O legado português em Ceuta, a coluna de Hércules do Mediterrâneo

O legado português em Ceuta, a coluna de Hércules do Mediterrâneo

  • 03/08/2026 19:18
  • Redação

Ceuta é e não é Espanha. É Espanha, em África, para quem lá reside. Mas o enclave, ao nível legal, não é, nem nunca foi, uma garantia de asilo, uma via aberta para atravessar o Mediterrâneo e chegar à Europa, no conforto de um ferry, para os milhares de migrantes que, nos últimos dias, atravessaram a fronteira com Marrocos a nado.

Este é um drama espanhol, mas também europeu. Ceuta não é apenas um enclave, um resquício do período colonial espanhol. É isso e um dos pontos que estrangulam o pescoço do Mediterrâneo, estratégico para o controlo marítimo. (Se alguém ainda tivesse dúvidas sobre a relevância das rotas de transporte marítimo, os impactos sentidos pelo conflito entre os EUA e o Irão e o “fecho” do estreito de Ormuz tiraram-nas.)

Ceuta não é um estreito. Mas a mesma lógica aplica-se. “Ceuta faz parte das chamadas colunas de Hércules. É o fim do mar Mediterrâneo, é o ponto onde o Mediterrâneo se liga ao Atlântico. E, portanto, teve sempre importância relativa, porque quem domina Ceuta e quem domina Gibraltar é quem controla mais facilmente a navegação que passa pelo estreito. E, muitas vezes, por isso, quer a cidade de Ceuta, quer a cidade de Gibraltar, têm estado na posse do mesmo potentado, seja ele africano, seja ele europeu”, explica João Paulo Oliveira e Costa.

Aliás, antes de ser espanhola, Ceuta foi portuguesa. Em 1415, nas vésperas da expansão marítima portuguesa, D. João I tomou a cidade.

“Quando se fala de Ceuta, aquilo que foi dito muitas vezes pelas crónicas e pela historiografia é que Portugal vai conquistar Ceuta para pensar na conquista de Marrocos. Embora isso fosse argumentado, quem conhece Ceuta sabe que não é verdade. Porque, para se começar a conquista de Marrocos, faz-se o que fez D. Sebastião: desembarca-se em Tânger”, nota João Paulo Oliveira e Costa.

“Em Tânger há planícies por onde se pode seguir. Ceuta é uma pequena península que está rodeada por montanhas. E, portanto, da mesma maneira que hoje é impensável, aquelas pessoas que entraram não chegaram lá espontaneamente, porque é impossível chegar lá espontaneamente”, acrescenta o historiador.

Num dos capítulos da Crónica de D. Pedro de Meneses, afirma-se que Ceuta “é a chave do Mediterrâneo”. Os portugueses, ao instalarem-se ali, conseguem passar “a piratear a navegação muçulmana, a fazer corso, como os muçulmanos faziam aos cristãos”.

Mesmo na crise de 1457, Portugal não cede Ceuta. Ceuta é de tal maneira importante, na ótica da geoestratégia cristã, que, quando se dá o desastre de Tânger e o Infante D. Fernando fica preso, permanece em cativeiro durante seis anos. Os muçulmanos reclamavam apenas uma coisa para devolver o infante: que os portugueses devolvessem Ceuta. E os portugueses não devolveram Ceuta.

“A vida de Ceuta valia mais do que a vida do infante. É a conclusão a que temos de chegar, porque foi isso que aconteceu, não é?”, afirma João Paulo Oliveira e Costa.

Ceuta foi conquistada por Portugal no reinado de D. João I e permaneceu ligada à Coroa portuguesa durante a Dinastia Filipina. Depois da Restauração, ficou na posse de Espanha. Mas a cidade continua a ter marcas portuguesas.

Antes da entrada nas muralhas, na zona antiga, existe uma estátua do Infante D. Henrique. Mais: a bandeira da cidade replica o modelo da bandeira de Lisboa e mantém o escudo português. Apesar de ter ficado espanhola, Ceuta não alterou as armas nem o escudo. “O escudo de Ceuta é o escudo de Portugal. E a bandeira é branca e preta, como a bandeira de Lisboa”, explica João Paulo Oliveira e Costa.

Questionado sobre o motivo para os símbolos nunca terem sido alterados, o historiador considera que a tradição se entranhou na cidade. “Em 1640 teria sido muito fácil. Mais tarde, nomeadamente no tempo de Franco, também teria sido fácil impor uma coisa diferente, mas aquilo entranhou-se e as pessoas mantiveram essa tradição até hoje.”

Na praça central, junto ao Palácio do Governador, encontra-se a Igreja de Nossa Senhora de África. Segundo João Paulo Oliveira e Costa, pelo menos até 2013, era celebrada aos sábados à tarde uma missa pelo Infante D. Henrique.

Na igreja está também depositada, numa imagem de Nossa Senhora, a vara que D. João I entregou a D. Pedro de Meneses quando o deixou como capitão da cidade, como símbolo de autoridade.

“No tempo dos portugueses, sempre que um novo capitão chegava à cidade, a vara saía da imagem para ser colocada, momentaneamente, nas suas mãos. Se é a mesma vara ou se foi substituída, isso não lhe posso dizer, mas, simbolicamente, é”, acrescenta o historiador.

  • Fonte: Rádio Renascença
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