Falta de bebés põe Londres a enfrentar um "desafio existencial"
- 12/08/2026 15:56
- Redação
Os números as suas consequências impressionam. Numa década, entre 2014 e 2024, a taxa de fertilidade caiu 66,7% na City de Londres.
Isto numa cidade em que as estatísticas mostram que a população cresceu, no mesmo período, mais de meio milhão de pessoas, mas em que a universo de crianças dos 0 aos 9 anos diminuiu quase em 100 mil.
Em consequência, o número de crianças nas escolas primárias de Londres tem vindo a diminuir e, entre 2018 e 2019, 100 escolas da capital britânica foram obrigadas a fechar ou a fundir-se.
Estes dados levaram já Bassam Mahfouz, presidente do Comité de Economia, Cultura e Competências da Assembleia de Londres (instituição que fiscaliza a ação do presidente da Câmara), a dizer que a cidade enfrenta “um desafio existencial”. "Precisamos de encarar isto como uma emergência absoluta", acrescentou.
Uma reportagem recente da BBC ilustrava esta crise de natalidade com um bairro de Londres, Islington, onde a taxa de fertilidade é das mais baixas da cidade.
"O que está a acontecer em Islington está a acontecer em toda a Londres", exponencia Bassam Mahfouz. Com 0,99, Islington tem a segunda taxa de fertilidade total mais baixa da capital, a seguir à City de Londres, e uma das mais baixas de Inglaterra.
O número estimado de filhos por mulher desceu para pouco menos de 1,4 em Inglaterra e no País de Gales em 2025, contra 1,9 em 2010.
A unidade de dados da BBC analisou alguns dos fenómenos que podem estar a contribuir para a baixa taxa de natalidade em Islington, e que serão a tendência em muitos outros locais do Reino Unido.
Entre os fatores mais relevantes, estão a emigração de mulheres jovens. Em 2025, Islington registou uma perda líquida de 1.062 mulheres entre os 30 e os 34 anos, um dos maiores declínios para esta faixa etária no país.
As rendas são também especialmente elevadas. Islington está na nona posição na relação entre renda/rendimento entre 316 municípios em Inglaterra e no País de Gales. Ainda na habitação, em 2025, o preço mediano de uma casa era quase 12 vezes o rendimento anual mediano.
E em março de 2025, 16.794 famílias estavam em lista de espera por habitação social em Islington – a 17ª maior de Inglaterra e a sexta maior de Londres.
Uma realidade que é descrita na reportagem da BBC em Islington, onde Tiphanie Frutuoso e o seu marido tiveram o primeiro filho este ano.
“O meu marido e eu temos um apartamento de um quarto e um de dois quartos é extremamente caro”, relata.
A isso soma-se, segundo o casal, o facto de os cuidados infantis custarem entre 2.000 (2.340 euros) e 3.000 libras (3.511 euros) por mês.
Vão voltar para o Luxemburgo, em parte porque os serviços de acolhimento de crianças são gratuitos. “É realmente triste, porque adoramos Londres. Aqui temos melhores oportunidades de emprego”, acrescentou Frutuoso.
Já Patrick Penny-Annang, pai de dois filhos, viveu toda a sua vida em Islington e agora partilha um apartamento de um quarto com a sua família.
“A nossa sala de estar transforma-se no nosso quarto... a nossa única cama passa a ser o quarto das crianças", disse também à BBC.
O fenómeno já levou o "think tank" independente Centre for London a dizer que “Londres não está a tornar-se uma cidade sem famílias com filhos”, mas está a tornar-se num local “onde as realidades que as famílias com filhos enfrentam são cada vez mais desiguais.”
O tema também mereceu um comentário de um porta-voz do presidente da Câmara de Londres, que afirmou que Sadiq Khan “quer que Londres continue a ser uma cidade para todos — onde as pessoas tenham meios para criar raízes, constituir família e construir um futuro”.
"É por isso que combater a crise habitacional de Londres e aumentar a oferta de habitações verdadeiramente acessíveis é uma das suas principais prioridades, a par de medidas para apoiar as famílias face ao custo de vida, incluindo o financiamento de refeições escolares gratuitas para todas as crianças nas escolas primárias públicas”, resume.
No setor da educação, as escolas da cidade relatam quebras particularmente drásticas no número de alunos e estão a enfrentar uma maior pressão financeira, uma vez que o financiamento é geralmente feito por aluno.
As projeções indicam que as escolas primárias da região central de Londres terão uma quebra de 11% no número de alunos até 2030.
Apesar de todos os dados negativos, há alguma esperança segundo a Assembleia de Londres, em 2025, “55 % dos futuros pais inquiridos afirmaram que gostariam de criar os seus filhos em Londres”.