Um sinal exemplar de Eugénio Fonseca
- 14/08/2026 18:26
- Redação
A poucos dias do fim da vida terrena de Eugénio Fonseca, sucedem-se as muitos merecidas homenagens à sua vida de dedicação sem reservas à Igreja e à sociedade e em prol da solidariedade, da justiça e da paz. Fui testemunha de uma sua iniciativa que não hesito em qualificar como exemplar. Já a ela me referi em várias ocasiões e numa delas ele mesmo me confidenciou que lamentava o escasso eco que ela obteve. Sinto agora o dever de voltar a dar-lhe alguma da visibilidade que merece, precisamente porque é sinal exemplar de uma atitude que dever ser repetida e enaltecida.
Aquando da publicação da encíclica do Papa Francisco Fratelli tutti, “sobre a fraternidade e a amizade social”, Eugénio Fonseca pensou em entregar esta encíclica a todos os grupos parlamentares portugueses. Não quis, porém, que se tratasse de uma iniciativa pessoal. Juntou um grupo de católicos com empenhos sociais e cívicos que procurou fosse o mais possível representativo das diversas sensibilidades (segundo os habituais rótulos, mais ou menos “conservadores” ou “progressistas”) presentes na Igreja em Portugal.
Esse foi, em minha opinião, o primeiro sinal exemplar desta iniciativa: um sinal de unidade, com a consciência de que, entre católicos, é mais forte o que nos une em torno dos princípios da doutrina social da Igreja do que o que nos separa quanto à concretização política desses princípios. Pode parecer algo de muito evidente, mas a verdade é que essa consciência nem sempre se evidencia, quando se notam mais as separações que muitos comparam a “gavetas” ou “capelinhas” que se ignoram.
Ao grupo também se juntou um representante da comunidade islâmica, o que se coaduna com o facto de nessa encíclica se evocar a sua ligação à Declaração de Abu Dhabi, “sobre a fraternidade humana em prol da paz e da convivência comum”, subscrita por Francisco e por Ahmad Al-Tayyeb, uma das mais relevantes autoridades do Islão sunita.
A entrega solene da encíclica Fratelli tutti a todos os grupos parlamentares sem exceção é outro sinal exemplar: este o do diálogo da Igreja com toda a sociedade, crentes e não crentes. A sua mensagem quer ser um contributo para esse diálogo.
Um pouco como agora sucedeu com a encíclica de Leão XIV Magnifica Humanitas, a encíclica Fratelli tutti recebeu um acolhimento muito positivo para além do âmbito interno da Igreja, em quadrantes dos mais variados. Certamente nem todos os que teceram esses elogios se reveem em todas as afirmações de uma e outra dessas encíclicas e delas selecionam algumas com que mais se identificam. Nem foi, por outro lado, certamente propósito de Francisco ou Leão XIV agradar a todos ou simplesmente reproduzir o pensamento hoje dominante. Mas foi certamente o de lançar pontes.
O propósito do Papa Frnacisco, enunciado logo na introdução da encíclica Fratelli tutti, foi o de com esta lançar pontes entre fiéis de todas as religiões, crentes e não crentes: «Embora a tenha escrito a partir das minhas convicções cristãs, que me animam e nutrem, procurei fazê-lo de tal maneira que a reflexão se abra ao diálogo com todas as
pessoas de boa vontade» (n. 6). Num comentário a este resoeito, afirmou Giuseppe Savagnone, diretor da Pastoral da Cultura da diocese de Palermo, que a intenção fundamental de Francisco foi a de «fazer sair a Igreja e o seu anúncio do Evangelho do gueto em que a cultura do mundo moderno há muito os relegaram, e apontar para valores que essa mesma cultura acolheu e celebrou, para mostrar as suas raízes cristãs e denunciar a incoerência da sociedade atual em relação a eles (…); mostrar que a Igreja tem alguma coisa a dizer ao mundo contemporâneo, não em termos confessionais, mas para responder a um problema que está diante dos olhos de todos, crentes e não crentes, evidenciando que a fraternidade, central na mensagem cristã, é também um valor humano, e que um mundo que não a conhece – como o nosso – é desumano».
Foi destas posturas de busca de unidade dentro da Igreja, por um lado, e de diálogo da Igreja para com todos, por outro lado, que esta singela iniciativa de Eugénio Fonseca foi sinal exemplar e que, por isso, merece, entre muitas das suas iniciativas, ser agora recordada e enaltecida.