Último adeus a Eugénio Fonseca: "Inquietava-o a desigualdade. Inquietava-o a pobreza"

  • 17/08/2026 12:08
  • Redação

Foi ao som de uma forte salva de palmas que o caixão de Eugénio Fonseca saiu da Sé de Setúbal, rumo ao Cemitério de Nossa Senhora da Piedade. A igreja matriz de Setúbal foi pequena para tanta gente que, esta segunda-feira, quis homenagear um homem ligado durante décadas à comunidade e ao apoio social aos mais vulneráveis.

A cerimónia do último adeus foi presidida pelo bispo de Setúbal, o cardeal D. Américo Aguiar, que lembrou um homem justo e que não ficou indiferente aos outros.

"Para Eugénio, o voluntariado não era apenas uma forma de organização da sociedade civil. Era cidadania. Era responsabilidade. Era fraternidade. O voluntário é alguém que aceita gastar gratuitamente um pouco da sua vida para que a vida de outro possa ser um pouco melhor. Eugénio acreditava nisso. E viveu assim", afirmou.

D. Américo lembrou ainda um episódio da infância de Eugénio Fonseca, quando tinha apenas "10 ou 12 anos" e que envolve o monsenhor José Lobato, demonstrando o espírito do ex-líder da Cáritas.

"O jovem padre Lobato dirigira-se ao Cemitério da Piedade para realizar um funeral. Estava prevista apenas uma celebração da Palavra. Porém, surgiu inesperadamente o pedido para que fosse celebrada a Eucaristia. O sacerdote não tinha consigo aquilo que era necessário para a celebração. Eugénio encontrava-se na capela e percebeu o que se passava. Desapareceu e, pouco depois, regressou com tudo aquilo de que o padre precisava para celebrar a Eucaristia", contou.

O bispo de Setúbal sublinhou também a "fome e sede de justiça" do antigo presidente da Cáritas: "Inquietava-o a desigualdade. Inquietava-o a pobreza. Inquietava-o a exclusão. Inquietava-o tudo aquilo que diminuía a dignidade de uma pessoa."

D. Américo lembrou-o como uma "voz inquieta" e, por vezes, uma "voz incómoda", defendendo que uma "Igreja que leva verdadeiramente a sério as bem-aventuranças precisa de homens e mulheres que não a deixem acomodar-se".

Natural de Setúbal, casado e pai de dois filhos, era atualmente presidente da Confederação Portuguesa de Voluntariado e da Fundação D. Manuel Martins, pertencente à Diocese de Setúbal.

"Segui os passos dele e vi o muito que ele deixou à Igreja em Portugal e à Cáritas, desde as paróquias até ao nacional e ao internacional. É um homem com muitas lições e foi sempre sabendo adaptar-se aos tempos diferentes. É talvez a coisa mais importante, porque a Igreja precisa de estar próxima e ser próxima", afirma Rita Valadas.

A líder da Cáritas revelou ainda que Eugénio Fonseca dinamizou e teve um papel importante na área editorial da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa e que a próxima publicação a ser divulgada diz respeito ao mandato de Eugénio Fonseca na Cáritas, entre 1999 e 2020, que será lançado até ao final do ano.

  • Fonte: Rádio Renascença
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