Portugueses querem cada vez mais os certificados de aforro, mas é o melhor para o Estado e para o aforrador?
- 11/08/2026 05:18
- Redação
É a opinião do economista Filipe Grilo, investigador da Porto Business School. “O certificado de aforro não é o instrumento mais interessante para o Estado. Em primeiro, porque depende sempre da atitude do aforrador. Se este quiser levantar por necessidade de dinheiro, o Estado tem de assegurá-lo. Portanto, o Estado não controla o timing do levantamento”, começa por explicar.
“E depois depende sempre das taxas de juros. Ou seja, o risco passa, neste momento, para o Estado. Portanto, se a taxa de juro aumenta, obviamente temos ali um limite máximo (2,5% na série F), mas se aumenta, isso significa que o Estado fica a pagar mais imediatamente, coisa que não acontece, por exemplo, nas obrigações”, concretiza.
Bárbara Barroso, fundadora do Projeto De Literacia Financeira MoneyLab, é muito crítica desta opção também do ponto de vista do aforrador. “Quando temos instrumentos que não superam sequer o valor da inflação, “as poupanças não estão a ter retornos reais positivos”.
“Sou bastante crítica com o facto de haver uma tributação até um determinado valor de instrumentos de poupança do Estado. Se o Estado quisesse, efetivamente, incentivar a poupança, fazia-o na tributação”, analisa.
Filipe Grilo explica que o Estado nunca olhou para os certificados apenas como instrumento de dívida pública. “Acaba por ser um instrumento de incentivo à poupança dos portugueses”, identifica.
“Sabendo que os portugueses têm um problema de poupança, acaba por ser um instrumento também de responsabilidade social para o Estado”, qualifica o investigador da Porto Business School.
A fundadora do Projeto De Literacia Financeira MoneyLab adverte, no entanto, que mesmo como incentivo à poupança “é curto”. Barroso defende que o Estado “pode fazer mais, pode fazer melhor”, porque tem, neste âmbito, a possibilidade de “isentar [de impostos] até um determinado montante e aí sim era um incentivo a uma poupança, mesmo com baixo risco”.
A nova série, disponível há um mês tem juros melhorados, atraíram as poupanças de 8.300 investidores, num valor médio de investimento de 28 mil euros.
O peso dos instrumentos de retalho na dívida portuguesa aumentou, no ano passado, de 14,6% para 15,2%, refletindo o contínuo apetite das famílias por certificados de aforro.
O IGCP adotou uma estratégia de cobertura de risco, para acautelar os juros destes produtos, com a contratação de novos "swaps". Uma espécie de seguro. O especialista Filipe Grilo diz que esta é uma operação normal quando “alguém que se financia como um Estado, com grandes dimensões, não quer estar desprotegido deste risco”.
“Também não nos podemos esquecer que o facto de os certificados de aforro terem agora mais peso significa também mais risco para o Estado. Portanto, o IGCP está simplesmente a contratar uma espécie de seguro para evitar que vá pagar muito pela subida que pode acontecer das taxas de juros nos próximos meses”, analisa, admitindo que este instrumento “acaba por aumentar ligeiramente este risco”.
“Mas diria que não é nada preocupante, é simplesmente o IGCP a trabalhar, como faz, e muito bem, na proteção da dívida”, sublinha o investigador.
O aumento da taxa de juro cobrado pelos certificados de aforro, está indexada à Euribor a três meses. “Se essa taxa de juros aumentar, quem vai pagar é quem contratou. A seguradora vai pagar ao Estado, para depois o Estado pagar aos aforradores”, garante.
Bárbara Barroso salienta que o IGCP pôs outro travão aos juros que estes certificados de aforro podem atingir, ao colocar a remuneração máxima a 2,5%.
A procura destes instrumentos cresceu por duas grandes razões, segundo Filipe Grilo: a população aumentou e isso contribui bastante para a subida dos depósitos, e o aumento da taxa de poupança, que tem vindo a acontecer já desde a pandemia.
“A pandemia aumentou de forma interessante a poupança, mas mesmo depois da pandemia continuamos a ter uma subida da taxa de poupança. Neste momento, estamos a falar de cerca de 12%, que se compara com 8% na pandemia, e aos 6% antes da Covid-19”, identifica.
Convidado a olhar para o futuro e questionado sobre se esta tendência de crescimento se vai manter, Filipe Grilo salvaguarda que fazer futurologia é sempre complicado, mas considera que há duas variáveis importantes que podem definir o que irá acontecer. “Uma é a dinâmica da população. Temos de perceber se vamos continuar a receber estes imigrantes”, começa por enumerar.
Outra variável importante é o mercado de trabalho. “Enquanto estiver resiliente, ou seja, as taxas de emprego estiverem baixas e as pessoas poderem trabalhar, receber salário, fazer poupança, isto vai permitir, mais uma vez, canalizar recursos para estes instrumentos”, identifica.
No entanto, e por fim, há uma questão geracional que pode fazer o atual “status quo” abanar.
“Agora vemos também os mais jovens, com mais formação, com mais conhecimento. O conhecimento também está mais acessível. A própria dinâmica dos ETF tem ajudado muito nesse sentido e há cada vez mais portugueses a investirem nesses ativos financeiros. Isso acaba por ser, não um concorrente direto, mas um concorrente indireto destes instrumentos de poupança”, concretiza.