“Um ponto pode mudar tudo.” Entre reapreciações e candidaturas, alunos fazem contas ao futuro
- 06/08/2026 02:00
- Redação
“Isto é estranho, mas estou entre Engenharia Informática e Direito. Engenharia Informática em primeiro, depois Direito.” Os percursos, bem distintos, são as opções de Guilherme Macedo, 18 anos, para a candidatura ao Ensino Superior. Ao lado dele tem a namorada Daniela Correia que vai tentar a sorte em Arquitetura.
No dia em que termina o prazo para as candidaturas da 1ª fase de acesso ao ensino superior — num ano marcado por muitos problemas com os exames nacionais — o casal de namorados conta a sua experiência pessoal.
Guilherme fala num processo difícil, mas em que foi bafejado pela sorte, já que não houve trocas com as suas provas. Repetiu exames na segunda fase, vai também à época especial e está à espera da reavaliação de Matemática. Daniela pediu para ser reapreciado o exame de Português e, se tudo correr bem, vai recebê-lo na sexta-feira.
Se o namorado lamenta um processo em que haverá sempre quem sai prejudicado — defendendo que o ministro Fernando Alexandre não tem noção do "caos" que foi para os alunos —, Daniela fala do preço pago pela saúde mental por estudantes que, como ela, não lidam bem com o stress. "Foi um desespero."
Guilherme fez quatro exames: repetiu os de 11º ano de Físico-Química e Geometria Descritiva e fez as provas de 12º ano de Português e Matemática. Quatro provas num ano que tem sido marcado por problemas em torno do novo sistema de classificação digital das provas.
O estudante fez exames na Madeira. As pautas não foram afixadas na sexta-feira, 17 de julho, conforme pediu o ministro da Educação, mas a escola afixou no sábado à tarde e nas horas seguintes recebeu os exames digitalizados.
“Não havia trocas, nem folhas em falta”, diz, justificando por que motivo considera ter tido sorte.
Guilherme admite que o processo tem sido difícil e vai aproveitar todas as chances. Repetiu exames na segunda fase e vai também à época especial. “Toda a gente que for à fase especial, que é só em setembro, daqui a um mês, vai ter vantagem, um mês de estudo faz muita diferença”, diz.
Este futuro engenheiro ou futuro advogado garante ter acompanhado todas as polémicas, foi ouvindo as entrevistas do ministro da Educação e, sobretudo, os debates no Parlamento.
“Achei que ele [ministro da Educação], na minha opinião, estava um bocadinho fora da realidade, não acho que ele tenha bem a noção do caos que foi”, diz, com um riso nervoso.
Guilherme fala ao lado da namorada, Daniela. Também ela tem 18 anos e vai concorrer ao curso de Arquitetura.
Daniela Correia fez exames de Português, Matemática B e Geometria. Recebeu as notas todas na pauta e no mesmo dia recebeu os pdfs dos seus exames e decidiu pedir reapreciação da prova de Português, pois considera que a pergunta de composição foi “extremamente subavaliada”.
Estes dois estudantes lá vão encaixando a expectativa e estão razoavelmente pacificados com a forma como o processo decorreu, mas Guilherme não tem dúvidas que vai sempre haver quem vai sair prejudicado e inclui-se nesse lote.
“Eu vou começar a universidade 10 dias depois de fazer exames [da época especial]. Basicamente não vou ter férias”, lamenta, acrescentando de seguida que, tal como ele, também os professores e assistentes nas escolas são prejudicados.
“Tenho uma pena enorme dos professores que têm de corrigir exames, vigiar exames e os funcionários que têm de estar nas escolas para isto tudo acontecer”, lembra.
“Eu não consigo explicar o pânico de ver que eu conseguiria ter tido um 17 e, em vez disso, tive um 15. Eu não preciso do exame de Português para entrar na universidade, mas nesta batalha de quem entra na universidade e quem fica para trás, um ponto pode ser tudo o que muda”, diz.
Daniela reconhece que, para pessoas como ela, que “não conseguem lidar tão bem com o stress, foi um desespero”.
As épocas de exames atribuladas e um concurso de acesso ao ensino superior com várias dúvidas tiveram reflexo na caixa de entrada de Rafael Vieira, o criador do Podcast Universitário.
Desde 2020 que Rafael se dedica a criar conteúdos relacionado com esta fase da vida dos estudantes. Dá informações sobre os cursos disponíveis no Ensino Superior, sobre as burocracias necessárias e acompanha a par e passo as informações oficiais para orientar quem procura os seus múltiplos canais – tem site, Youtube e está presente no Instagram e Tik Tok.
“Houve mesmo muita preocupação, por várias razões, por todos os problemas em concreto que aconteceram – os QR Code, onde é que estavam os exames, o tempo que estavam a demorar a corrigir, os problemas da plataforma de correção, tudo isso”, diz Rafael Vieira.
Vieira nota ainda que a comunicação por parte das entidades, responsáveis políticos e até comunicação social não ajudaram, pelo contrário.
“A falta de informação que fui vendo, seja de pessoas que iam fazendo questões ao ministro, fosse da parte de jornais, até de deputados de outros partidos, a falta de informação referentes ao acesso ao ensino superior, ao funcionamento dos exames nacionais, fez com que se criassem narrativas e alarmismos desnecessários também”, diz.
Rafael Vieira considera que, apesar das garantias que a tutela tem dado, “vai sempre haver alguém que vai sair prejudicado, quanto mais não seja porque não tinha toda a informação”. O youtuber dá um exemplo.
“Está a acontecer-me quase todos os dias miúdos que acham que, porque estão à espera da nota de reapreciação, não têm de se candidatar até ela sair. Não, não é verdade”, assegura.
Rafael acrescenta que “só não se candidata agora, dia 6 de agosto, até às 23h59, quem ou não terminou de secundário e/ou não tem nenhuma prova de ingresso”.
Questionado sobre se identifica instrumentalização política dos problemas que estão a verificar-se, Rafael não hesita em dizer que sim. “Todos os dias vejo isso. Infelizmente, chega-se ao final das contas e cada um olha para o seu umbigo. E a nível político, cada um olhou também para o seu umbigo e tentou instrumentalizar várias coisas”, assegura.