Para honrar o pai, Mourinho foi o oposto: Documentário sobre "Special One" é "estudo psicológico”
- 11/08/2026 06:00
- Redação
20 horas de entrevista e dois anos e meio de produção depois, estreiam-se esta terça-feira três episódios que prometem dar muito que falar no mundo do futebol e que inclui depoimentos de figuras como Sir Alex Ferguson, John Terry, André Villas-Boas, Zlatan Ibrahimović, Didier Drogba, Marcelo, Samuel Eto'o, Javier Zanetti, Frank Lampard, Petr Čech, Figo e até Iker Casillas. Mas já lá vamos. Primeiro, é preciso explicar que devoção é uma palavra que também se estende às quatro linhas. Afinal de contas, o produtor Miles Coleman falou connosco em português também por devoção... a Mourinho.
"Eu nasci na África do Sul e fui morar para Londres. Não tenho sangue português, não tenho sangue brasileiro mas, quando tinha 12 ou 13 anos, duas coisas aconteceram na minha vida que abriram as portas à língua portuguesa. A primeira foi ver o filme 'Cidade de Deus', um filme brasileiro marcante e incrível, que foi como uma chamada para explorar mais sobre o Brasil", começa por explicar.
"A segunda coisa foi o José Mourinho ter ido para Inglaterra. Portugal surgiu em primeiro lugar na mentalidade futebolística inglesa por causa de José Mourinho. Fiquei muito interessado nele e pensei: um dia vou aprender português. Por isso, para mim, é um momento cósmico fazer um documentário sobre o José Mourinho. Se não fosse ele acho que não falaria português", assegura o produtor, que também já fez trabalhos sobre o Manchester United, David Beckham e a corrupção na FIFA.
"Somos aficionados", admite Coleman. Escolher o protagonista, portanto, não foi uma ideia de génio... convencê-lo a participar é que não foi assim tão fácil.
"Não era preciso ser Einstein para saber que Mourinho dava um documentário interessante. O mais interessante, o mais complicado foi convencê-lo a ele", assegura.
"Foi um trabalho de vários anos. Na verdade, não sei realmente por que ele decidiu que era o momento certo. Se tivesse de adivinhar... ele decidiu fazer o documentário e trabalhar connosco em 2024, numa altura em que havia mais linhas nos media sobre ele não ganhar, sobre a carreira estar mais em baixo. Não tenho a certeza, mas acho que a motivação dele foi dar o seu ponto de vista e dizer: eu continuo aqui", assevera o produtor, que acompanhou com curiosidade o que aconteceu na vida profissional de Mourinho entre o momento em que terminaram a rodagem e a altura em que o documentário vê a luz do dia.
"Agora que estamos aqui a falar, ele vai ser treinador do Real Madrid. Ele tinha razão, não é? Mas tenho de ser sincero: não imaginava que este documentário sairia com ele como líder do Real Madrid. Parecia impossível, mas isso é o futebol, isso é José Mourinho."
A surpresa ditou algumas mudanças no documentário, filmado de Roma à Turquia, passando por Portugal.
"Finalizamos as entrevistas quando ele estava entre o Fenerbahçe e o Benfica", descreve Coleman. No entanto, as mais recentes mudanças na vida e carreira de Mourinho não apoquentam Miles, que assegura que a ideia foi sempre outra. "A ideia não foi fazer um documentário de 2026, mas alguma coisa mais permanente. Um documentário de personalidade, de psicologia, não somente sobre os clubes", diz. "Queríamos fazer um estudo psicológico da pessoa, não fazer uma página da Wikipédia ou uma timeline".
Por isso, acharam melhor "selecionar um período bem definido": a sua chegada ao Chelsea e o dia em que se tornou "Special One".
"Se fosse o período mais ganhador seria o Porto, não é? Para mim, o Porto foi a conquista mais impressionante", assegura o produtor, que espera que, mesmo assim, os adeptos portugueses não fiquem chateados por não terem "mais Porto" nos episódios. Na sala de edição, foi tomada a decisão de que o foco seria começar e sair "basicamente no mesmo lugar", ou seja, "entrar no dia 1 do Chelsea e sair no último dia de Chelsea".
"O objetivo não era ser um documentário mais futebolístico, mas mais psicológico, do personagem, do carácter que ele é", diz Coleman. Mas como é que se consegue convencer o Mourinho a ser vulnerável?
Conseguir convencer Mourinho a abrir o jogo não foi fácil, mas valeu a pena, assegura Coleman, que garante que não houve assuntos tabu, mas que o técnico português não se mostrou muito recetivo a falar sobre alguns temas, como o pai, a família ou a religião.
Apesar disso, o produtor acredita que é a fé que explica parte do sucesso do "Special One".
"Ao construir a entrevista, queria abrir avenidas menos exploradas. A fé foi parte disso, estava muito interessado nisso, porque li que ele vai à igreja todos os domingos. O realizador fez uma pergunta sobre isso e ele não quis falar. Não disse que era uma parte pessoal, que não estava confortável. Não. Simplesmente passou para a pergunta seguinte, o que, para mim foi muito interessante", conta o produtor.
"Ele limitou o assunto e não sei porquê. Tínhamos a ideia de filmar com ele numa igreja, por exemplo. Mas o não foi absoluto", repete.
"Para mim, como alguém que realmente adora Portugal e a cultura portuguesa, como lusófilo, foi interessante entender como Portugal faz parte da sua identidade. Se ele fosse do Japão ou da Ucrânia ele seria uma pessoa completamente diferente e o catolicismo faz parte disso. A história dele é uma história de confiança, mas confiança é outra palavra para fé".
"Como produtor e documentarista, foco-me também nas coisas que não conseguimos 'abrir'. Para mim, isso também conta uma história. Por exemplo: ele falou um pouco sobre o pai, sobre a família, mas isso normalmente, para ele, está fora de jogo", explica o produtor. Mesmo assim, "o facto dele não falar disso diz muito sobre a sua personagem. Foi interessante perguntar sobre isso e ele não falar disso, só falar de futebol, mostra como é, como personagem".
Cada momento mais íntimo teve, por isso, de ser conquistado. "Uma hora de entrevista tem dez horas de preparação por trás. É um processo. Não se entra num dia com certas perguntas porque não vai funcionar. A ideia foi abrir pouco a pouco, passo a passo, para chegar a um ponto em que nunca se pode chegar numa conferência de imprensa de 20 minutos". "O Mourinho não abre o coração. É uma pessoa que está muito em controlo, de nós, dos média, de tudo. Há basicamente um metadocumentário dentro do documentário, que é sobre 'como posso abrir essa personagem que não se abre?'", entende.
Analisando psicologicamente a personagem em que se focou neste documentário, Coleman acredita que há coisas que explicam a personalidade: "Quando ele diz que já provou tudo ao mundo", dá a sensação de que quer dizer que "não quer provar mais". "E ele tem razão. Ganhou muito na sua carreira. Mas por que se sente assim? Porque ainda tem esse desafio, essa agressividade contra as pessoas, contra os media, contra o establishment? Porque tem donos como Abramovich que querem que ele faça o que lhe pedem", entende.
Mas também há, certamente, motivos mais "humanos" e comuns para explicar Mourinho, como uma certa ideia de viver na sombra da fama do pai. "Essa é a parte mais universal e José Mourinho não é uma pessoa comum. Tem uma vida excecional, única. Mas todos temos pais, não é? Acho muito interessante ele ter essa sombra do pai a pairar por cima dele. E a reação que ele teve a esse pai muito querido foi dizer: eu vou ser mau, eu vou ser o contrário, eu vou ser o inimigo, porque ele foi querido e perdeu o seu trabalho e não teve o respeito que merecia", defende. "Eu vou fazer o contrário. Para mim, não me importa se sou querido ou não. Só quero ganhar, ganhar, ganhar."
Muito terá ficado por dizer, sobretudo para adeptos do FC Porto e Benfica, mas, para Coleman, tudo o que dava para explorar foi explorado. "Acho que este documentário diz tudo o que queríamos dizer. Estamos muito felizes com o trabalho final", remata.