Drogas no rolo de carne e em cartas de crianças. Recluso geria rede a partir da prisão
- 13/08/2026 10:16
- Redação
O grupo suspeito de introduzir e distribuir droga nos estabelecimentos prisionais da Guarda, Coimbra, Viseu e Lamego era comandado a partir da cadeia da Guarda por um recluso que já cumpriu pena por tráfico de estupefacientes no Peru, revelou esta quinta-feira a Polícia Judiciária.
O coordenador do Departamento de Investigação Criminal da PJ da Guarda, Alexandre Branco, explicou em conferência de imprensa que o principal suspeito continuava a dirigir a atividade criminosa a partir do interior do estabelecimento prisional.
“O comando estava dentro do estabelecimento prisional da Guarda. O mandante é um recluso, que cumpriu pena por tráfico de estupefacientes no Peru, para onde mandava grande parte do dinheiro produto das vendas dentro das cadeias”, revelou o coordenador do Departamento de Investigação Criminal da PJ da Guarda, Alexandre Branco.
Ao todo foram detidos 17 homens e três mulheres, suspeitos dos crimes de tráfico de estupefacientes agravado, associação criminosa, branqueamento de capitais e posse de arma proibida.
A investigação começou depois de terem sido detetados estupefacientes dentro do Estabelecimento Prisional da Guarda. As diligências permitiram identificar diferentes métodos utilizados para introduzir droga nas cadeias.
Segundo a PJ, houve casos em que pólen de haxixe foi transportado no interior do corpo, cocaína foi escondida dentro de um rolo de carne e drogas sintéticas foram impregnadas em papel apresentado como supostas mensagens escritas por crianças.
A PJ alerta para os riscos associados a estas drogas, uma vez que, quando estão impregnadas em papel, os consumidores podem não saber a quantidade que estão a ingerir.
Segundo os investigadores, estas substâncias podem provocar surtos psicóticos repentinos.
A preocupação é também estendida ao correio enviado aos reclusos. A droga podia ser impregnada em cartas apresentadas como mensagens de familiares, incluindo cartas de mães, pais ou filhos.
A direção do Estabelecimento Prisional da Guarda revelou que já houve uma situação particularmente grave relacionada com este tipo de droga, em que um recluso teve de ser transportado de urgência para o hospital.
Os investigadores concluíram ainda que os suspeitos procuravam introduzir pequenas quantidades de droga, numa estratégia destinada a dificultar a sua deteção e a evitar que fossem associados a crimes de tráfico.
“Não temos muita droga apreendida, mas apreendemos muito dinheiro para esta dimensão”, sublinhou Alexandre Branco.
Foram apreendidos cerca de 81 mil euros em dinheiro, 80 doses de heroína, 120 doses de cocaína, sete papéis impregnados com estupefacientes, duas armas de fogo, 71 munições, quatro balanças de precisão, 31 telemóveis e três viaturas.
Os elementos que atuavam no exterior deslocavam-se a grandes centros populacionais para comprar a droga. Posteriormente, outros elementos transportavam os estupefacientes até às proximidades dos estabelecimentos prisionais.
A droga era depois introduzida nas cadeias através de visitas que, segundo a investigação, não fariam parte da organização criminosa.
“Algumas das quais suspeitamos que tenham atuado, mesmo sabendo do crime que estavam a cometer, com medo que acontecesse algum mal aos seus entes queridos reclusos”, explicou Alexandre Branco.
A PJ apurou também que o grupo disseminava droga nas comunidades onde os suspeitos residiam, nomeadamente nas cidades da Guarda e Viseu.
A investigação começou há cerca de um ano e meio, na sequência de uma participação da direção do Estabelecimento Prisional da Guarda, apresentada em abril de 2025.
O diretor da prisão, Luís Couto, explicou que foram identificadas evidências da entrada de droga através de visitantes.
“Era necessário saber como se processava e quem eram e pedimos, mais uma vez, a cooperação da PJ, que durante este ano e meio de investigação chegou a estes bons resultados”, afirmou.
Luís Couto garantiu que não há funcionários do estabelecimento prisional envolvidos na organização.
“Temos a certeza que não há ninguém que trabalhe no estabelecimento prisional que esteja nesta organização”, assegurou.
O responsável reconheceu, contudo, as dificuldades no controlo dos visitantes. O estabelecimento prisional da Guarda recebe entre 17 mil e 20 mil visitantes por ano e tem cerca de 287 reclusos e 105 profissionais.
A operação contou com 85 inspetores, 10 seguranças e três especialistas de Polícia Científica, além do apoio do Corpo de Guardas Prisionais, incluindo elementos do Grupo de Intervenção e Segurança Prisional e três equipas cinotécnicas.
Os 20 detidos estão a ser presentes ao Departamento de Investigação e Ação Penal da Guarda, onde corre o inquérito.