Leão XIV alerta para os riscos da inteligência artificial e pede leis que protejam a dignidade humana
- 21/08/2026 06:29
- Redação
O Papa Leão XIV alertou esta sexta-feira para os riscos associados ao desenvolvimento da inteligência artificial e, evocando a encíclica Magnifica Humanitas, defendeu que a tecnologia deve estar ao serviço da pessoa humana e do bem comum.
O alerta foi deixado durante uma audiência, na sala Clementina, concedida aos participantes no XVII Encontro Anual da International Catholic Legislators Network, dedicado ao tema “Dignidade humana e inteligência artificial: desafios, oportunidades e controlo”.
Para Leão XIV, o rápido avanço da inteligência artificial coloca à humanidade uma questão que vai além daquilo que é tecnicamente possível fazer: “Não apenas o que podemos fazer, mas o que devemos fazer.”
O Papa considera que o mundo está perante uma escolha decisiva: construir uma sociedade em que o poder, a eficiência e o controlo se sobreponham à pessoa humana ou uma civilização em que a tecnologia esteja ao serviço do desenvolvimento integral de cada pessoa.
O Papa destacou os princípios da doutrina social da Igreja — a dignidade inviolável de cada pessoa, o bem comum, a destinação universal dos bens, a subsidiariedade e a solidariedade — como critérios fundamentais para o discernimento.
Aos legisladores, o Papa pediu que não se procure travar a inovação, mas que esta seja orientada “com sabedoria” em benefício do bem comum.
“Uma boa legislação deve incentivar a criatividade científica e tecnológica, salvaguardando, ao mesmo tempo, os direitos humanos e as liberdades. Deve proteger os utilizadores da exploração, proteger a privacidade pessoal, garantir a transparência na utilização das tecnologias emergentes e assegurar que estas reforcem as instituições democráticas”, afirmou.
Leão XIV defende ainda a existência de “quadros jurídicos robustos, supervisão independente, utilizadores informados e um sistema político que não abdique da sua responsabilidade”.
Essa supervisão, acrescenta, deverá funcionar a nível local, nacional e internacional, permitindo estabelecer critérios comuns de justiça social e evitando que uma única ideologia ou interesse determine os valores incorporados nos sistemas de inteligência artificial.
O desenvolvimento acelerado da inteligência artificial pode também, segundo Leão XIV, criar novas formas de dependência tecnológica, sobretudo nos países mais pobres, cada vez mais dependentes das nações economicamente mais desenvolvidas.
O Papa alerta para o risco de a inovação tecnológica se transformar num instrumento de “colonialismo ideológico ou económico”.
Entre os perigos identificados estão ainda os algoritmos que determinam quem é visto e quem permanece invisível, as plataformas digitais que influenciam o debate público sem responsabilização e a subordinação da dignidade dos trabalhadores à otimização dos sistemas.
Na intervenção, Leão XIV dedicou também particular atenção à família, que considera a primeira escola de humanidade.
É na família, afirmou, que se aprende a confiança antes do cálculo, a generosidade antes da competição, o diálogo antes da divisão e o amor antes do poder.
Por isso, defendeu que a inteligência artificial nunca deve ser autorizada a corroer este núcleo fundamental da sociedade, seja através da redução das pessoas e das relações a dados e simulações, da exposição dos jovens a conteúdos que distorçam os seus desejos ou de modelos económicos que tornem a vida familiar mais precária.
“O mundo não precisa de uma inteligência artificial que diminua a humanidade; precisa, antes, de uma inteligência humana iluminada pela sabedoria, de uma autoridade política guiada pela consciência e de uma inovação tecnológica orientada pela caridade. Só então a inteligência artificial se tornará não uma rival da humanidade, mas uma serva do bem comum”, apontou.
O Papa apelou, por isso, aos legisladores para que promovam políticas que reforcem o casamento e as famílias, apoiem os pais na sua missão educativa e permitam aos jovens olhar para o futuro com confiança.
No final da intervenção, Leão XIV defendeu que o mundo não precisa de uma inteligência artificial que diminua a humanidade, mas de “uma inteligência humana iluminada pela sabedoria”, de uma autoridade política orientada pela consciência e de uma inovação tecnológica dirigida pela caridade.
Só assim, concluiu, a inteligência artificial poderá deixar de ser uma rival da humanidade para se tornar uma serva do bem comum.