"Não conseguia pedalar dez quilómetros, não conseguia dormir". O relato da lesão de Rúben Guerreiro

"Não conseguia pedalar dez quilómetros, não conseguia dormir". O relato da lesão de Rúben Guerreiro

  • 20/08/2026 07:20
  • Redação

Um ano depois de colocar a carreira em suspenso devido a uma lesão crónica nas costas, o ciclista Rúben Guerreiro aponta ao regresso em 2027 para conquistar a Volta a Portugal.

Guerreiro saiu cedo para o estrangeiro e nunca correu a Grandíssima. Foi novo para a Axeon, equipa americana que lançou os melhores ciclistas portugueses da última década.

Correu pela Trek, EF Education-Easy Post e pela Movistar até ao ano passado. 2020 foi o melhor ano da carreira: conquistou uma etapa da Volta a Itália e venceu a camisola da montanha.

Esteve em todas as grandes voltas e em vários monumentos. Habituado aos grandes palcos, só imagina o regresso a Portugal para ser um dos melhores: "Com todo o respeito pelas equipas e pelos ciclistas portugueses, teria de ser um projeto para ganhar a Volta, mas o físico tem de deixar primeiro."

Há dois anos que Rúben Guerreiro, de 32 anos, trava uma luta contra o próprio corpo.

Em 2024, começaram a surgir os primeiros problemas: "Na altura, não podíamos parar. Comecei a ter uma dor muito aguda nas costas a preparar uma Volta a Itália e o pescoço ficou totalmente bloqueado."

"Tive de sair do estágio em altitude e a Movistar mandou-me para casa na altura. Houve uma falha de comunicação na recuperação, não fui acompanhado pelos especialistas e procurei ajuda na federação. Um dos três grandes clubes de Portugal também me ajudou, mas o problema nunca ficou resolvido", conta.

No ano passado, ainda na Movistar, os problemas voltavam a insistir: "Ainda consegui boa forma física, mas ao primeiro desgaste ou queda sentia o pescoço bloqueado, não rodava. Não conseguia dormir, ia para casa novamente. Nas últimas competições do ano passado, não conseguia sequer fazer dez quilómetros de ciclismo."

Um ano depois, a vida e o treino começa a recuperar a naturalidade: "Já consigo pedalar quase todos os dias, mas com muitas horas ainda fico com muitas dores na cervical."

"Estou a pedala quatro, cinco vezes por semana. Faço muita mobilidade, natação e ginásio para reforçar a musculatura e não apanhar os pontos de inflamação. Tem sido uma luta, mas espero fazer um inverno normal para, quem sabe, competir no próximo ano", promete.

Guerreiro tinha um contrato de três épocas com a Movistar, que terminou no ano passado. Não foi por falta de convites que o trepador decidiu parar.

"O corpo deu sinal parar parar. Falei com algumas equipas, mas em setembro disse a quem me representa para esquecerem isso. Não conseguia ser ciclista e não me ia comprometer com ninguém", aponta.

Com "muita pena", revela que teve de rejeitar um convite da NSN, do WorldTour. Também as equipas portuguesas bateram à porta.

"Tivemos uma reunião profunda com a NSN e estive perto de assinar por eles em julho [de 2025], mas não se avançou pelas questões físicas. Tive equipas ProContinentais, também as equipas portuguesas perguntaram, mas dei o sinal ao meu empresário que nem sequer conseguia treinar", revela.

O ciclismo moderno está cada vez mais virado para os ciclistas jovens, que conseguem competir ao mais alto nível cada vez mais jovens. Com 32 anos, não resta a ambição de regresso ao WorldTour.

"É quase impossível, até pela minha idade, porque as equipas estão a contratar miúdos muito jovens", explica

O português nunca fez a Volta, mas todos o conhecem no pelotão. Mas, afinal, o que faz na Grandíssima?

"Tudo menos ciclista [risos]. Aceitei o convite para fazer parte da caravana", aponta.

Rúben Guerreiro trocou os pedais pelo volante. Conduziu um dos carros com convidados e patrocinadores durante a etapa e partilhava a sua experiência: "São simpatizantes, mas não percebem tudo o que está a acontecer. Sou uma espécie de guia turístico e desfruto do convívio do ciclismo e da Volta."

O ciclista do Montijo só acompanhava a Volta pela televisão, apesar de ter pedido às suas equipas para participar. Estar na caravana permitiu ganhar mais noção sobre a realidade da competição.

"Estou a ver o quão grande é a Volta. Espero voltar, porque não quero acabar assim, estou com vontade de fazer uma Volta a Portugal, mas nunca se sabe", diz.

A incerteza sobre o futuro faz parte da realidade de Rúben Guerreiro. Desistir teria sido "o mais fácil."

"Nunca gostei de desistir, não quero acabar assim uma carreira que acho que foi bonita e de resiliência. Sempre dei a volta por cima e vou tentar dar novamente", conclui.

  • Fonte: Rádio Renascença
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