Guerra no Líbano: Quase 7.500 crianças encontram refúgio em campos de férias da Igreja

Guerra no Líbano: Quase 7.500 crianças encontram refúgio em campos de férias da Igreja

  • 24/08/2026 06:47
  • Redação

Durante este verão, a Fundação Ajuda à Igreja que Sofre (AIS) está a financiar 61 acampamentos no Líbano, que abrangem 7.465 crianças e jovens. As iniciativas são organizadas por dioceses, paróquias e movimentos da Igreja em diferentes regiões do país.

Em comunicado, a fundação pontifícia sublinha que naquele país, organizar atividades para crianças e jovens tornou-se uma tarefa cada vez mais difícil devido à instabilidade e à violência, sinalizando, no entanto, que apesar dos obstáculos, a Igreja local mantém os campos de férias, considerados essenciais para ajudar os mais novos a recuperar alguma normalidade.

Na Arquieparquia Greco-Católica Melquita de Saida e Deir El Qamar, no sul do Líbano, a organização dos encontros exige constantes adaptações devido à situação de segurança.

Joelle Feghali, membro do Movimento Apostólico Mariano, conta, citado na nota, que o local inicialmente escolhido para o acampamento teve de ser cancelado devido à guerra. A equipa foi obrigada a procurar uma alternativa e a preparar novamente toda a iniciativa, sem saber até ao último momento se seria possível concretizá-la.

As dificuldades não são apenas logísticas. Também os animadores e voluntários enfrentam incertezas económicas, familiares e de segurança, semelhantes às vividas pelo resto da população.

Os conflitos deixaram marcas profundas entre as crianças e os jovens. Depois das deslocações provocadas pela guerra de 2024, uma nova escalada iniciada em março de 2026 voltou a obrigar centenas de milhares de famílias a abandonar as suas casas.

Segundo os responsáveis do Movimento Apostólico Mariano, aumentaram os casos de ansiedade, isolamento, distúrbios do sono e medo de ruídos fortes. São também relatadas situações de automutilação, pensamentos suicidas, dependência de medicação e problemas psicossomáticos.

Há ainda jovens que não conseguem participar nos acampamentos porque precisam de trabalhar para ajudar as famílias ou pagar os estudos. Outros são impedidos pelos pais, devido ao receio de que a situação de segurança se agrave.

Neste contexto, os campos de férias assumem uma dimensão que vai muito além do lazer. São apresentados como espaços seguros onde as crianças podem brincar, criar relações de confiança, falar dos seus medos e recuperar alguma sensação de normalidade.

Jennifer Hajj, vice-presidente do Movimento Apostólico Mariano, explica que muitas crianças chegam aos encontros retraídas e marcadas pela ansiedade. Contudo, ao longo dos dias, os responsáveis testemunham mudanças significativas.

Crianças e adolescentes que inicialmente se mostram fechados começam a sorrir, fazem novas amizades e recuperam a confiança. Os acampamentos permitem-lhes “respirar, rir, brincar, rezar e recuperar uma sensação de segurança”, segundo Hajj.

Para além do acompanhamento das crianças, os encontros permitem também envolver adolescentes e jovens adultos como líderes de grupo, ajudando-os a descobrir que podem assumir responsabilidades, servir os outros e contribuir para a construção da paz nas suas comunidades.

O trabalho da Igreja não termina quando os participantes regressam a casa. O Movimento Apostólico Mariano mantém reuniões semanais, encontros pessoais e acompanhamento ao longo do ano, procurando dar continuidade ao apoio prestado durante os acampamentos.

Para Joelle Feghali, esta presença é particularmente importante num contexto marcado pelo desânimo, solidão, perda de sentido e desespero.

O objetivo é ajudar os jovens a recuperar a esperança e a perceber que, apesar das feridas provocadas pela guerra, podem continuar a construir o futuro das suas comunidades.

O Arcebispo Elie Béchara Haddad, arcebispo greco-católico melquita de Saida e Deir El Qamar, considera que manter os acampamentos durante a guerra é uma opção deliberada pela vida e pelo futuro das novas gerações.

“Organizar acampamentos de Verão para as nossas crianças, jovens e famílias não é simplesmente uma atividade sazonal. É um ato de resistência cultural, um testemunho de fé inabalável e uma necessidade vital”, afirma.

Para o arcebispo, estes encontros oferecem “oxigénio espiritual e psicossocial” às crianças, aos jovens e às famílias.

“Ao apoiar os nossos acampamentos de Verão, não está a financiar umas férias comuns. Está a financiar a continuidade da nossa presença, a cura das nossas crianças e o futuro dos nossos jovens”, sublinha.

Por sua vez, a Fundação AIS considera que, num país marcado pela guerra e pela instabilidade, estes momentos de convívio constituem uma forma concreta de proteger a infância, reforçar a esperança e manter viva a presença da Igreja junto das comunidades mais afetadas.

  • Fonte: Rádio Renascença
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