A categoria, os dias e o traçado. Como Mosquera desenha o futuro da Volta a Portugal
- 13/08/2026 04:08
- Redação
Ezequiel Mosquera não esconde o entusiasmo quando recorda a primeira vez que subiu a Senhora da Graça, em 1999. Compara a passagem por Mondim de Basto ao icónico Alpe d'Huez e quer que todos no estrangeiro conheçam o potencial da Volta a Portugal para formar as estrelas do futuro.
O novo organizador da prova não vive obcecado com o objetivo de subir a categoria da prova para atrair melhores equipas.
Acredita que vender a ideia de que não existe melhor prova para testar os jovens ciclistas será suficiente para convencer mais equipas do WorldTour a marcar presença. A UAE foi a primeira a comprá-la e trouxe a promessa Adrià Péricas, quarto classificado após seis etapas.
Mosquera prefere focar os seus esforços em cimentar as bases de uma prova competitiva, séria e com visibilidade internacional.
Este é o primeiro ano com organização do galego que à partida para a segunda semana explica a visão que tem a longo prazo para a prova mais importante do calendário nacional.
Sim, o terreno do Norte dá esta alternativa, não são montanhas tão decisivas como a Serra da Estrela, mas são muitas, de terceira, segunda e primeira que animam a aventura, que é o que é preciso.
Há uma equipa a dominar [Anicolor], mas o trajeto tem de dar a opção para o contra-ataque. E o espetáculo do ciclismo está aí: como se ataca, como se defende e como acaba o filme.
Sim, é preciso procurar essas etapas de chegada ao alto, etapas que têm montanha, mas não são chegada em alto, etapas em que podem ser "sprint", mas que também se pode dar uma grande batalha. Podes achar que não vai acontecer nada, mas tudo dá a volta. Há equipas com vontade de batalha. As equipas vão ao choque e são elas que dão espetáculo.
A presença da UAE, com o Adrià Péricas a dar-se bem, pode abrir portas a mais equipas desse nível? Já se falou da Movistar.
Acho que o panorama da Volta a Portugal no futuro será mostrar esta pequena grande volta que existe aqui, que é a quarta maior em termos de dias.
É também isso que a penaliza, pela categoria e os dias que tem, não dá muitos pontos por dia. É a corrida mais penalizada do mundo nos pontos. É muito dura, muitos dias, em agosto, numa fase da época muito avançada, coincide com muitas provas, como Polónia e Burgos.
Agora, tem um ativo. Os dias de competição são uma singularidade que conservou. Tem público, tem contrarrelógio curto, contrarrelógio longo, alta montanha, média montanha. Tem transmissão internacional agora.
Eu digo às equipas que é o melhor sítio para testar um ciclista jovem. Não é o Avenir, é aqui. É um grande evento e é preciso passar isso. Há eventos com boa categoria e boa participação, mas sem o envolvimento mediático e social da Volta a Portugal.
A UAE já conhece isto, quando vim para Portugal, o Matxin [dirigente da UAE] era diretor de uma equipa amadora e já mandava ciclistas para Portugal. Ele conhece a dimensão da prova, a UCI não pode permitir deixar passar eventos como este, que são líderes no país.
Foi noticiado o desejo de subir a categoria, mas fala do ativo dos dias. É possível juntar as duas vontades?
Nas categorias, quando se sobe limita-se os dias. Nestas alturas, a penalização de ser tão longa já existe. Perder os dias, quando conservaram isso e todas as outras provas baixaram... até a Volta à Suíça. Não sobram corridas assim. Reduzir dias seria tornar a Volta a Portugal em mais uma prova.
Mexer no calendário podia ajudar um pouco só, mas vamos perder o público que temos aqui e que é brutal. Para mim, estes ativos pesam mais. Pode não ser o ponto de vista correto, mas é o meu. É mais importante do que ir em busca das participações. Até para os patrocinadores, seis dias não é o mesmo que 11. Há que conservar isto e mostrar que há aqui uma jóia com quase 100 anos e que não estão a olhar só pela participação.
Terão de ter uma reunião com a UCI para permitir subir categoria e manter 11 dias?
Isso é algo federativo, mas é preciso primeiro cimentar as bases, que se passe a imagem de um projeto sério, competitivo e com visibilidade internacional.
A partir daí, começarão a olhar para a Volta a Portugal para verem o que eu vi quando cheguei aqui. Vivi aqui coisas que não vejo na Volta a Espanha, vi coisas melhores lá também, mas aqui vi outras coisas: tenho gravado na memória, em 1999, quando passei pela primeira vez em Mondim de Basto, parecia o Alp d'Huez. O ciclismo precisa disto.