“Confunde atividade com desempenho”. Associação de técnicos de emergência critica relatório do INEM

“Confunde atividade com desempenho”. Associação de técnicos de emergência critica relatório do INEM

  • 20/08/2026 11:05
  • Redação

Numa publicação divulgada nas redes sociais, a associação sustenta que o relatório “confunde atividade com desempenho e disponibilidade com qualidade”.

O documento contabiliza 1.656.891 chamadas e 1.443.277 acionamentos, números que, para a ANTEM, traduzem a dimensão da atividade do Instituto, mas não permitem, por si só, perceber a qualidade da resposta prestada.

A associação chama ainda a atenção para o défice de 338 Técnicos de Emergência Pré-Hospitalar (TEPH) face ao mapa previsto e para as 364.939 horas extraordinárias realizadas em 2025.

Para a ANTEM, estes números revelam uma pressão estrutural sobre os profissionais e levantam questões sobre fadiga, absentismo e segurança operacional que, considera, não são suficientemente avaliadas no relatório.

Um dos indicadores destacados pela associação é a operacionalidade das Ambulâncias de Emergência Médica (AEM), que se fixou nos 61,18%.

A ANTEM questiona o que aconteceu aos doentes durante os períodos em que estes meios estiveram indisponíveis e considera insuficiente a justificação de que a indisponibilidade ocorreu sobretudo em períodos de menor procura.

A associação quer saber quantas ocorrências foram afetadas, qual era a prioridade clínica, que meios alternativos foram mobilizados e quanto tempo adicional de espera foi introduzido para os doentes.

Também as VMER e os helicópteros são alvo de análise. Segundo os dados citados pela associação, a operacionalidade das VMER foi de 97,38% e a dos helicópteros de 93,89%.

No entender da ANTEM, uma percentagem de disponibilidade, isoladamente, não permite avaliar o impacto clínico da indisponibilidade de um meio.

“Uma VMER pode estar indisponível numa hora sem consequências relevantes ou precisamente no momento em que um paciente necessita de suporte avançado de vida”, exemplifica a associação.

A ANTEM critica também a forma como são apresentados os tempos de resposta, defendendo que o tempo de espera do doente começa no momento em que pede ajuda e não apenas quando uma ambulância é acionada.

A associação considera que o percurso inclui várias etapas — atendimento, localização, triagem, decisão, despacho e mobilização — e que medir apenas o intervalo entre o acionamento e a chegada do meio representa apenas uma parte do tempo total de acesso aos cuidados.

A associação considera insuficiente a comparação entre a prioridade atribuída pelo CODU e a classificação posterior realizada no hospital, uma vez que as avaliações são feitas em contextos diferentes e com informação clínica distinta.

A ANTEM questiona, por isso, quantos doentes graves foram subtriados, qual a sensibilidade da triagem e qual a dimensão do over-triage e do under-triage por síndrome clínica.

Outro dos pontos criticados é a utilização do número de reclamações como indicador da qualidade do serviço.

Para a associação, “reclamações não são mortalidade. Não são sobrevivência. Não são outcome neurológico. Não são segurança clínica. Não são eventos adversos”.

A ANTEM considera que uma baixa percentagem de reclamações não pode, por si só, ser utilizada como prova de excelência ou robustez clínica.

“Uma pessoa pode morrer sem apresentar uma reclamação. Um erro pode ocorrer sem que ninguém reclame. Um near miss pode nunca chegar ao conhecimento do cidadão”, argumenta.

A principal crítica da ANTEM prende-se, contudo, com aquilo que considera ser a ausência de indicadores robustos sobre os resultados obtidos pelos doentes.

A associação questiona onde estão os dados nacionais sobre sobrevivência após uma paragem cardiorrespiratória, sobrevivência neurologicamente favorável, trauma grave, AVC, mortalidade associada a patologias tempo-dependentes e eventos adversos, bem como os resultados ajustados à gravidade dos casos.

“Estrutura não é outcome. Processo não é outcome. Atividade não é outcome”, defende a associação.

Na perspetiva da ANTEM, uma ambulância disponível, uma chamada atendida, uma missão concluída ou uma chegada dentro de determinado tempo são meios para alcançar um resultado clínico, mas não constituem, por si só, esse resultado.

A associação defende, por isso, que Portugal deve passar a utilizar indicadores independentes, auditáveis, comparáveis internacionalmente e centrados no paciente, capazes de avaliar não apenas aquilo que o sistema faz, mas sobretudo os resultados que consegue alcançar.

A pergunta, conclui a ANTEM, não deve ser apenas “quantas chamadas atenderam?”, mas antes: “Quantos pacientes receberam o recurso certo, no momento certo, com a intervenção certa e qual foi o resultado?”

Para a associação, é essa informação que permitiria perceber a verdadeira dimensão da capacidade do Sistema Integrado de Emergência Médica.

“O problema não é o INEM ter poucos números. O problema é ter muitos números que não respondem às perguntas mais importantes”, conclui a ANTEM.

  • Fonte: Rádio Renascença
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