Alguma coisa boa aconteceu a José Poeira, que agora trocou o ciclismo pela agricultura

  • 21/08/2026 06:00
  • Redação

José Poeira foi o selecionador nacional de ciclismo de estrada durante 25 anos e é uma das figuras mais carismáticas e marcantes da era moderna da modalidade. Reformou-se há menos de um ano e agora tem tempo para se dedicar à família e à horta.

A entrevista com Poeira decorre antes da partida da primeira etapa da Volta a Portugal, na Lourinhã. O ex-selecionador vive perto e decidiu ir visitar antigos conhecidos. De dois em dois minutos, a entrevista é interrompida com algum adepto ou dirigente que faz questão de saudar o antigo treinador.

"Acho que fui respeitado por toda a gente, atletas dirigentes. É aquilo que fica e que é agradável", atira.

Os 25 anos de Poeira como selecionador ficam marcados, principalmente, pelo título mundial de Rui Costa, em 2013, e a prata olímpica de Sérgio Paulinho, numa altura em que tudo parecia correr mal.

"Do pouco fizemos muito, foi aí que nasceu a frase "alguma coisa boa há de acontecer". Estava tudo a correr mal e disse isso. Fomos para aprova e fomos vicecampeões olímpicos. Ficou a frase para a história", conclui.

A frase é hoje título da sua biografia, que compila a história de José Poeira, que orientou todos os ciclistas que deram cartas lá fora nos últimos 25 anos.

Mentalizei-me que tinha de ser assim, tudo tem um período. O tempo foi longo, há um momento para sair e achei que seria esse momento. Há outras ideias e que fazem andar o ciclismo para a frente.

Tenho a minha família, da qual abdiquei. Quase não vi os meus filhos a crescer, agora tenho uma neta, nunca acompanhei a família de perto e tenho outras coisas que me apaixonam, como os terrenos que tenho. Antes não podia, agora tenho tempo.

Sim, é um hobby. Ocupo assim o tempo, distrai-me bastante. Não sinto aquela falta. Gosto de vir aqui, estou com atenção ao que se passa, mas não estou a sofrer muito e a passar bem o meu tempo.

Moro na região Oeste, na Malveira. Tenho hortas, tenho um pouco de tudo. Tenho um pomar também com maçãs e pêras. Apanhei pêra francesa agora. Não vendo nada, dou tudo. Perguntam-me porquê que não vendo, mas não é o meu feitio. Dar, sim. É o que me faz sentir melhor.

Sim. Formei muitos corredores, vieram trabalhar comigo miúdos, adolescentes, tornaram-se profissionais e já acabaram há algum tempo. Foram muitos. Os resultados falam por si, em termos de medalhas, Jogos Olímpicos e Mundiais.

Consegui calcular alguns que, em sub-23 eram dos melhores nos Mundiais e que chegando aos séniores, iriam demorar um período de tempo até lá chegarem. Com 26 ou 27 anos iriam discutir novamente e isso aconteceu.

Tivemos uma coisa boa, que os outros países não tiveram: conseguimos discutir os Campeonatos do Mundo de contrarrelógio e da estrada. Era uma emoção total, somos um país com poucos meios, mas os corredores tinham o máximo empenho quando vestiam a camisola. Portugal viveu anos muito bons, de grandes emoções.

Cada momento é um momento e foram muitos. Houve mais momentos especiais, mas esse foi um que fica para a história. A medalha do Sérgio Paulinho também [prata nos Jogos Olímpicos de 2004] foi um grande momento.

Do pouco fizemos muito, foi aí que nasceu a frase "alguma coisa boa há de acontecer". Estava tudo a correr mal e disse isso. Fomos para aprova e fomos vicecampeões olímpicos. Ficou a frase para a história.

A prova do Rui Costa em Florença foi numa partida em Lucca, com 100km iniciais planos e com chuva torrencial. Depois era um circuito de dez voltas em Florença com uma subida de três quilómetros e outra de 700 metros muito dura.

Eram equipas de nove, nós tínhamos apenas três, que eram o Tiago Machado e o André Cardoso. Ele ficou sozinho desde início e soube ler a corrida. Seis meses antes fui ver o percurso e qando voltei disse na federação que a prova ia ser assim e assim.

Disse-lhe os cinco que iam passar e, se ele passasse, poderia ser campeão do mundo. Na minha ideia achava que ia ser mesmo, mas não disse nada porque não há vitórias antecipadas. Aconteceu tal e qual. Só passaram aqueles e ele geriu bem. Falei com o pai dele na altura da Volta a Portugal o que ia acontecer e bateu certo, foi um cálculo perfeito.

Ele também acreditou que podia ser campeão do mundo, geriu a emoção da parte final, a forma como lidou com os adversários. É tudo ele. É muito perspicaz, há alguns corredores que naquela situação não conseguem e ele tinha essa capacidade. Foram grandes momentos.

Tivemos mais. O Nélson Oliveira foi vicecampeão do mundo de contrarrelógio e foi o trampolim da carreira dele. Ninguém acreditava muito nele, mas não vou dizer porquê. Arranjei-lhe uma bicicleta capaz. Ele no Tour fez quinto no contrarrelógio, mandei vir uma bicicleta dos Estados Unidos e essa bicicleta deu-lhe o estímulo emocional. E ficou muito perto, podia ser sido campeão. Foram grandes momentos e estou feliz pelo que consegui fazer. De meninos fiz homens, de homens fiz campeões. Há um momento para deixar e seguir outro caminho. A minha história está feita, vão seguir em frente com outras pessoas e vão fazer bem na mesma e ter outros sucessos. Temos corredores a despontar como o Eulálio e outros miúdos que vão dar alegrias. Somos periféricos, o nosso ciclismo é feito aqui e a seleção põe-nos a correr nos maiores palcos do mundo.

Sim, é uma grande atitude. A prova estava direcionada para equipas de formação, que têm um grande talento. Acho que isto é o desenvolvimento do ciclismo, não é um pelotão envelhecido. Virem equipas com ciclista com nível, vai dar mais credibilidade interncional, que estava a cair. Temos o Rui Oliveira, que é um corredor de nome. Foi bem visto para que, no futuro, mais equipas desse nível virem cá. Claro que não virão os melhores do mundo, mas outros com talento que no futuro possam estar numa discussão de uma grande volta.

Foram muitos anos, acho que fui respeitado por toda a gente, atletas dirigentes. É aquilo que fica e que é agradável.

  • Fonte: Rádio Renascença
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