Quase 250 mulheres acusam ex-funcionário público de as drogar em entrevistas: "Senti-me como uma criança"

Quase 250 mulheres acusam ex-funcionário público de as drogar em entrevistas: "Senti-me como uma criança"

  • 20/08/2026 20:45
  • Redação

No fim de novembro de 2025, Nègre, agora na casa dos 60 anos, foi acusado de drogar quase 250 mulheres durante entrevistas de emprego, entre 2009 e 2018, para as forçar a urinar durante as entrevistas de emprego.

O ex-alto funcionário público ainda está a ser investigado pelo esquema que durou perto uma década por "administração de substância nociva", "violência por parte de uma pessoa responsável por uma missão de serviço público" e "invasão de privacidade".

Por suposta simpatia, Nègre oferecia cafés durante as entrevistas e centenas de mulheres aceitavam, por educação, sem saberem que as bebidas estariam adulteradas com diuréticos. Estes medicamentos ajudam a reduzir a retenção de líquidos e o volume de sangue, podendo provocar tonturas ou desidratação quando tomados em excesso.

"Sabia mal... por isso, bebi cerca de metade", lê-se num dos testemunhos divulgados na reportagem da BBC. A partir daí, o antigo funcionário já tinha o jogo montado: minutos depois de arrancar as primeiras perguntas, sugeria uma caminhada no exterior.

Anaïs, com 27 anos à data dos factos, sentiu uma vontade repentina de urinar, fraqueza nas pernas e sugeriu voltar ao escritório com a desculpa de ter frio, mas Negrè ignorou o pedido.

Já perto do rio, a mulher confessou que precisava urgentemente de ir a uma casa de banho, ao que o ex-funcionário lhe respondeu com um ar de "satisfação": "Olhou-me diretamente nos olhos e disse: 'Ah, precisa de fazer xixi?'. Senti-me como uma criança."

Perto da margem do rio Sena, Nègres sugeriu que Anaïs entrasse nuns arrumos debaixo de uma ponte: "Pode fazer aqui." Assustada e "a entrar em pânico" com medo de ser violada, a mulher negou a sugestão e caminhou até ao museu do Louvre.

Por azar, não tinha consigo uma moeda de um euro para utilizar as casas de banho e o ex-funcionário disse-lhe que também não tinha trocados. Com dores abdominais e "fisicamente muito fraca", acabou por perder o controlo e urinou-se perto de uma casa de banho de um café.

"Pelo menos ele não me viu. Ainda bem que só tinha vestido um vestido", recordou, explicando que se tornou mais fácil disfarçar o que aconteceu.

Tal como Anaïs, Marie-Hélène foi sugerida a dar um passeio para "acalmar os nervos" e Nègre orientou-a para uma zona sem casas de banho por perto. "Estava realmente a começar a sofrer. As dores eram tais que estava branca, pálida, com as lágrimas a escorrerem-me pelo rosto", relembrou.

Sem outra opção, Marie-Hélène urinou em público e o antigo funcionário sugeriu tapar-lhe com o casaco "sem tirar os olhos" de si. "Fiquei terrivelmente envergonhada", contou, acrescentando que agora vive com problemas urinários desde o episódio em 2016.

Apesar de não ter conseguido o trabalho em 2011, Anaïs nunca deixou de pensar na situação "demasiado estranha" e perdeu a confiança na sua carreira profissional.

A mulher recebeu uma carta da polícia, em 2019, a sugerir que seria uma das centenas de mulheres drogadas por Nègre.

Em junho de 2018, o ex-alto funcionário francês foi apanhado por um colega a fotografar uma mulher por baixo de uma mesa, que o denunciou às autoridades francesas. Durante a investigação, a polícia descobriu, no computador, uma folha de cálculo intitulada "Experiments P".

A hora de chegada à entrevista, a hora que tomavam o café, quanto tempo aguentavam sem urinar e a roupa interior que estavam a usar eram os pontos principais do documento. Também foram encontradas fotografias de pernas de algumas mulheres enquanto urinavam, sem controlo.

Despedido pelo Ministério da Cultura francês em 2019, Christian Nègre está a aguardar o julgamento em liberdade depois de ter confessado aos investigadores que tinha "imposto situações humilhantes a mulheres" no processo de recrutamento.

Marie-Hélène acredita que o número de mulheres vítimas do ex-funcionário seja superior, já que viveu "muitos anos sem saber que era uma vítima".

"Não sentimos necessariamente que somos levadas completamente a sério", lamentou. "É claramente um abuso sexual."

  • Fonte: Rádio Renascença
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