O que está a acontecer no Ártico? Cientista portuguesa parte à descoberta do papel do oceano no ciclo do carbono
- 27/08/2026 06:15
- Redação
Uma investigadora portuguesa está a participar numa expedição científica internacional que atravessa o Mar da Gronelândia, entre a Islândia e Svalbard, para estudar os processos que determinam a forma como o carbono é captado à superfície e transportado para as águas profundas.
Catarina V. Guerreiro, investigadora da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (Ciências ULisboa), integrada no MARE – Centro de Ciências do Mar e do Ambiente/ARNET e no Instituto Dom Luiz (IDL), é a única representante portuguesa a bordo do navio oceanográfico Odón de Buen.
A cientista integra a expedição IMAGE – Impact of Mesoscale Activity on Greenland Sea Biogeochemistry, que decorre até 3 de setembro e reúne investigadores de Espanha, Alemanha, Dinamarca, França, Reino Unido e China.
A missão pretende compreender melhor o funcionamento da chamada bomba biológica de carbono, um processo através do qual o oceano contribui para retirar carbono da superfície e transportá-lo para zonas mais profundas.
Entre as principais questões está o impacto de fenómenos como vórtices, frentes e filamentos oceânicos nas comunidades de plâncton e na quantidade de carbono que é exportada para o interior do oceano.
Catarina Guerreiro dedica particular atenção à bomba de carbonato, estudando os cocolitóforos e outros organismos planctónicos capazes de formar estruturas de carbonato de cálcio.
Estes organismos utilizam carbono dissolvido na água do mar para construir pequenas estruturas calcárias. Quando morrem, estas podem afundar e contribuir para transportar carbono da superfície para zonas mais profundas do oceano.
“Esta é a minha primeira expedição ao Ártico e representa uma oportunidade extraordinária para explorar, num contexto completamente diferente, questões que tenho vindo a investigar noutras regiões do oceano”, explica a investigadora.
Catarina Guerreiro acrescenta que procura perceber “como o plâncton calcificante liga as bombas de carbono orgânico e de carbonato” e de que forma os processos que ocorrem à superfície influenciam “o carbono que é exportado para o oceano profundo”.
Durante a expedição, os cientistas recolhem amostras e fazem medições físicas, químicas e biológicas em diferentes profundidades. O objetivo é relacionar a dinâmica do oceano com a composição e produtividade das comunidades planctónicas e com o destino da matéria orgânica rica em carbono.
O estudo assume particular relevância num Ártico que está a sofrer alterações rápidas na temperatura, na cobertura de gelo, na estratificação e na circulação oceânica.
A investigadora considera que a participação na missão permite também reforçar a cooperação científica internacional de Ciências ULisboa.
“A participação na IMAGE representa também uma oportunidade para reforçar a colaboração internacional de Ciências ULisboa nas áreas da biogeoquímica marinha, ecologia do plâncton e ciclo do carbono”, afirma.
A expedição permitirá ainda comparar os dados recolhidos no Ártico com observações realizadas noutras regiões do planeta, incluindo o Oceano Austral.
Os resultados deverão ajudar a compreender melhor a forma como os processos oceanográficos e biológicos regulam a exportação de carbono para o oceano profundo e como poderão ser afetados pelas rápidas mudanças ambientais que estão a ocorrer no Ártico.
A expedição partiu de Reiquiavique, na Islândia, a 2 de agosto, e tem chegada prevista a Svalbard, na Noruega, a 3 de setembro. A missão é liderada pelo IOCAG-ULPGC e co-liderada pelo IIM, envolvendo várias instituições internacionais, entre as quais a Ciências ULisboa, através do MARE/ARNET e do IDL.