Psicose pós-parto ou premeditação: o que está em causa no julgamento de Lindsay Clancy
- 24/08/2026 17:38
- Redação
Lindsay Clancy, de 36 anos, está a ser julgada no Tribunal Superior de Plymouth, no Massachusetts, pela morte dos três filhos, Cora, de cinco anos, Dawson, de três, e Callan, de oito meses.
A antiga enfermeira de obstetrícia não contesta ter estrangulado as crianças em casa, em Duxbury, a 24 de janeiro de 2023, mas declarou-se inocente e a defesa sustenta que não pode ser considerada criminalmente responsável devido ao estado de saúde mental em que se encontrava.
Quase três anos e sete meses depois das mortes, o julgamento entrou esta segunda-feira, 24 de agosto, na quinta semana e aproxima-se da fase final. A defesa terminou a apresentação da prova na sexta-feira e a acusação encontra-se a chamar testemunhas de refutação. As alegações finais deverão ocorrer ainda esta semana.
No centro do julgamento está uma questão que não é factual, mas psiquiátrica e jurídica. Nenhuma das partes discute que foi Clancy quem matou as crianças. O que os jurados terão de avaliar é se a mulher compreendia a natureza e a ilicitude dos atos e se tinha capacidade para controlar o comportamento, ou se uma doença mental grave a impedia de ser criminalmente responsável.
A defesa alega que Clancy sofria de psicose pós-parto, associada a uma perturbação bipolar que ainda não tinha sido diagnosticada, enquanto a acusação sustenta que a mãe sabia distinguir o certo do errado.
Segundo a acusação, os acontecimentos daquela noite revelam planeamento. Os procuradores defendem que Clancy conseguiu ficar sozinha com os filhos ao levar o então marido, Patrick Clancy, a sair de casa para cumprir dois recados. Durante essa ausência, estrangulou Cora, Dawson e Callan. Depois, cortou os pulsos e o pescoço e lançou-se de uma janela do segundo andar da casa numa tentativa de suicídio que a deixou paralisada da cintura para baixo.
A psicose pós-parto é muito mais rara do que a depressão pós-parto e caracteriza-se por uma perda de contacto com a realidade. Pode provocar alucinações, pensamentos desorganizados e convicções falsas e persistentes, incluindo ideias de natureza extrema ou implausível. Algumas doentes podem ouvir vozes que lhes ordenam que se suicidem ou que ataquem o bebé.
Estima-se que a perturbação ocorra em cerca de um a dois casos por cada mil mulheres depois do parto. Ao contrário da depressão pós-parto, cujos sintomas podem surgir mais tarde, a psicose tende a desenvolver-se rapidamente.
A gravidade dos sintomas e a possibilidade de existirem pensamentos suicidas ou de agressão à criança fazem com que seja considerada uma emergência psiquiátrica.
A condição não deve ser confundida com a depressão pós-parto nem com o chamado “baby blues”. A depressão pode provocar tristeza persistente, perda de interesse, alterações do sono, fadiga, dificuldades de concentração e, em situações graves, pensamentos suicidas. Já a psicose implica uma alteração da perceção da realidade e pode envolver delírios ou alucinações.
Fora do tribunal, o julgamento desencadeou uma forte mobilização pública. Centenas de apoiantes de Clancy concentraram-se junto ao tribunal, alguns vestidos de cor-de-rosa e com mensagens relacionadas com a necessidade de apoio à saúde mental materna. Outras pessoas têm procurado recordar as três crianças no centro do processo.
Com a defesa já encerrada e a acusação na fase final da refutação, o processo aproxima-se agora das alegações finais. Depois das intervenções dos advogados e das instruções do juiz, caberá ao júri decidir se Lindsay Clancy deve ser considerada criminalmente responsável pelas mortes de Cora, Dawson e Callan.
Se a posição da acusação prevalecer e Clancy for condenada por homicídio em primeiro grau, poderá ser sentenciada a prisão perpétua sem possibilidade de liberdade condicional. Se o júri concluir que não era criminalmente responsável devido a doença mental, poderá permanecer internada numa instituição psiquiátrica.