Turismo sombrio: o que leva turistas a visitar locais de crime, morte e tragédia?

Turismo sombrio: o que leva turistas a visitar locais de crime, morte e tragédia?

  • 23/08/2026 06:00
  • Redação

Este é um exemplo de “turismo sombrio” — a prática de visitar lugares marcados por morte, violência e crime. O roteiro proposto por Oubiña vem agora colocar o tema na atualidade, levantando a questão de saber se fomos longe demais.

Mas turismo sombrio é um termo abrangente. Pode ser um rótulo comercial associado à necessidade constante de novidade da indústria do turismo, quase como um fenómeno social. É também de grande interesse académico para o campo da criminologia cultural, que estuda as formas como as pessoas compreendem o crime e percecionam a violência.

A criminologia cultural analisa também o popular género de não ficção conhecido como true crime. Trata-se de séries, podcasts, livros e filmes que analisam crimes graves. Tanto o true crime como o turismo sombrio seguem tendências, oferecendo informações valiosas sobre a forma como entendemos a violência e o crime.

Estes fenómenos demonstram que a resposta da sociedade a atos criminosos e violentos é complexa. A curiosidade mistura-se com a necessidade de refletir e recordar, de tentar compreender as suas causas e atribuir-lhes um significado.

O turismo sombrio que interessa aos criminologistas centra-se no crime, na violência e na justiça. Assume muitas formas diferentes. Grande parte consiste em destinos relacionados com acontecimentos traumáticos ou graves violações dos direitos humanos, como visitas a campos de concentração e memoriais.

Locais associados a conflitos armados, desde o Vietname à Segunda Guerra Mundial, também podem ser incluídos nesta tendência. O mesmo se aplica a visitas a prisões históricas como Alcatraz.

Mas inclui também viagens a zonas urbanas com elevados índices de criminalidade, fora dos circuitos turísticos mais convencionais. É o caso de bairros perigosos de Nova Iorque ou das visitas às favelas do Rio de Janeiro.

As visitas guiadas são, por vezes, concebidas deliberadamente para dissipar o estigma associado ao crime. Na Cidade do México, por exemplo, as autoridades locais organizam o "Tepitour" para oferecer uma perspetiva diferente sobre o infame bairro de Tepito, onde opera o cartel Unión Tepito. Outros roteiros seguem mesmo os passos de criminosos famosos, como o tour de Pablo Escobar na Colômbia.

Estes bairros e memoriais são todos lugares associados ao crime ou à violência, mas existem diferenças importantes. Uma visita a um campo de concentração como Auschwitz não é comparável a um passeio a pé que recria os alegados passos de Jack, o Estripador, por Londres — uma atividade que permite inclusive a presença de animais de estimação.

O crescimento do turismo de massas significa que a indústria turística precisa de procurar experiências novas e originais para responder à procura crescente, incluindo aquelas que não parecem particularmente "turísticas". A ascensão do turismo sombrio está também ligada à crescente importância da criminologia na cultura popular.

A Espanha, um dos principais destinos turísticos do mundo, tornou-se também um destino de turismo sombrio, com blogues especializados a destacar numerosas visitas e roteiros relacionados com a Guerra Civil Espanhola. Entre os exemplos mais conhecidos estão Guernica, a cidade basca bombardeada pelo exército alemão durante o conflito, e a cidade velha de Belchite, em Aragão, cujas ruínas permanecem como testemunho da guerra.

Nos últimos anos, proliferaram os roteiros turísticos ligados a bunkers e a locais onde ocorreram algumas das principais batalhas da Guerra Civil Espanhola, bem como a lugares históricos associados à bruxaria e à sua repressão, como Zugarramurdi.

Embora mais centrados no ativismo social, os passeios a pé realizados em várias cidades espanholas e que incluem locais ligados à corrupção política e ao planeamento urbano também podem enquadrar-se nesta categoria.

O turismo sombrio é frequentemente promovido como forma de dinamizar as economias dos destinos e reflete a capacidade de inovação da indústria turística. Em locais ligados à memória histórica, pode também aumentar a consciencialização social e reforçar o seu valor educativo.

Mas apresenta igualmente desafios significativos. Muitos destes locais foram concebidos como espaços de memória, luto e recuperação. Receber turistas não estava entre as suas prioridades. Um dos principais riscos do turismo sombrio é, por isso, a banalização do seu propósito original. Isso torna-se evidente em comportamentos desrespeitosos, como tirar selfies em Auschwitz e noutros locais de memória.

Além disso, estes locais incorporam frequentemente um património incómodo que exige processos de interpretação complexos e controversos. É o caso do Valle de los Caídos, em Espanha, um vasto complexo de mausoléus que albergava os restos mortais do antigo ditador espanhol Francisco Franco.

É fundamental respeitar a memória das vítimas e ter em consideração o impacto que o turismo pode ter nas pessoas que vivem em locais associados ao crime ou à violência. A comercialização de produtos ou experiências que possam justificar ou glorificar criminosos é particularmente problemática neste contexto.

Por todas estas razões, o turismo sombrio deve ser desenvolvido de forma ética, contextualizando os acontecimentos e respeitando as vítimas, de modo a evitar causar-lhes mais sofrimento. Quando gerido de forma ética, pode incentivar a aprendizagem e a reflexão sobre acontecimentos traumáticos que marcaram a sociedade.

Como afirmou o criminologista francês Alexandre Lacassagne, “cada sociedade tem os criminosos que merece”. Seguindo essa lógica, cada sociedade também tem o tipo de turismo sombrio que reflete as suas prioridades.

  • Fonte: Rádio Renascença
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