"Memorável. O dia fez-se noite e a noite fez-se dia". O eclipse total vivido em Montesinho
- 12/08/2026 17:48
- Redação
O dia fez-se noite em pleno Parque Natural de Montesinho. Durante pouco mais de 26 segundos, a Lua colocou-se entre a Terra e o Sol e mergulhou o Alto de Guadramil, em Bragança, numa escuridão pouco habitual para aquela hora do dia.
Depois, quase de repente, a luz regressou. “O dia fez-se noite e a noite fez-se dia”, resume um dos participantes, numa frase que traduz a experiência vivida por milhares de pessoas que se deslocaram ao Nordeste Transmontano para assistir ao eclipse total do Sol.
Entre os espectadores estava Henrique Cardoso, de 54 anos, vindo de Gaia, que não escondeu a emoção depois de assistir ao fenómeno.
“Valeu bem a pena. Foi uma experiência espetacular e única. Estou todo arrepiado. Acho que valeu”, contou.
Henrique fez a viagem desde o Porto com o objetivo de assistir ao eclipse e regressar ainda no mesmo dia. “Vim do Porto, de Gaia. Fizemos a viagem, vamos jantar e vamos regressar a casa”, explicou.
Mas o que viu em Montesinho ultrapassou aquilo que esperava encontrar. “A experiência de ver o eclipse, ver o anoitecer e depois voltar a ver luz, foi fantástico. Muito, muito bom mesmo”, descreveu.
A memória, garante, ficará para sempre. “Ficou gravado em todos os poros. Todos mesmo. Para a vida. Uma experiência mesmo para a vida”, rematou.
Também Telmo Cadavez, de Bragança, viveu o momento em família. A expectativa acumulou-se durante horas até aos instantes decisivos, mas a realidade acabou por superar tudo aquilo que imaginava.
“Muito emocionante. Enfim, a espera toda até ao momento mais alto do fenómeno”, contou.
Telmo admite que nunca tinha imaginado que um eclipse pudesse provocar uma reação tão forte: “Eu nunca pensei que fosse realmente um fenómeno tão impressionante.”
Foram apenas alguns segundos de totalidade, mas suficientes para fazer parar tudo à volta. “A minha mulher, a Cristiana, e a minha filha ficámos completamente estáticos. Nem há fotografias, nem nada. Foi só viver o momento. Isto nem deu nem apeteceu, foi mesmo só parar.”
“Sentimos muito a baixa temperatura e a escuridão também se fez notar. Foi muito giro, muito engraçado”, relatou.
Para a filha, a experiência foi igualmente inesquecível: “Foi muito giro. Um momento que eu nunca pensei que pudesse ver. E foi inesquecível.”
De Lisboa chegou Nuno, de 49 anos, que tem família na zona de Guadramil e aproveitou a oportunidade para assistir ao fenómeno num dos poucos locais do país onde a totalidade foi visível.
“Isto é uma coisa que só se vê uma vez na vida, não é? Como eles dizem, e vim experienciar. É muito bom, é bonito, muito bonito”, afirmou.
Mas, depois de o viver, encontrou dificuldade em explicar aquilo que sentiu. “Faltam as palavras para descrever as emoções, os sentimentos. É difícil passar para palavras aquilo que nós vimos com os nossos olhos.”
Uma das imagens que mais o marcou foi a mudança brusca da temperatura e da luminosidade. “É difícil a sensação de estar o Sol quente e vir o frio de repente, à noite, e depois passar para o dia.”
Para Nuno, aquilo que aconteceu em Montesinho foi, acima de tudo, uma experiência irrepetível. “É difícil conseguir pôr em palavras. (...) É realmente uma coisa única na vida.”
Entre os que assistiram ao fenómeno estavam também investigadores e equipas científicas, atentos não apenas à beleza do eclipse, mas aos dados que poderiam ser recolhidos durante os escassos minutos de totalidade.
Nelson Nunes, investigador do Instituto de Astrofísica e Ciências do Espaço e professor da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, viveu o momento entre a emoção e alguma frustração.
O investigador estava a tentar fotografar o eclipse quando, ao retirar o filtro, acabou por desalinhar o telescópio.
“Tive de olhar pelo buscador para voltar a centrar o Sol e vi a coroa solar ampliada, espetacular, e vi as protuberâncias vermelhas no bordo do Sol.”
Não conseguiu guardar o registo fotográfico que pretendia, mas ficou com a experiência.
“Apesar do lado negativo, houve um lado positivo espetacular, mas não há registo nenhum. Fica só na minha memória”, desabafou.
Também Rui Gonçalves, presidente da direção do Centro de Ciência Viva de Constância e docente do Instituto Politécnico de Tomar, viajou até Bragança para tentar registar o eclipse.
Em Constância, centenas de pessoas acompanharam o fenómeno no Centro de Ciência Viva, mas Rui quis estar no único local de Portugal continental onde seria possível observar a totalidade.
“Tivemos no nosso centro, em Constância, casa cheia, centenas de pessoas, e os nossos colegas de Constância ficaram todos lá a fazer o trabalho deles. Eu vim cá tentar registar o eclipse no único sítio do país onde a gente podia ver a totalidade”, relatou.
A operação envolveu câmaras e até um drone: “Conseguimos qualquer coisa, vamos ver o resultado”, explicou.
“Foi espetacular. Nunca tinha visto um eclipse e ver diretamente (...) tudo branco sem luz, vermelho sem luz, é espetacular. É uma experiência única, exatamente, que eu nunca tinha vivido”, contou.
Rui também registou uma descida da temperatura durante o período de totalidade.
“Nota-se perfeitamente o abaixamento de temperatura”, afirmou, estimando uma descida na ordem dos três a quatro graus, embora ressalvando que o final do dia também contribuía naturalmente para a diminuição da temperatura.
Para Ivone Fachada, do Centro Ciência Viva, o eclipse foi mais do que um fenómeno astronómico. Foi também uma oportunidade para refletir sobre o lugar do ser humano no Universo.
“É fascinante pensar que estamos a viver num planeta que está a circular a uma velocidade enorme e que, neste momento, tem uma Lua a interpor-se entre nós e o Sol”, disse.
Na sua perspetiva, acontecimentos desta dimensão têm a capacidade de juntar pessoas muito diferentes em torno de uma experiência comum.
“É um momento de comunhão que eu acho que é importante refletirmos enquanto humanidade, da nossa pequenez, por um lado, mas também da nossa originalidade”, apontou.
“Somos todos humanos, somos todos iguais e viemos todos aqui para o mesmo. Estes fenómenos têm este poder quase espiritual de nos ter aqui em comunhão, a apreciar um fenómeno astronómico e científico muito relevante”, destacou.
A responsável recordou ainda que 2026 marca os 30 anos da Ciência Viva, coincidindo com a oportunidade rara de assistir a um eclipse total em território português.
A totalidade foi curta, mas cientificamente preciosa. Segundo Ivone Fachada, o tempo em que a Lua ocultou completamente o Sol permitiu aos investigadores recolher dados sobre a coroa solar.
“São dois minutos muito importantes, especialmente para os astrónomos que estão a recolher dados científicos.”
Esses dados poderão contribuir para conhecer melhor a atmosfera do Sol e, de forma mais abrangente, ajudar a estudar outros sistemas planetários.
“Poder fotografar, retirar dados também da coroa solar, poderemos depois, com estes dados, estudar a atmosfera do Sol, que é muito importante, e também estudar a atmosfera de outros exoplanetas.”
A importância científica do momento vai, por isso, muito além do espetáculo observado em Montesinho.
“Todos estes dados recolhidos podem ajudar-nos a extrapolar para outras realidades e para outros sistemas planetários e solares que nós também temos no nosso Universo.”
A oportunidade de observar novamente um eclipse solar total em Portugal continental está, contudo, muito distante no tempo.
“Esta expedição científica é muito relevante porque em Portugal Continental só volta a acontecer em 2144”, frisou.
Para quem esteve esta quarta-feira no Alto de Guadramil, difícil será esquecer esta “experiência memorável”.
Durante alguns minutos, o Sol desapareceu, a temperatura caiu, o silêncio tomou conta da paisagem e milhares de pessoas ficaram paradas a olhar para o céu.
E, como resumiu um dos espectadores, “o dia fez-se noite e a noite fez-se dia”.