Netanyahu fará “tudo, tudo, tudo” para impedir acordo com o Hamas
- 10/08/2026 01:30
- Redação
Benjamin Netanyahu está a fazer tudo para impedir um acordo com o Hamas e, na avaliação da especialista em temas de negociação do Médio Oriente Maria João Tomás, não quer permitir que o movimento palestiniano se desarme, participe no processo político e possa concorrer a futuras eleições na Palestina.
Netanyahu mantém que Israel não retirará as suas forças de Gaza enquanto o Hamas não estiver verdadeiramente desarmado e continua a rejeitar qualquer cenário que possa abrir caminho à criação de um Estado palestiniano.
Para Maria João Tomás, “o que está em causa é uma coisa muito simples”: o Hamas poderá estar a preparar uma transformação política que lhe permita preservar influência mesmo depois de entregar as armas.
“O Hamas quer limpar um pouco a imagem que tem e, portanto, ao afirmar que se vai retirar e que se vai desarmar, exigindo que seja reconhecida a Palestina, ele vai concorrer às eleições, mas com outro nome”, explica.
Na leitura da especialista, o movimento poderá dar lugar a uma nova força política apoiada pela Irmandade Muçulmana. “O Hamas é a Irmandade Muçulmana, que se retira, mas para apoiar um novo partido”, afirma.
É precisamente esse cenário que, segundo Maria João Tomás, Netanyahu pretende impedir. “Netanyahu sabe disto, com certeza, e não quer que a Irmandade Muçulmana concorra às eleições”, sustenta.
Por isso, acrescenta, o primeiro-ministro israelita está a assumir uma posição cada vez mais intransigente: “Está a fazer um finca-pé” ao não aceitar o acordo.
A analista considera, no entanto, que a questão palestiniana não é o único problema que Netanyahu enfrenta. A evolução da situação no Irão, a aproximação entre a Arábia Saudita e os Estados Unidos e a proximidade das eleições em Israel estão também a aumentar a pressão sobre o primeiro-ministro.
“A situação está bastante má para Netanyahu, e ele está a perder em várias frentes”, afirma.
Maria João Tomás enumera essas frentes: “Ele está a perder com a questão do Irão, com a questão do Médio Oriente, por causa do acordo com a Arábia Saudita, e que subentende que o Irão também irá ter nuclear”.
A isso junta-se, na sua leitura, a aproximação entre Turquia, Arábia Saudita e Paquistão, que descreve como uma espécie de “NATO islâmica”.
“E depois a cereja em cima do bolo, que é o Hamas sair e desarmar-se”, afirma Maria João Tomás, defendendo que esse processo poderia conduzir ao aparecimento de um novo partido apoiado pela Irmandade Muçulmana e à sua participação nas eleições palestinianas.
Para a especialista em temas de negociação do Médio Oriente, o eventual desaparecimento do Hamas enquanto força armada e a sua transformação numa força política constituiriam também uma derrota política para Netanyahu.
“O Hamas alimenta a extrema-direita de Israel, porque cria ódio, e, portanto, há ódio de um lado, há ódio do outro e as coisas crescem”, explica.
Maria João Tomás sustenta ainda que o primeiro-ministro israelita beneficiou politicamente, ao longo dos anos, da existência do Hamas enquanto adversário da Fatah.
“Sabe-se que até hoje, Netanyahu sempre deixou que o Hamas fosse financiado, porque era importante. Aliás, quanto mais o Hamas crescia, mais a Fatah diminuía”, afirma.
Nesse sentido, considera que a saída do Hamas do cenário militar e a sua eventual transformação numa força política representam “de alguma forma uma derrota para Netanyahu”.
A proximidade das eleições em Israel é outro dos fatores que, segundo Maria João Tomás, condiciona a estratégia do primeiro-ministro. “O cenário está bastante negro” para Netanyahu, que está à beira de eleições e, “se não ganha, é preso”, afirma a analista. Por isso, considera que o primeiro-ministro poderá procurar bloquear qualquer evolução que considere desfavorável à sua sobrevivência política.
“Ele vai fazer tudo, tudo, tudo para impedir o acordo com o Irão, vai fazer tudo por tudo para impedir esta questão das eleições na Palestina e a questão do Hamas”, antecipa.
A analista admite ainda que Netanyahu poderá tentar convencer Donald Trump a retomar a guerra, embora manifeste dúvidas sobre a disponibilidade do Presidente norte-americano para seguir esse caminho.
“Vai fazer tudo o que puder para convencer Trump a regressar outra vez à guerra. Só que eu não sei se Trump desta vez está muito interessado nisso”, conclui Maria João Tomás.