Pacheco Pereira critica "desertificação ideológica e política" da Festa do Pontal do PSD
- 13/08/2026 15:03
- Redação
Pacheco Pereira considera que muito mudou desde a primeira edição da Festa do Pontal há 50 anos, reflexo de uma "desertificação ideológica e política" do PSD. Para o historiador e antigo deputado social-democrata, assistimos a uma "crise política de fundo" – transversal a todos os partidos – a que a festa de rentrée do partido não é indiferente.
“Falar para os portugueses em agosto do Algarve é uma visão do país, nos dias de hoje, muito empobrecedora”, diz.
A Festa do Pontal assinala o início do ano político do PSD. Está marcada para esta sexta-feira com a presença do líder do partido e primeiro-ministro, Luis Montenegro.
Enquanto historiador e militante do PSD, como olha para a evolução da Festa de Pontal neste meio século? Começou como uma iniciativa com um cariz mais popular, hoje assume-se como uma marca política, uma rentrée política social-democrata.
A Festa de Pontal traduz a história do PSD. Ela começa, de facto, por ser uma festa popular que tem em conta a circunstância de muitos portugueses passarem férias no Algarve, mas, progressivamente, perdeu – não inteiramente – esse carácter popular e passou a ser entendida como o momento do início político do ano. E aí depende da política, não é? Quando a política é má, a festa é má, quando a política é boa, a festa é boa. E o problema é que há uma certa desertificação política e ideológica do PSD que depois se reflete na transformação da festa apenas num momento de propaganda.
E esse momento de propaganda, em muitos casos, traduz uma característica – que não é só do PSD, mas dos partidos de poder – abandonaram a reflexão política e, no fundo, as intervenções que tenham a ver com os problemas reais do país para se transformar, principalmente, quando se está no governo, num anúncio de medidas. E é evidente que esse anúncio de medidas poderia ser feito em qualquer sítio e é feito simbolicamente na Festa de Pontal, apenas porque ela tem uma tradição do passado, mas hoje é muito diferente daquilo que foi no passado.
É mais do que isso. Hoje os partidos políticos no poder – e insisto que não é só o PSD – produzem um marketing profissional, ou seja, vão buscar agências de comunicação e especialistas em marketing naquilo que podem dizer, aquilo que não podem dizer.
E isso, evidentemente, transforma os anúncios, neste caso, as medidas em instrumentos de propaganda que, como todos os instrumentos de propaganda, podem ou não podem ser eficazes.
A verdade é esta: neste momento em Portugal a governabilidade é frágil – e isso é uma reflexão que o PSD não faz e não quer fazer e tem torneado muitas vezes com os acordos com o Chega.
Um partido que não tenha uma maioria absoluta tem muita dificuldade em conseguir governar em função do seu programa, independentemente, da qualidade do programa e das medidas que apresenta.
A ascensão do Chega alterou significativamente a vida política portuguesa – as pessoas não fazem sequer uma reflexão sobre isso –, porque torna muito difícil no Parlamento a existência de um sistema de alianças sólido e que corresponda aos objetivos de um partido que se diz social-democrata.
Como isso não tem sido possível (com aquela tese: primeiro é não é não, depois o não é não acabou, e agora é: umas vezes é não, outras vezes é sim) e a verdade é que trazer o Chega para decisões que são de carácter governamental é um enorme risco, como se viu com o pacote laboral.
Eu não me esqueço que no dia anterior ao chumbo do pacote laboral, os responsáveis do PSD disseram que o acordo estava feito. Portanto alguma coisa se passou de um dia para o outro.
Mas, o facto de o PSD, neste momento, só ter conseguido avançar com propostas que correspondem à agenda política do Chega, é uma enorme mudança de carácter daquilo que era o aspeto fundacional do partido fundado por Sá Carneiro.
As pessoas falam de Sá Carneiro, têm lá o retrato nas sedes, mas não fazem a mínima ideia daquilo que ele disse e, acima de tudo, dos limites que ele colocou à ação do partido, à direita e à esquerda. E, desse ponto de vista, há essa desertificação política que, insisto, não é só do PSD e que transforma hoje a política, principalmente a partir do lugar de poder, numa sucessão de medidas correspondendo, muitas vezes, a pressões de interesse, mas sem nenhuma coerência de fundo.
Completamente, completamente. É natural. Na Festa do Pontal não podia acontecer aquilo que não acontece na vida política quotidiana do PSD. Não dá, não chega.
E, portanto, há uma crise política no fundo, há problemas maiores a nível internacional e nacional e os partidos políticos portugueses e o PSD, em particular, estão longe de poderem dar uma resposta a essa crise. Porque, por um lado, têm sempre esta fragilidade parlamentar e, por outro lado, porque não querem porque uma definição política clara limita a ação e um partido que está no governo quer ter uma política de oportunidades e, portanto, não quer limitar a sua ação.
Portanto, a Festa do Pontal também não deixa de ser o reflexo, como dizíamos há pouco, desta própria crise da política e da própria democracia portuguesa.
É porque o problema da crise da democracia, que existe de facto não só em Portugal e em muitos outros países, devia obrigar a uma ação política mais esclarecedora, mais dura em certos pontos de vista, porque a situação é muito complicada e isso não acontece. E, portanto, os partidos parecem que têm poder, mas definham o seu poder ou então usam o seu poder só para fazer asneiras.
Até que ponto a Festa do Pontal poderá ter influenciado outros partidos? Em 1995, o PS fez a sua rentrée, mesmo ali ao lado, na Pontinha, exatamente no mesmo dia. Há aqui uma espécie de barómetro no que toca a este tipo de iniciativas?
Há muito mimetismo. Agora, vamos lá ver, falar para os portugueses em agosto do Algarve é uma visão do país, nos dias de hoje, muito empobrecedora porque a maioria dos portugueses não tem dinheiro para passar férias no Algarve. A maioria dos portugueses não tem sequer dinheiro para passar férias.
O país é em muitos aspetos pobre e isso é que seria fundamentalmente o sentido de uma ação social-democrata.
A componente social-democrata do programa do PSD, desde o início, desde Sá Carneiro, era garantir àqueles que não têm as mesmas oportunidades, a possibilidade de subirem num elevador social e poderem passar para outros níveis de atuação – que são também outros níveis de liberdade – e uma parte dessa liberdade é passar férias de onde se quer.
Desde os anos 30, desde a conquista pela Frente Popular Francesa das semanas de férias dos operários, isso tinha um valor simbólico. O problema é que isso está tudo tão mercantilizado, tão lugar-comum, tão transformado no fundo em coisas que não transportam nenhum significado especial. É evidente que isso prejudica até o aspeto simbólico daquilo que foi no passado a Festa de Pontal.
Não. Faz sentido, só que o sentido também não é o melhor de todos. Mas, sentido faz.
Agora, que mensagem é que pode ter origem hoje num país em que muitos aspetos, as questões de uma luta social e de um crescimento social para um bom ressentimento, que mensagem é que vão ouvir vindo de uma festa no Algarve em agosto? Essa é que é a questão.
Quais foram os líderes que melhor souberam aproveitar ou perceber este palco político que é a festa de Pontal?
Acho que o Cavaco Silva fez um bom aproveitamento, porque a última vez em que o PSD conduziu uma política que tinha um componente social-democrático foi com Cavaco Silva. Eu sou crítico da sua presidência, mas acho que o primeiro-ministro ajudou muito a mudar o país.
E, embora depois houvesse outras tentativas, esbarraram sempre numa alteração qualitativa que se dá hoje nos grandes partidos. Eles deixam de falar para fora, falam principalmente para dentro.
Os militantes do partido acabam por ter uma ascensão política que os leva a chegar a lugares como deputados e outros, a partir do seu poder dentro do partido.
E essa implosão tem um efeito dramático na influência para fora - porque muitos deles não são reconhecidos como tendo um currículo significativo, muitos não têm atividade profissional, nem são reconhecidos como tendo prestígio profissional - e esta implosão torna os partidos muito fragilizados quando aparece um partido que como o Chega e que alimenta toda esta mecânica do ressentimento. E estas pessoas transformam-se em alvos preferenciais e alvos que resultam em termos de opinião pública.
Quando o PSD não defrontar esta situação do ponto de vista político, ideológico, que é igualmente relevante, e depois do ponto de vista governamental, o poder tende a fragilizar-se.
Qual foi o momento ou o discurso que marcou estas cinco décadas da festa do Pontal?
Isso é uma pergunta difícil (…). Eu acho que de facto, como lhe digo, durante aquele período em que o PSD governou o país com maioria absoluta e em que se fez uma significativa melhoria das condições de vida, a integração europeia.
Eu costumo dizer que a melhor maneira de perceber o que o país mudou é uma fotografia aérea, que mostra as terras do interior e em como elas praticamente duplicaram, como passaram a ter equipamentos fundamentais. E isso se resolveu no Pontal durante o período que Cavaco governou.
Não me recordo nenhum discurso em particular, mas acho que efetivamente foi o último grande período, o áureo, chamemos assim, do PSD. Não quero dizer que depois pessoas como Rui Rio, mesmo, até Durão Barroso, em algumas circunstâncias, não tivessem defrontado, mas o partido por dentro está bastante mal.