O segredo da boa liderança

O segredo da boa liderança

  • 10/08/2026 01:17
  • Redação

A maior desgraça da humanidade é os cristãos não acreditarem naquilo que professam. Unidos ao Senhor do universo, eles têm as melhores respostas para todos os problemas, só que raramente utilizam a sua doutrina na prática, preferindo confiar nas teses que os homens inventam.

Na gestão de uma organização, qualquer organização, desde a família à comunidade internacional, um dos conceitos mais influentes e mais difíceis é o princípio da subsidiariedade. Formulado originalmente dentro do pensamento social católico, tem vindo a ser adotado por outras instituições, como a União Europeia, mas permanece uma das menos aplicadas de todas as normas sociais.

"A Doutrina Social da Igreja denomina 'subsidiariedade' o princípio segundo o qual aquilo que as pessoas, as famílias, as comunidades locais e os organismos intermédios podem fazer não deve ser absorvido por instâncias superiores. As instituições de nível superior devem reconhecer, proteger e promover a liberdade e a criatividade das instâncias inferiores, coordenando os seus contributos para que cooperem eficazmente em prol do bem comum." (Magnifica Humanitas, 68).

Esta noção é essencial para a boa estruturação de uma sociedade, seja ela nacional, empresarial ou familiar, e implica dois elementos. O primeiro é que os níveis superiores não usurpem funções que não lhes competem, imiscuindo-se naquilo que os níveis inferiores podem fazer por si (subsidiariedade negativa); o segundo é que os estratos dirigentes realizem aquilo que os que estão abaixo precisam e não conseguem fazer (subsidiariedade positiva).

O grande benefício deste conceito é que revoluciona a noção de poder, invertendo a pirâmide institucional. Partindo da dignidade irrecusável e irreprimível de cada pessoa, coloca as posições de comando ao serviço daqueles que dirigem. "Se cada mulher e cada homem são chamados a ser protagonistas da própria vida e a participar na construção da sociedade, então também a organização social deve respeitar e favorecer essa responsabilidade" (idem). Quem manda, tantas vezes cheio de si, tende a achar que exerce a sua vontade e projeto, por muito bom que lhe pareça, perdendo de vista a função de orientação da comunidade.

Esta ideia é muito simples, mas preciosa. Se fosse mais aplicada, nas nossas casas, nas empresas, nas paróquias, nos sindicatos, e na política, seriam evitados muitos dramas que nos assolam.

Tradicionalmente, este princípio foi definido para a política, rejeitando quer o liberalismo, que recusa a necessidade de intervenção estatal, quer o socialismo, que lhe atribui toda a capacidade de decisão comunitária. Uma sociedade equilibrada deve conceber os sucessivos níveis para o serviço dos inferiores, tendo como fim último o bem-estar dos cidadãos. Os excessos de burocracia e assistencialismo, bem como o centralismo, autoritarismo e subsidiodependência seriam eliminados se este conceito fosse mais praticado. A Constituição Portuguesa, por exemplo, viola-o abertamente ao preferir o princípio da universalidade, forçando o Estado a fornecer saúde, educação e outros serviços a todos, com os resultados que bem conhecemos.

A mesma ideia não se limita à política, revelando-se preciosa dentro de todo o tipo de instituições. Em casa, os pais têm de entender que são subsidiários relativamente à vida dos seus filhos. Isso significa que não devem tentar formatá-los à sua imagem ou manipulá-los a cada passo, mas também não se demitindo de intervir quando eles precisam. Mães-galinhas e pais ausentes não são subsidiários. Pelo seu lado, os filhos têm de assumir as suas responsabilidades, não atirando para os pais as dificuldades ou desculpando-se com eles dos seus erros, mas também pedindo ajuda quando necessitam, não se arrogando a mais do que conseguem.

Na empresa, é decisivo e pode revelar-se um forte choque para muitos diretores e administradores que cada camada de chefia se considere subsidiária face às inferiores. Os operários, funcionários, trabalhadores, são, afinal, aqueles que realmente produzem. Para eles deve estar dirigida toda a cadeia de comando. O excesso de centralização pode ser tanto ou mais prejudicial ao negócio que a desorientação estratégica. Quem manda deve conhecer os limites da sua influência, sem se demitir da sua função, enquanto quem obedece deve assumir as suas responsabilidades, não atirando para cima aquilo que lhe compete.

Este princípio constitui um dos grandes contributos que a Igreja deu à teoria social nos últimos séculos, chocando abertamente com as ideias comuns da liderança. Infelizmente, precisamente por causa disso, ele permanece bastante desconhecido, até por parte daqueles que têm o dever de o anunciar.

João César das Neves, Professor da Católica-Lisbon Business School & Economics.

  • Fonte: Rádio Renascença
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