, em seguida, atribuir a culpa à política migratória de Sánchez, tal como fez o presidente Donald Trump.
O ministro do Interior de Marrocos atribuiu responsabilidades à desinformação nas redes sociais, a redes de tráfico humano e à má-interpretação de uma decisão do Supremo Tribunal de Espanha pela migração em massa em Ceuta.
Citado pela Reuters, o governante falou pela primeira vez do caso que levou quase 70 mil pessoas a tentarem entrar em Ceuta através da fronteira marítima com Marrocos, indicando que 11 pessoas morreram na sua costa a tentar atravessar.
O presidente de Ceuta, Juan Jesús Vivas, afirmou este domingo que estão 88 cadáveres na morgue que recebe os corpos dos migrantes que morreram na costa nos últimos dias.
O Governo de Espanha tinha afirmado que pelo menos 72 pessoas morreram afogadas a tentar entrar em Ceuta nos últimos dias.
O ministro do Interior de Marrocos referiu, ainda, que cerca de 40 mil pessoas tentaram entrar em Ceuta, contudo fontes da polícia espanhola citadas pela agência de notícias EFE calculam que cerca de 73.500 pessoas que estavam ilegalmente em Ceuta deixaram a cidade desde quinta-feira.