Primeiro encontro dos missionários digitais quer criar manifesto
- 08/08/2026 03:30
- Redação
O primeiro encontro nacional dos Missionários Digitais, marcado para 26 de setembro em Alfandega da Fé, na Diocese de Bragança-Miranda, pretende, entre vários objetivos, criar um manifesto sobre a presença da Igreja em Portugal no mundo digital.
Além de conferências e testemunhos, o programa do primeiro encontro nacional dos Missionários Digitais inclui uma oração ecuménica pela paz, a assinatura da Carta Fundadora da Rede e a atuação do padre DJ Guilherme.
Em setembro decorre o primeiro encontro dos missionários digitais. Olhando para a realidade da Igreja em Portugal, o que lhe parece fundamental trabalhar neste âmbito?
Este é um desafio lançado pelo Santo Padre Papa Leão, o ano passado, no Jubileu, numa carta que enviou aos missionários digitais. O digital veio para ficar e não nos podemos esquecer disso, mas é importante sermos capazes de nos apresentar neste ecossistema digital a partir e através da matriz que nos define como católicos. Portanto, é preciso criar também as condições, as linhas orientadoras, para que, não perdendo a nossa essência, possamos ter também uma resposta e uma presença ativa, contundente – sempre humanista.
Aliás, na carta fundadora, publicada no vosso site, referem que o objetivo da Rede Nacional dos Missionários Digitais é contribuir para que a cultura digital permaneça humana, um pedido feito aliás pelo Papa. Como é que lhe parece que isso se pode concretizar?
O nosso desejo, a partir deste evento, é lançar o pontapé de saída para a criação desta rede, desta comunhão na área digital. Não podemos ficar indiferentes a esse caminho, a esse propósito e a este pedido também do Santo Padre. Depois no diálogo partilhado entre todos, há esta vontade de que todos os intervenientes no evento – influencers, plataformas digitais, agências de notícias, toda a gente que trabalha nesta parte da comunicação – [possam] criar um manifesto. Isto é, cada um vai ser convidado a colaborar, até no espírito de sinodalidade, para criarmos uma proposta daquilo que pode ser a visão da Igreja para este mundo digital. Claro que depois será entregue à CEP [Conferência Episcopal Portuguesa], que tomará as melhores providências.
A ideia é ajudarmos a pensar, a organizar e a criar um caminho, um roteiro para a Igreja e também para que todos aqueles que são católicos, que vivem a catolicidade e querem ser missionários no mundo digital, possam ter uma referência para não se perderem nesta cultura do "like" e não propriamente na criação da cultura do bem comum e do bem fazer que é o mais relevante.
É um contributo que queremos dar, a partir da Diocese de Bragança-Miranda, um contributo para avaliação. Não é nenhuma proposta imposta, é propositiva. É no sentido de dar mais uma ferramenta à Igreja portuguesa para que todos juntos criemos este caminho de verdadeira comunhão.
Há pouco referia que o digital não está à parte na vida das pessoas. Considera que a pastoral da Igreja em Portugal lhe atribui a devida relevância?
Temos de olhar para fora do nosso país, para outros lugares pastorais. Estou a lembrar-me de modo particular do Brasil que, no que à área digital diz respeito, está muito à nossa frente. Estou a falar no ponto de vista eclesiástico, quer com canais de YouTube, quer com outras plataformas digitais.
É verdade que ainda há certas resistências a este mundo digital, mas não significa que um substitua o outro. Pelo contrário, temos de aprender a viver em plena comunhão.
A IA [Inteligência Artificial], a que muitos chamam de 5.ª revolução industrial, veio para ficar. Não temos de lutar contra ela. Temos de pegar nela, adaptá-la, como diz a encíclica [Magnifica Humanitas] do Santo Padre, e aprender. [Queremos] criar um caminho conjunto, assertivo, que seja contundente, para alicerçarmos esta proposta digital.
A relação humana é insubstituível, as estruturas físicas são altamente necessárias, mas uma e outra, caminhando de lado a lado, vão-se cruzando, como proposta de conjunto. É uma visão mais eclética, mais global, mais holística.
Vou notando pela minha experiência pastoral, mas também a partir da minha tese de doutoramento, sobre a globalização e a globalidade, que há uma grande fome de infinito no coração de cada homem. Se ficarmos cristalizados, pasmados, e não formos capazes de fazer caminho nesta área, alguém ocupa este lugar. Mais do que nunca é uma obrigação, um dever, dar a conhecer a beleza e o encanto da espiritualidade cristã, em particular da fé católica. E [mostrar] como ela também é verdadeiramente humanista e humanizadora.
O digital é uma área que veio para ficar e temos de dar essa resposta. Agora, não pode ser uma resposta, e muitas vezes acontece, um pouco amadorista. Temos de criar também um conjunto profissional na comunicação. Se não as pessoas não nos levam a sério, nem o mundo nos leva a sério. E sabemos muito de uma cultura um pouco anticlerical que sentimos em Portugal que temos que ser muito assertivos na forma como comunicamos e como falamos do Evangelho, como trabalhamos na área digital, para que não sejamos ridiculizados, mas levados a sério por um trabalho muito correto de apresentação. É preciso cada vez mais humanizar o digital, como o Santo Padre pediu.
Falou de uma necessidade de profissionalização da comunicação da Igreja. É uma questão de recursos ou de mentalidade?
As duas coisas. A mudança acontece quando na nossa cabeça, na nossa consciência, faz sentido aquele processo. Portanto, o profissionalismo e a capacidade de investimento na área de comunicação acontecem quando mentalmente, interiormente, na nossa lógica mental, nos damos conta que aquilo é o caminho. É preciso fazer esta mudança de mentalidade porque vai provocar a necessidade de investimento sério numa comunicação, de facto, assertiva e correta, profissional, com brio, qualidade.
Entre os objetivos da rede está a promoção de formação regular para uma presença cristã responsável. Sabemos que as redes sociais contribuem para uma valorização do eu e em alguns casos – atrevo-me a dizer – podem levar padres, freiras e leigos a alimentar o ego em excesso. Concorda?
A tendência desta cultura do "like" e de cada um, de forma quase individual, quase pirata, ir fazendo o seu caminho, pode levar a essa tendência de autorreferencialidade, a esta cultura do ego.
A proposta deste evento e a criação desta rede é dar condições para que a cultura de autorreferencialidade dos influencers, youtubers e bloggers católicos não seja voltada para o seu próprio ego, mas para a consciência de uma visão de conjunto. Por isso, estou convicto de que o manifesto poderá ajudar, e muito, à construção de uma identidade e de uma matriz no digital, com vista a um caminho mais altruísta.
Tantas vezes, para se ter audiência, "likes", vai-se por caminhos mais dúbios. Seguem-se certas fações da opinião pública mais quentes no momento e deixamos de ser nós próprios, de sermos Igreja. E é preciso também alguma cautela, algum discernimento e alguma atenção e prudência nesse caminho.
Claro. Este evento vai permitir gerar comunhão. É um feito conseguirmos sentar, pela primeira vez, as agências noticiosas, plataformas digitais da Igreja variadas, influencers. A partir daqui, vai haver, naturalmente, um processo natural, uma sensibilização e um cuidado de toda a Igreja para este caminho. Vamos ter cá a presença de monsenhor Lúcio Ruiz, do Vaticano, da Veronica [Brunkow, do Dicastério para a Comunicação]. Vamos ter aqui o padre Borre. São pessoas com muita experiência que vêm acrescentar, estimular, provocar.
Queremos juntar, agregar, mobilizar. Muita coisa vai acontecer depois. Estou convencido.
Convidámos vários influencers, uns disseram que sim, outros disseram que não. É do diálogo em conjunto que somos capazes de criar uma visão maior. Não penso muito nisso. Acho que temos de olhar para aquilo que realmente importa. Todos são chamados a ter uma voz. Aliás, esta é a visão da Igreja. O Papa Francisco, quando provocou e convidou a toda a Igreja à sinodalidade queria ouvir todas as pessoas, mesmo aqueles que não eram verdadeiramente católicos e viviam de outra forma.
Esta polémica com a Andreia… Pronto, são opções das pessoas, mas isso acho que não invalida aquilo que é o teor deste evento.