Calor extremo de 2026 na Europa será o "novo normal" do futuro
- 24/08/2026 10:43
- Redação
"As ondas de calor não param. Já não aguento mais. Sempre que pensamos que está a acabar, na verdade volta" o calor, afirmou à agência francesa AFP Ayse Gurbuz, de 25 anos, estudante em Lyon (centro-este de França).
O Instituto Nacional de Saúde Ricardo Jorge (Insa) e a Direção Geral da Saúde consideram que o padrão observado mostra que a maioria dos óbitos ocorreu em pessoas com 75 ou mais anos, verificando-se um predomínio de causas circulatórias, respiratórias e neoplásicas. .
Segundo as duas entidades, os óbitos cuja causa básica de morte foi codificada como exposição a calor excessivo representam apenas uma pequena parte do impacto do calor na mortalidade, uma vez que na maioria das situações o calor funciona como fator desencadeante ou agravante de outras patologias e não como causa básica de morte registada no certificado de óbito.
Por toda a Europa, instalou-se um novo hábito: observar com ansiedade o termómetro a subir e ficar atento aos boletins meteorológicos, mas para o climatólogo francês Jean Jouzel, esse vai ser o novo normal. .
"O que estamos a viver é aquilo que a nossa comunidade (científica) prevê há cerca de trinta anos", disse o antigo vice-presidente do Painel Intergovernamental sobre Alterações Climáticas.
No primeiro dia do verão, os sinais vieram do País Basco e de oito cidades italianas, que entraram em alerta vermelho devido à onda de calor, com escolas fechadas, festivais cancelados e transmissões do Mundial ou fogueiras de São João suspensas.
De meados de junho a meados de agosto, foram registadas mais de 32.000 mortes adicionais na Europa, de acordo com um balanço provisório.
O número de pessoas que sofrem de eco-ansiedade disparou para 2,6 milhões, de acordo com um estudo do Observatório da Eco-Ansiedade.
Do sul da Europa às regiões mais setentrionais, até 12 de agosto os incêndios consumiram cerca de 600.000 hectares.
Em outros locais, surgiu a seca, que transformou paisagens verdejantes em horizontes desolados e, em final de julho, metade do continente estava nessa situação.
Em França, na Suíça, na Áustria e na Eslovénia, a humidade do solo caiu para níveis historicamente baixos.
"Tudo secou de repente. As únicas plantas que cresceram foram a azeda e o cardo", relatou John Pawsey, um agricultor britânico de 62 anos, perante os seus campos de quinoa queimados pelo sol".
Grandes rios como o Reno, o Loire ou o Tamisa viram o seu caudal diminuir, centrais nucleares tiveram de parar produção por falta de água e surgiram destroços de navios ou de equipamentos afundados da II Guerra Mundial. .
Os lençóis freáticos, apesar de terem sido bem reabastecidos neste inverno, começaram a baixar em França, no Piemonte italiano e em Espanha, obrigando vários municípios a receberem abastecimento de água potável.
Também nos campos, a água já provoca uma falta crua, afetando os rendimentos do milho e do girassol e contribuindo para a antecipação das vindimas e das colheitas. .
Mesmo no mar, o termómetro disparou. Em julho, o Mediterrâneo registou a temperatura média da superfície mais elevada de sempre para este mês, com 27,07 °C.
"Em 2100, há grandes probabilidades de que 2026, se tomarmos esse ano como referência, seja considerado "um verão normal", adverte, pedindo uma "tomada de consciência". .
"É preciso compreender que nos dirigimos para uma catástrofe se não conseguirmos inverter as tendências", salientou, a partir da sua Bretanha natal, antiga província húmida e atlântica onde o termómetro ultrapassou várias vezes os 40 graus este verão.