Passe Ferroviário nos comboios urbanos? Ex-secretário de Estado antevê efeito “muito pequeno” e defende mais manutenção
- 15/08/2026 15:34
- Redação
“Isto aqui acaba por inverter a lógica que existiu com a criação dos passes metropolitanos, que é, dentro das áreas metropolitanas, todos os passes passam a ser intermodais", relata Frederico Francisco, apontando que “estamos a assistir novamente à criação de um passe monomodal, só para o comboio, dentro das áreas metropolitanas".
“O que acontece é pessoas que já utilizavam o comboio", continua o deputado do PS, "continuam a utilizar o comboio, mas agora com um preço mais vantajoso, com um título de transporte que lhes é mais vantajoso". A explicação é que, quando “o fator preço deixou de ser relevante na escolha, aparecem outros fatores que se tornam mais relevantes", como “se o transporte público é conveniente, se o tempo de viagem é atrativo para mim, se ele é fiável, se o comboio aparece, se o comboio não está constantemente a ser suprimido, se não está constantemente a atrasar-se".
É isso que leva Frederico Francisco, secretário de Estado no governo de António Costa que introduziu este Passe Ferroviário, a lamentar "nunca" ter existido "verdadeiramente uma discussão de fundo sobre qual é que é o objetivo desta medida".
“O que é que se pretende atingir com esta medida? Porque a verdade é que, do ponto de vista dos números que o Governo divulga, a medida tem sido um sucesso. Tem vendido cerca de 60 ou 70 mil passes todos os meses", reconhece. "Por outro lado, quando nós olhamos para os números do crescimento do número de passageiros, a verdade é que o crescimento está em linha com aquele que vinha dos anos anteriores".
Este Passe nasceu em 2023, após uma proposta do partido Livre para a criação do Passe Ferroviário Nacional, e começou por incluir apenas comboios regionais. Segundo Frederico Francisco, "havia uma previsão em 2024 de o alargar para alguns trajetos para os inter-regionais e para alguns trajetos de intercidades", mas o governo da AD decidiu então baixar o valor e incluir todos os comboios Intercidades.
É com base na situação atual, de comboios sobrelotados nas ligações a Lisboa e atrasos frequentes, que Frederico Francisco argumenta que o dinheiro público utilizado neste alargamento do Passe Ferroviário Verde deve ser utilizado de outra forma.
“Tanto na CP como na Fertagus já existem dificuldades em responder à procura e, por isso, o que eu argumentaria é, havendo de capacidade de investimento, ela deve ser dirigida primariamente para o aumento da oferta”, aponta. "Não é preciso estar à espera que cheguem os comboios novos, que nós sabemos que só vão ser entregues daqui a 4 ou 5 anos".
“Se eu conseguir investir mais em manutenção e aumentar a disponibilidade da frota atual, eu consigo, com os comboios atuais, oferecer mais lugares e oferecer mais viagens”, reduzindo assim o número de comboios parados.
“Seria muito mais eficaz e muito mais útil, neste momento, dirigir os recursos que existem para aumentar o esforço de manutenção, contratando trabalhadores, comprando peças, de modo a que aumente a disponibilidade dos comboios que existem", já que “quem circula pela rede começa a ver, novamente, cada vez mais comboios parados ao pé das oficinas à espera de manutenção".
A CP assinou em outubro de 2025 o contrato para a compra de 117 comboios para serviços urbanos e regionais ao consórcio Alstom/DST. Em março de 2026, um aditamento ao contrato ativou a opção de compra de mais 36 comboios. Os comboios começam a ser entregues a fevereiro de 2029, não sendo possível entrar em operação ao público imediatamente.
Ao falar dos números do Passe Ferroviário Verde, Frederico Francisco revela que a estatística das viagens será sempre uma estimativa, porque “a CP, na verdade, não tem uma forma fiável de saber quantas viagens é que estão a ser feitas com estes passes, em particular nos comboios regionais".
"Não há validadores em todas as estações, ou seja, os números de viagens efetuadas com este passe não são absolutamente fiáveis", aponta o ex-governante, recordando uma resposta do atual governo a uma questão de deputados do PS.
"O que acontece é que uma pessoa, quando vai comprar o Passe Ferroviário Verde, é lhe perguntado qual é que é o trajeto que a pessoa faz habitualmente", explica o deputado. "Vamos supor que eu digo que é o trajeto Santarém-Lisboa, no regional, e a partir daí o sistema assume que eu faço essa viagem 22 vezes por mês, independentemente do número de vezes que eu efetivamente viajo, e é esse número que conta para o número de passageiros transportados que depois é divulgado pela CP".
"É uma estimativa grosseiríssima", descreve Frederico Francisco, reconhecendo, no entanto, que "tem que haver um método qualquer".