Aos 16 anos, uma lesão acabou com o futebolista Guérin. E aí nasceu o ciclista que lidera a Volta a Portugal
- 11/08/2026 14:55
- Redação
Depois do segundo lugar na Volta a Portugal do ano passado, o francês Alexis Guérin meteu na cabeça que queria conquistar a camisola amarela na Grandíssima. Para já, vai no caminho certo.
Um ataque a 15 quilómetros da meta na Torre pulverizou a concorrência e, para já, leva uma vantagem confortável para o seu colega de equipa na Anicolor-Campicarn, Artem Nych, e Tiago Antunes, da Efapel.
Guérin define a Volta a Portugal como "o Tour de France do escalão continental", pela dureza da competição e, nesse sentido, não acredita que as contas estão fechadas.
Tal como Remco Evenepoel, Guérin também foi futebolista na infância e apenas uma lesão o tirou dos relvados. Foi assim que nasceu o ciclista que hoje lidera a Volta.
Passou pela FDJ, no WorldTour, desceu ao nível de clube e voltou a estar perto do topo, ao correr monumentos e a triunfar na Coppi e Bartali em 2023, prova que contava com Mauro Schmid, Lipowitz e Ben Healy.
Depois de várias contactos da Anicolor-Campicarn, decidiu aceitar o convite no ano passado, uma equipa que considera ter condições de ProContinental, segundo escalão mundial.
Dormi com a amarela ao meu lado e ofereci uma de pijama ao meu companheiro de quarto, que trabalhou muito bem na primeira parte da Torre, o Louis Ferreira. Ele é o outro francês da equipa e que vive a 300 metros da minha casa. Para mim, ele é o melhor trepador de Portugal. O trabalho que fez foi muito bom. Eu ganhei a amarela na Torre, mas uma grande parte do trabalho foi dele na montanha.
Foi um plano que eu e o Louis fizemos num estágio em altitude. Falámos com o Rúben [diretor desportivo], ele disse que era perigoso porque podia explodir e perder tudo. Mas estudei a carreira no dia anterior, ele disse que a primeira parte era muito inclinada, para mim é bom. Eu tentei, o trabalho do Luís foi muito bom. Eu arrisquei, mas tinha o Artem Nych no segundo grupo, foi um dia perfeito.
Como funciona a ligação com o Nych agora? Ele poderá trabalhar para si ou quer proteger o segundo lugar?
Não conversámos sobre isso, ainda não fizemos nenhuma reunião sobre isso. Estou aqui para a camisola amarela. Vou trabalhar para ganhar a geral e também a segunda posição do Artem. É importante que ele esteja no segundo lugar. Tudo por acontecer. Um furo, uma queda. Ele, estar no segundo lugar, é uma segurança para mim e para a equipa.
Todas são importantes, seja numa corrida maior ou menor. Esta é uma corrida grande. Já o disse no ano passado, para mim a Volta a Portugal é a Volta a França para o ambiente continental. É a maior volta que há. Vou ganhar o Tour de France continental, espero eu.
A vantagem é boa para o Nych e Tiago Antunes, mas a segunda semana é muito dura. Será difícil controlar as etapas?
Sim, sei que vai ser difícil. Os primeiros 15 querem ganhar, vai ser uma guerra de ciclismo, mas eu tenho a equipa mais forte do pelotão. O Enzo Leijnse e o Carson Miles são muito bons para controlar, o Mesa é o sprinter, mas trabalha muito. Vai buscar os bidons e os gelos para chegar ao fim na melhor condição. Depois, o Rafael Reis é um capitão com a maior experiência do pelotão. O Artem pode ganhar a Volta a Portugal e o Louis Ferreira, que é o melhor trepador de Portugal. Tenho confiança, é simples.
Tenho cuidado com todos. O Péricas é forte, o Fábio Costa e o Pedro Silva são fortes, o José Neves também, fez o mesmo tempo que eu. O Fábio e o Tiago Antunes são muito fortes em montanhas curtas. Não posso sair com a certeza que vou ganhar, todas as equipas têm um plano.
Tinha um amigo que fazia ciclismo. Eu magoei-me num joelho a jogar futebol. E para recuperar precisava de andar de bicicleta. No primeiro treino com o clube, o presidente disse que o primeiro a chegar ao topo, vencia. E eu fui o primeiro com alguns corredores de elite em França. Ele disse que tinha de me tornar ciclista e seis meses depois fui para a seleção francesa de juniores.
Nada disso, ele era um talento. Podia ter sido um jogador internacional, eu jogaria talvez numa quarta divisão.
Sim, como estagiário. Fiz praticamente só clássicas na Bélgica, que não são as melhores corridas para mim, mas levou-me à Etixx, que era a equipa sub-23 da Quick-Step. Aí fiz um teste de watts com os do WorldTour e fiquei em segundo. Tinha um bom nível.
Sempre. Não me recordo o ano, mas sei que disse ao meu pai que o ciclismo era muito duro. Ele disse-me que me ia meter numa fábrica e ia ver o que era duro. Fiz lá um mês e meio numa fábrica de gelados. Trabalhei 8 horas. De manhã, à tarde e à noite. Disse ao meu pai que o ciclismo era fácil. Esta vida é muito fácil.
Sim, é uma vida diferente, claro, mas fácil. Viajas muito, o que é bom, mas também não é fácil para a família. Depois, tens tempo com a família também, por vezes estou um mês e meio com eles.
Em Pau, venho para estágios, corridas e reuniões. A minha mulher tem família aqui, mas aprendi a falar português aqui na equipa com os nossos diretores desportivos. Prefiro aprender, tenho muito respeito pelo país.
Ganhei com 100 quilómetros a solo. Foi um ano muito bom. Estava o Lipowitz, Mauro Schmid, Ben Healy. Ataquei a 130 quilómetros para juntar-me à fuga e depois voltei a atacar sozinho. Ganhei com 12 ou 15 segundos a um grupo de 15 ciclistas.
Sim, eu falei com várias equipas do WorldTour, mas nunca assinei. Mas estou muito feliz aqui. Estou na melhor equipa de Portugal, temos excelente material, grande organização. Tenho uma organização do nível ProContinental.
O Rúben falou comigo em 2022. Perguntou novamente em 2023. Em 2024 eu disse-lhe que queria vir e acabei por assinar. Encontrei boas pessoas aqui.
Aprendi muito com o Artem Nych, ele é muito forte. É o rei da Volta a Portugal, conhece muito bem a prova. O Rúben disse que era uma prova muito difícil, com o calor, o percurso. Apanhei a experiência e depois disse-lhe que queria ganhar. Ele disse que podia, mas tinha de trabalhar muito no contrarrelógio e chegar mais fresco à Volta.
Lá fora, olham para o ciclismo português com grande suspeita. Isso deixa-o triste?
É o problema do ciclismo. Quando o Pogacar ganha, dizem o mesmo. É um problema do passado. A ADoP e a UCI fizeram um trabalho duro a limpar o ciclismo. Acho que é muito melhor agora do que no passado. Tenho amigos que correram nos anos terríveis em 2000. Agora, podes ganhar com trabalho, sendo sério.
Quero ganhar. Não sei se vou ter oportunidades no WorldTour, estou na melhor equipa de Portugal.
Sou um homem feliz com a minha vida. Chocolate, ciclismo, bons amigos, equipa que é família, a minha mulher está contente, tenho filhos. É uma vida boa, simples.