"Quantas Cervejas posso beber até pecar?" Um livro de crónicas para ajudar a pensar a fé

  • 22/08/2026 03:00
  • Redação

Colaborador dos colégios Fomento e da paróquia de Ramalde, no Porto, mantém uma atividade evangelizadora regular através do LinkedIn, a rede social dedicada ao mundo do trabalho, onde acabou por receber o primeiro convite para celebrar um casamento.

O livro – cujas receitas revertem para a Cáritas de Coimbra e para as vítimas das cheias do último inverno no Mondego – é lançado este sábado, às 14h00, na Feira do Livro do Porto. Será também apresentado em Lisboa, dia 2 de setembro, às 18h30, no El Corte Inglès.

Já está nas bancas o livro "Quantas Cervejas Posso Beber Até Pecar?". Como é que nasceu a ideia deste título?

Este título vem de uma pergunta que me fizeram uma vez, na festa de São João, aqui no Porto. Eu estava a beber uma cerveja com um amigo e tinha ao lado umas pessoas que estavam também a beber, a festejar o São João, e houve um rapaz que me perguntou isto precisamente: 'senhor padre, quantas cervejas posso beber até pecar?'.

Foi dessa pergunta que nasceu este livro, que no fundo descreve um conjunto de circunstâncias normais da nossa vida, sobretudo da minha vida de sacerdote, onde me vejo confrontado com muitas outras perguntas das pessoas sobre cerveja, sobre futebol, sobre a televisão, a família, a felicidade, o sofrimento, o trabalho, circunstâncias pelas quais nós passamos e Deus também passa.

Passa pelas nossas celebrações, pelas nossas alegrias, pela cerveja, e também pela pergunta daquele rapaz que, no fundo, era uma pergunta sobre os limites. Até onde é que posso ir sem pecar, mas, mais do que isso, como é que posso viver uma vida maior, como é que eu posso viver bem. É uma espécie de mudança de perspetiva.

É uma interrogação a abrir um livro que dá resposta a muitas outras interrogações?

É, porque o livro é uma coletânea de artigos que escrevo na imprensa. Este [com este título] foi um dos primeiros artigos que escrevi, e foi o que a editora escolheu para o livro por ser mais provocativo. Mas, no fundo, são um conjunto de interrogações que me fazem a mim, sacerdote, quando vou na rua, não porque sou melhor do que os outros, mas porque as pessoas me identificam e me fazem perguntas sobre tudo: sobre o Instagram, sobre a Missa, sobre 'porquê o mal?', sobre Nossa Senhora.

Perguntas que também me ajudam a refletir, a rezar e a pensar que Deus tem tudo a ver com essas interrogações e com esses contextos em que me perguntam isso – na rua, no metro, no autocarro –, e que também me ajudaram a pensar que respostas humanas é que posso dar a essas pessoas, para perceber que Deus tem tudo a ver com essas perguntas, e também tem tudo a ver com essas respostas.

Tem tudo a ver com a vida normal das pessoas. Ainda encontra muitos preconceitos em relação à fé, muitas ideias preconcebidas, por exemplo, do que é pecado e do que não é pecado?

Sim. Eu acho que há assuntos de que só podemos falar com alguma humildade. Há pessoas que se calhar não têm conhecimento, porque não têm o background da fé, não tiveram catequese, por isso às vezes precisamos de uma certa humildade para crescermos. G. K. Chesterton dizia que os anjos voam porque se sabem leves, não é? Há uma certa leveza que também precisamos de ter, que nos faz fazer as perguntas das crianças. E é um pouco isso que também procuro.

Sinceramente, sou muito otimista em relação à sociedade que temos hoje em dia, e acho que muitos dos encontros furtuitos que tive no meio do mundo, são encontros que denotam uma interrogação séria, honesta das pessoa. No fundo são as pessoas a quererem mais, não se contentam com uma vida banal, não querem uma vida só a duas dimensões, mas uma vida a três dimensões.

Ah, eu acho que sim! É estranho um padre não poder falar de cerveja, quando Jesus começou a sua vida pública também num banquete, onde também faltou o vinho, e transformou a água em vinho. E também terminou a sua vida nesta terra falando-nos da Eucaristia e da refeição. Portanto, talvez a pergunta não seja por que razão um padre não pode falar de cerveja, mas por que razão achamos que Deus só pode ser encontrado em assuntos mais sérios. É na normalidade que podemos e devemos encontrar a Deus.

Sim, tem cinco crónicas inéditas. Agradeço muito à editora o facto de me ter contactado para reunir estas crónicas. E fico também muito contente porque, na altura, vou ser honesto, não me apetecia escrever o livro. Foi em janeiro, fevereiro, quando houve aquelas tempestades e cheias que afetaram o Baixo Mondego, e então a editora, muito gentilmente, sugeriu que dedicássemos as receitas dos Direitos de Autor para apoiar a Cáritas de Coimbra e as vítimas das tempestades e eu achei que esta seria uma pequena gota de água para as poder ajudar. Foi uma espécie de desbloqueador para poder reunir estas crónicas e escrever outras que são, de facto, originais e que estão neste livro.

O padre Jorge está no LinkedIn, penso que é a única rede social que tem, e onde mantém uma presença evangelizadora.

Sim. Antes de ser padre, quer dizer, ainda sou engenheiro também e trabalhei em vários setores da construção e também da banca, e já tinha o LinkedIn, como qualquer pessoa do mundo profissional. Na altura deparei-me com este dilema: será que vou deixar de ter o LinkedIn porque sou padre? E houve uma pessoa que me disse 'olha, tu talvez possas ser o padre no LinkedIn'. Achei que seria interessante, porque não tenho outra rede social, não tenho Instagram nem Facebook – aliás, uma das crónicas que tenho é precisamente sobre isto, porque às vezes há uma grande pressão para que os sacerdotes que querem ter impacto no mundo tenham Instagram. Houve uma pessoa que uma vez me disse: 'queria segui-lo no Instagram', mas eu não tenho! E o problema não é o Instagram, o problema sou eu, se tivesse não faria mais nada do que estar todo dia a olhar para o Instagram, e tenho de me dedicar aos outros e a Deus.

Sem querer dizer que umas redes são boas e outras más, acho que o LinkedIn é, assim, um equilíbrio bom, para manter o contacto entre as pessoas e poder ter esse efeito evangelizador que procuro, não para falar de mim, mas falar de Deus, publicar as minhas crónicas, responder a imensas solicitações.

O primeiro casamento que eu celebrei foi de umas pessoas que me contactaram por LinkedIn, que eu não conhecia de lado nenhum. E há muitas pessoas que se querem batizar, pessoas que se querem aproximar da fé. Tenho, de facto, muitas histórias engraçadas, porque Deus se serve também do meu LinkedIn para chegar às pessoas, e isso é maravilhoso também para mim.

Eu não planeio, não programo nada. Deus é mesmo surpreendente, e as coisas que me acontecem como sacerdote no meio da rua são coisas surpreendentes. Ou seja, Deus é muito melhor do que nós podemos imaginar, e as pessoas também têm uma sede de Deus que não podemos imaginar. É isso que também constato no LinkedIn, porque sendo uma rede profissional, que seria só um lugar onde as pessoas estariam à procura de trabalho, ou a oferecer algum posto de trabalho, eu encontro uma sede de Deus enorme, também por esta relação íntima que existe entre o trabalho e Deus, porque Deus não está fora do nosso mundo de trabalho, acho que isso é mais ou menos evidente para quem está presente nessa rede social.

No fundo, é estar nas situações mais normais, no café, com uma cerveja, no trabalho, na família, na praia também, onde muitos estão agora, podemos encontrar Deus em todo o lado. S. Josemaria Escrivá, fundador do Opus Dei, dizia que se nós não conseguimos encontrar Deus no meio do mundo, não o encontraremos nunca.

Estar perto de Deus não quer dizer só dentro da igreja, que é certamente importante, mas é também saber encontrá-lo nas outras pessoas, nas situações mais alegres, às vezes mais difíceis, mais desafiantes, na morte de alguém, no sofrimento, numa doença, numa alegria, num jogo de futebol e numa cerveja.

  • Fonte: Rádio Renascença
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