UEFA mantém boicote ao Mundial, jogadores apontam "abuso de poder": mais um dia na FIFA de Infantino
- 06/08/2026 16:43
- Redação
A tentativa da FIFA de ultrapassar a maior crise interna da presidência de Gianni Infantino dificilmente vai acabar com o escrutínio sobre a governação do futebol mundial. A UEFA afirmou, esta quinta-feira, que mantém o compromisso de boicotar o Mundial, ao mesmo tempo que a associação de futebolistas profissionais acusou a liderança da FIFA de "profundo abuso de poder" e pediu mais reformas.
Parte da direção da FIFA esteve reunida em Rabat na quarta-feira, em modo de crise. A reunião acabou com uma reafirmação pública do apoio a Infantino, e a entidade máxima do futebol mundial pediu ainda desculpa às 211 federações-membro pelos erros cometidos na proposta de vender uma parte dos direitos comercial do Mundial.
A FIFA prometeu ainda rever os processos que levaram à controvérsia que desencadeou a maior revolta da gestão de Infantino, após as federações nacionais se terem queixado de serem marginalizadas.
A reunião não contou com toda a direção da FIFA: Arsène Wenger, crítico do plano de Infantino, não marcou presença, nem o diretor de operações, Kevin Lamour — que acusou publicamente Infantino de "enganar" os funcionários com "o projeto de uma pessoa". O secretário-geral, Mattias Gafstrom, esteve presente apesar das críticas que fez ao plano de privatização, e acabou a assinar, em conjunto com o presidente da FIFA, o comunicado resultante da reunião.
Além das breves admissões de erros, o comunicado afirmava ainda que a FIFA "não vai continuar a tolerar" o que descreveu como "ataques à sua integridade", assim como que todos os detalhes relativos ao projeto de Infantino cumpriam as regulações da FIFA.
Esta quinta-feira, a UEFA, entidade que rege o futebol europeu, salientou que as principais condições que impôs para o regresso às competições da FIFA continuam por reunir. "Primeiro, as propostas de privatização das principais competições tiveram de ser retiradas e, segundo, são precisas garantias de que tais tentativas de desfigurar o futebol desta forma nunca se vão repetir".
"Estas condições não foram cumpridas", declarou a UEFA em comunicado, apontando ter deixado "bem claro no comunicado de sábado que perdeu a confiança na presidência de Gianni Infantino", e que "esta posição se mantém inalterada".
Para a UEFA, os responsáveis da FIFA "cujas carreiras dependem do seu apoio" concordarem com Infantino não altera a posição da organização europeia. O próximo evento da FIFA é o Mundial Feminino Sub-20 na Polónia, em setembro.
A FIFA insiste que todas as ações tomadas em relação à proposta de direitos comerciais estavam em conformidade com os regulamentos, e salientou que os erros se referiram a questões de processo e comunicação, e não a violações das regras de governação.
"A ser verdade, isto não é uma defesa. É uma acusação contra a atual estrutura de governação da FIFA", aponta a FIFPRO, acusando a direção da organização de, na reunião em Rabat, não confrontar o que aconteceu. "Uma averiguação interna que reporta apenas ao mesmo Conselho que foi ignorado não é resposta nenhuma. Os jogadores, os seus representantes e os 'stakeholders' do futebol profissional devem ser parte dela".
Os jogadores exigem à FIFA ser incluídos nos processos de decisão, passando a ter a FIFPRO reconhecida como representante dos futebolistas profissionais e com direito de voto no Conselho da FIFA. Outra das exigências é um acordo com validade legal para decisões como o calendário internacional de jogos e a expansão de competições — a FIFA está a estudar a expansão do Mundial de 2030 para 64 equipas.
A FIFA prometeu uma averiguação interna antes da apresentação de um relatório ao Conselho na próxima reunião. No entanto, a FIFA já não pode fugir às questões levantadas pelas confederações, ligas e associações nacionais sobre a forma como são tomadas as principais decisões estratégicas.
A CONMEBOL, confederação sul-americana de futebol, manifestou preocupação com as "repetidas ações unilaterais tomadas sem recurso ao diálogo", sublinhando a importância das reformas institucionais que a FIFA introduziu há mais de uma década para promover a transparência.
"A CONMEBOL não apoiará qualquer ação ou procedimento que ignore ou se afaste destes mecanismos institucionais", afirmou. "O Conselho da CONMEBOL apela à preservação da unidade no seio da família do futebol, à atuação com responsabilidade institucional, ao reforço do diálogo e ao pleno respeito pelos mecanismos de governação."
Para Infantino, a prioridade imediata foi conter as consequências políticas antes da eleição presidencial de março, em Marrocos, na qual procurará um quarto mandato (válido até 2031).
A reunião de quarta-feira atingiu esse objetivo, com o conselho administrativo da FIFA e o secretário-geral Mattias Grafstrom a apoiarem publicamente o presidente.
Mas o presidente da federação da Jordânia, o príncipe Ali bin Hussein, disse que não apoiaria Infantino, apesar de finalmente ter recebido o prémio em dinheiro devido pela participação na Taça Árabe de 2025.
A Inglaterra também retirou oficialmente o apoio a Infantino, assim como a Federação Albanesa de Futebol. Sérvia e País de Gales já tinham feito o mesmo no início da semana.
Infantino continua a usufruir de um forte apoio de muitas associações mais pequenas, particularmente em África e na Ásia, onde o financiamento para o desenvolvimento por parte da FIFA continua a ser fundamental para os programas nacionais de futebol, e continua a parecer bem posicionado politicamente, sem que surja qualquer adversário viável antes das eleições presidenciais.