Leão XIV alerta para as feridas da guerra: “Danificam todo o tecido da vida”
- 20/08/2026 08:53
- Redação
O Papa Leão XIV apela à paz e a uma “conversão do coração” para travar a violência, a injustiça e a degradação ambiental.
Na mensagem para a XI Jornada Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação, que se celebra a 1 de setembro, o Papa defende que os recursos atualmente destinados à guerra sejam canalizados para combater a pobreza, proteger a dignidade humana e cuidar da criação.
“Hoje, testemunhamos muitas crises e muito sofrimento humano. Parece, ao mesmo tempo, que a perturbação do equilíbrio harmonioso da criação está a acelerar. Estes fenómenos não deixam de estar relacionados: constituem um único apelo à cura e à paz, proveniente dum mundo ferido”, escreve Leão XIV.
Na mensagem, divulgada esta quinta-feira pelo Vaticano, o Papa lembra que a guerra não destrói apenas vidas humanas, mas deixa consequências sociais e ambientais que podem prolongar-se durante gerações. Os conflitos, alerta, destroem ecossistemas, contaminam recursos essenciais como a água e o ar e comprometem a segurança alimentar, contribuindo para o aumento da pobreza e da desigualdade.
O Santo Padre, citando a Constituição Pastoral Gaudium et Spes, do Concílio Vaticano II, sublinha que “a guerra deixa feridas que vão muito além do campo de batalha”, uma vez que “ceifa vidas, separa famílias e obriga milhões de pessoas a fugir para longe dos seus lares, aumentando assim o medo, a injustiça e a divisão”.
Mas as consequências dos conflitos não se ficam pelas vidas humanas. A guerra deixa também um rasto de destruição social e ecológica que pode prolongar-se por gerações. Na mensagem, Leão XIV alerta ainda para a ligação entre os conflitos armados e a degradação ambiental, que pode gerar um ciclo vicioso de destruição dos ecossistemas, contaminação de recursos essenciais, como o ar e a água, e comprometimento da segurança alimentar.
Este cenário, acrescenta o Papa, agrava a pobreza e a desigualdade e alimenta novas tensões sociais, que podem, por sua vez, contribuir para o surgimento de novos conflitos.
O Papa Leão XIV acrescenta que “a guerra cria feridas que danificam todo o tecido da vida”, afetando não apenas pessoas e comunidades, mas também as relações com a restante família humana e com a própria criação, revelando “uma incapacidade ainda maior de viver à imagem e semelhança de Deus, de respeitar a vida e de cuidar da terra que nos foi confiada”.
Para Leão XIV, esta realidade revela não apenas um fracasso político, mas também “moral e espiritual”. A guerra, escreve, nasce de “desejos distorcidos” e do uso indevido da liberdade e do poder humanos, constituindo um “contratestemunho do Evangelho da paz”.
O Papa defende que a resposta às crises atuais exige mais do que mudanças políticas ou estruturais. É necessária uma “conversão pessoal e coletiva”, com um regresso a Deus capaz de transformar comportamentos, curar feridas e promover uma relação diferente com os outros e com a criação.
“A paz, então, começa no coração e flui para as nossas relações, comunidades e para o mundo inteiro”, escreve Leão XIV.
O Papa recupera ainda uma frase de Bento XVI, que em 2005 alertava que “os desertos exteriores multiplicam-se no mundo, porque os desertos interiores tornaram-se tão amplos”. Para Leão XIV, aquilo que está destruído à nossa volta também pode refletir uma crise interior do ser humano.
Na mensagem, o Papa imagina um mundo em que os recursos atualmente utilizados nos conflitos sejam direcionados para o desenvolvimento humano integral, a superação da pobreza, a proteção da dignidade humana e a reconciliação entre povos divididos.
Para construir a paz, Leão XIV aponta como verdadeiras ferramentas “a verdade, o diálogo, a paciência, a bondade, a justiça, a misericórdia, a compreensão, o cuidado e o amor”.
O Papa deixa, por isso, um apelo à renovação dos corações e à responsabilidade de cada pessoa no cuidado da criação.
“O caminho que temos pela frente é claro, embora não seja fácil. Somos chamados a deixar que os nossos corações sejam renovados, para que possamos procurar a paz e cuidar da criação”, aponta.
A mensagem termina com a esperança de que, no tempo atual, “as espadas sejam verdadeiramente transformadas em relhas de arados” e que a paz de Cristo reine sobre toda a criação.
A XI Jornada Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação será celebrada a 1 de setembro de 2026. A mensagem de Leão XIV foi assinada no Vaticano a 15 de agosto, na Solenidade da Assunção da Bem-aventurada Virgem Maria.