Se a agricultura parasse amanhã, quanto tempo demoraríamos a perceber?

Se a agricultura parasse amanhã, quanto tempo demoraríamos a perceber?

  • 17/08/2026 01:00
  • Redação

A agricultura e o setor agroalimentar continuam a sofrer de um problema de reconhecimento. A maioria das pessoas só se lembra deles quando os preços sobem, quando há uma seca ou quando surge uma crise de abastecimento. No resto do tempo, assumimos como garantido que os alimentos estarão disponíveis, seguros e acessíveis.

Mas a realidade é que o setor agroalimentar é muito mais do que um setor económico. É uma infraestrutura estratégica sem a qual nenhuma sociedade funciona.

Foi precisamente esta uma das mensagens mais fortes discutidas no 8.º Colóquio Hortofrutícola, organizado pela Lusomorango e pelo Centro de Estudos Aplicados da Católica-Lisbon SBE: a segurança alimentar não pode continuar a ser vista apenas como uma questão agrícola. É uma questão de soberania estratégica europeia.

Durante anos, a Europa falou de autonomia estratégica sobretudo quando se referia à energia, à defesa ou à tecnologia. Os acontecimentos recentes vieram mostrar que a alimentação deve fazer parte dessa mesma discussão. A pandemia, a guerra na Ucrânia, os conflitos no Médio Oriente e as sucessivas perturbações das cadeias de abastecimento demonstraram a vulnerabilidade das economias quando dependem excessivamente de terceiros para satisfazer necessidades essenciais.

A capacidade de produzir alimentos deixou de ser apenas uma atividade económica. É um instrumento de estabilidade social, de resiliência económica e de independência política.

A União Europeia continua a ser uma potência agroalimentar, liderando as exportações mundiais do setor. Ao mesmo tempo, enfrenta uma concorrência crescente de países que produzem com regras ambientais, sociais e fitossanitárias muito menos exigentes do que aquelas que são impostas aos produtores europeus. A questão relevante não é apenas económica. É estratégica. Se a Europa perder capacidade produtiva alimentar, ficará mais dependente de terceiros precisamente numa área onde a dependência pode ter consequências graves.

Mesmo em termos de sustentabilidade ambiental, não produzirmos na Europa os nossos alimentos é prejudicial – estaríamos a importar produtos com menos regras ambientais e sociais e ainda a ter os custos ambientais do transporte.

Um dos maiores riscos para o futuro (e até para o presente) do setor está na sua dificuldade em atrair talento.

Existe uma imagem profundamente desatualizada da agricultura. Muitas pessoas continuam a associá-la a uma atividade manual, pouco qualificada e tecnologicamente limitada. Nada poderia estar mais distante da realidade.

O agricultor moderno gere sistemas de rega inteligentes, utiliza sensores, drones, imagens de satélite, ferramentas de apoio à decisão baseadas em dados e, cada vez mais, soluções de inteligência artificial. As explorações agrícolas mais competitivas funcionam hoje como autênticas empresas tecnológicas ao ar livre.

Não porque não reconheçam o seu potencial económico, mas porque encontram dificuldades adicionais que vão muito para além da atividade profissional.

Quem pretende trabalhar em muitas regiões agrícolas enfrenta frequentemente problemas de acesso à habitação, escassez de transportes públicos, insuficiência de serviços de saúde e dificuldades de acesso a creches, escolas ou outras infraestruturas de apoio à família. Em muitas situações, o desafio não está na qualidade do emprego disponível. Está na qualidade de vida que os territórios conseguem proporcionar.

Não é possível discutir renovação geracional sem discutir condições de vida.

Também por isso, a valorização do setor exige uma visão mais integrada. Não basta apoiar o investimento agrícola. É necessário criar condições para que as pessoas que trabalham no setor possam construir projetos de vida sustentáveis fora dos grandes centros urbanos.

Ao longo dos anos, muitos agricultores habituaram-se a ver o Estado mais como um obstáculo do que como um parceiro. Licenciamentos demorados, processos complexos e confusos, entidades múltiplas e procedimentos administrativos morosos consomem recursos que poderiam ser canalizados para a inovação e para a produção.

A questão não é eliminar regras. É garantir que as regras sejam claras e que produzem resultados.

Um Estado moderno deve proteger o ambiente, garantir a segurança alimentar e fiscalizar o cumprimento das normas. Mas deve fazê-lo sem transformar cada investimento num percurso de obstáculos.

Por fim, existe o desafio que atravessa praticamente todas as discussões sobre o futuro da agricultura portuguesa: a água.

Num país cada vez mais exposto à variabilidade climática, a disponibilidade de água tornou-se um fator determinante para a competitividade do agronegócio. O valor da área regada é incomparável ao valor do sequeiro. A água é necessária para a agricultura e necessária para o ambiente.

Portugal continua a ter potencial produtivo por explorar, mas esse potencial depende em grande medida da capacidade de armazenar, gerir e distribuir água de forma eficiente.

É por isso que iniciativas estruturantes como o projeto Água que Une geram expectativa no setor. Mais do que um projeto hidráulico, representa a possibilidade de aumentar a previsibilidade, reduzir o risco e permitir que agricultores e investidores planeiem o futuro com confiança. Num setor onde os investimentos se medem frequentemente em décadas, a previsibilidade é tão importante quanto a própria água.

Reconhecimento de que é um setor estratégico para a economia nacional e europeia.

E reconhecimento de que a soberania alimentar pode vir a ser tão importante para a Europa quanto a soberania energética ou a autonomia industrial.

E talvez seja altura de começarmos a valorizar quem o faz, antes de descobrirmos, da pior forma, o que acontece quando essa capacidade deixa de existir.

  • Fonte: Rádio Renascença
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