"Coyote vs. Acme" foi cancelado por benefícios fiscais. Três anos depois vai sair nos cinemas
- 26/08/2026 02:00
- Redação
Estava pronto para sair nas salas de cinema em 2023, mas foram precisos três anos e muita insistência para que, finalmente, veja a luz do projetor. "Coyote vs. Acme" estreia-se na quinta-feira — em Portugal e um pouco por todo mundo.
O filme tem como protagonista a personagem dos Looney Tunes Wile E. Coyote, que falha sempre miseravelmente em apanhar o Bip-Bip, o nome como ficou conhecida a ave Papa-Léguas. Depois de mais um conjunto de armadilhas e engenhocas da marca ACME não funcionarem apropriadamente, o desenho animado farta-se e decide colocar a empresa em tribunal por todas as catástrofes que sofreu. O comediante Will Forte faz de o advogado da personagem animada que tem de enfrentar em tribunal o representante legal intimidante da empresa, interpretado por John Cena.
Uma comédia que tem como principal ponto aliciante o facto de fundir de forma impressionante imagens reais com personagens de desenhos animados, ao estilo dos clássicos "Quem Tramou Roger Rabbit?" e "Space Jam". Esta década, os Looney Tunes têm estado em força no grande ecrã, depois de "Space Jam: Uma Nova Era", em 2021, e "Daffy e Porky Salvam o Mundo", em 2025.
"Coyote vs. Acme" também leva para o cinema algumas das personagens animadas mais icónicas da Warner Bros., contudo foi a própria empresa qua quase impediu que o filme fosse lançado para o grande público. Filmado entre março e maio de 2022, estimava-se que a longa-metragem estivesse totalmente finalizada e pronta para lançar a 21 de julho de 2023.
No entanto, o que se seguiu foi uma história com muitas reviravoltas, que revoltou fãs dos Looney Tunes e a própria indústria do Cinema.
Para os mais atentos, 21 de julho de 2023 acabou por ser a data de lançamento de outro filme da Warner Bros.: "Barbie", de Greta Gerwig, com Margot Robbie e Ryan Gosling. Na altura, a empresa tinha apenas removido "Coyote vs. Acme" do calendário e feito a troca por um blockbuster que seria muito mais competitivo face à estreia de "Oppenheimer", pela Universal. Essa decisão acabou por levar ao fenómeno "Barbenheimer", em que muitas pessoas optaram por ver os dois filmes no mesmo dia, contribuindo para o sucesso de bilheteira de ambos.
Até aqui, nada fora do normal. É comum que as distribuidoras mudem o seu calendário de lançamento, adiando ou antecipando as longas-metragens, consoante a aposta que pretendem fazer em termos de competitividade no mercado. A expectativa era de que "Coyote vs. Acme" acabasse por ter uma nova data, a ser anunciada mais tarde.
No entanto, a 9 de novembro de 2023, a Warner Bros. anunciou que, apesar do filme estar pronto a lançar, ia cancelar a sua distribuição em troca de uma dedução de prejuízos fiscais avaliada em 30 milhões de dólares (25.962 milhões de euros). A novidade surgiu depois da marca ter tomado decisões semelhantes em relação a outros dois filmes: "Batgirl", que estava totalmente filmado e carecia apenas de trabalho de efeitos especiais em pós-produção, e um filme de "Scooby-Doo".
A Warner Bros. adotou esta prática de cancelar a distribuição de projetos para cinema ou televisão em troca de benefícios fiscais, em parte por causa do processo de fusão empresarial que estava a decorrer com a Discovery Inc. Entre julho e setembro de 2022, a imprensa especializada norte-americana estima que a empresa tenha acumulado mais de dois mil milhões de dólares (mais de 1.730 mil milhões de euros) em deduções de prejuízos fiscais deste tipo de conteúdos.
O cancelamento de "Coyote vs. Acme" foi mais surpreendente, porque ocorreu muito mais tarde, no final de 2023, mais de um ano depois da Warner Bros. e a Discovery Inc. terem completado a sua fusão. E, ao contrário de "Batgirl", cujo caso também gerou bastante choque na indústria, o filme dos Looney Tunes já estava terminado e pronto a lançar, ou seja, não implicaria mais nenhum custo para lá de uma eventual campanha de marketing à volta da sua estreia nos cinemas.
A decisão da Warner Bros. provocou uma revolta nas redes sociais de fãs dos Looney Tunes, mas também de profissionais da indústria de cinema preocupados com a tendência de projetos cancelados apesar de terem sido filmados com sucesso.
As hashtags "#ReleaseCoyoteVsAcme" e "#SaveCoyoteVsAcme" estiveram nas tendências de redes sociais como o X (antigo Twitter). James Gunn, Phil Lord, Christopher Miller, Brian Duffield e Michael Chaves foram alguns dos realizadores a manifestarem apoio a "Coyote vs. Acme" publicamente.
A pressão surtiu efeito. Alguns meses depois da decisão inicial, a Warner Bros. indicou que, apesar de não ter intenções de lançar o filme nos cinemas e não equacionar uma estreia no streaming, estava disponível para vender os direitos de distribuição a outra marca.
Em 2024, a Warner Bros. aceitou 115 milhões de dólares (99 milhões de euros) em deduções de prejuízos fiscais. Não havia um futuro claro para o filme.
No início do ano seguinte, ainda sem qualquer novidade, a atriz Lana Condor revelou numa entrevista que o elenco e a equipa técnica do filme reuniram-se para um visionamento "funerário", em celebração do filme.
Em março de 2025, surgiram notícias animadoras para "Coyote vs. Acme": A Ketchup Entertainment estaria interessada em adquirir os direitos de distribuição.
A marca já tinha ficado encarregue de distribuir para as salas de cinema o filme de animação "Daffy e Porky Salvam o Mundo", quando, inicialmente, a expectativa era de que esta produção fosse apenas um produto de streaming na HBO Max.
O negócio fechou-se e os direitos de distribuição de "Coyote vs. Acme" foram vendidos por 50 milhões de dólares (ligeiramente acima de 43 milhões de euros) - abaixo dos valores exigidos pela Warner Bros. previamente.
Com lançamento em sala assegurado em território norte-americano pela Ketchup Entertainment, os direitos internacionais estiveram à venda no mercado do Festival de Cannes, em 2025, levando a que mais países recebessem estreia da longa-metragem nos seus cinemas, incluindo Portugal.
Aproximando-se o tempo de finalmente ver "Coyote vs. Acme" no grande ecrã, a equipa de marketing começou a promover o filme com indiretas relativas ao drama de bastidores em que esteve envolvido. O primeiro teaser foi lançado a 15 de abril, dia em que os norte-americanos declaram os seus impostos, em que Wile E. Coyote empunhou um cartaz onde se lia "Verifiquem os vossos benefícios fiscais". Outro trailer referia que a longa-metragem era "o filme que a Acme não quer que vejam", usando a empresa antagonista da história como referência à Warner Bros.
Depois de muita polémica e três anos em que parecia que nunca seria visto pelo grande público, "Coyote vs. Acme" estreia-se esta quinta-feira em todo o mundo, incluindo Portugal. O filme já foi bem acolhido pela crítica especializada que teve acesso antecipado.
Resta saber qual será o veredito final do caso legal de Wile E. Coyote no filme. Por agora, conseguiu vencer a batalha para chegar aos cinemas.