José Eduardo Martins pede coerência ao Governo na energia: "Não pode ser contra o nuclear e apostar em data centers"
- 27/08/2026 08:28
- Redação
José Eduardo Martins criticou esta quinta-feira a estratégia do Ministério do Ambiente para a política energética porque o antigo governante considera que para alimentar os data centers não se pode fugir ao debate do nuclear.
O antigo deputado do PSD é contra a construção de centrais nucleares e, questionado pelos alunos sobre a posição da ministra Maria da Graça Carvalho — que já disse não fazer sentido o investimento em centrais nucleares em Portugal —, o social-democrata pediu coerência.
“Quem põe cá fora a estratégia dos data centers é o mesmo ministério que pôs cá fora o PNEC ( Plano Nacional de Energia e Clima). As duas coisas vão ter que bater certo no futuro e neste momento não batem. Portanto, independentemente da declaração do Governo ser contra o nuclear, aquilo que nós estivemos aqui a constatar pelo método científico da dedução é que não pode haver tantos data centers sem haver a discussão do nuclear” referiu José Eduardo Martins.
O advogado e antigo secretário de estado do ambiente é contra a construção de centrais nucleares, apontou os acidentes de Chernobyl e mais recentemente no Japão e lembrou que o Douro é a única região do país onde pode ser construída uma central nuclear porque tem água e o litoral tem risco sísmico elevado.
José Eduardo Martins reconhece, no entanto, que as renováveis não estão a dar resposta e é necessário encontrar alternativas para alimentar os centros de dados que consomem muita energia.
“Por causa do tema da água, nós só temos espaço no Douro para fazer uma central nuclear. Não creio que a nossa rede e as nossas necessidades resistam a uma central nuclear clássica. O nuclear portátil, digamos assim para simplificar, ainda não está maduro. Os data centers estão em cima da nossa cabeça. Acho que os devemos fazer e não lhes podemos fugir. Temos um desafio que é a produção renovável, que considerávamos suficiente, não vai ser. Logo, temos aqui um problema” conclui o advogado especialista em questões ambientais.
Num debate que durou mais de duas horas a investigadora Maria do Carmo Fonseca defendeu a energia nuclear, que diz ser “relativamente seguro” e enquanto não começamos a produzir energia por fusão é necessário seguir o nuclear para dar resposta às necessidades da Inteligência artificial.
A conselheira de estado lembrou que com a guerra, a procura de energias alternativas ao petróleo aumentou e levou o Reino Unido a reverter a política apostando na construção de pequenas centrais nucleares e aumentado o investimento em investigação na fusão e avisa o Governo que Portugal deve seguir o mesmo caminho.
“O que Portugal não deve de todo ignorar é um investimento em investigação, em ciência e tecnologia, não a pensar no nuclear apenas, mas já a pensar na fusão, que é para nós estarmos preparados para ter a nossa própria base tecnológica e não ficarmos dependentes de ter que importar tudo” alertou.
A investigadora e professora da universidade de medicina defendeu ainda um debate sério sobre esta matéria: “O que eu defendo é que Portugal discuta o problema das energias de uma forma holística e diversificada, e que discuta sem enviesamentos ideológicos ou emotivos, dizer nuclear nem pensar. Porquê? Porque não. Isto é que eu defendo, que não aconteça. É preciso que haja debate, debate baseado em evidência científica e tecnológica” pediu a conselheira de estado Maria do Carmo Fonseca.
Sobre o debate destes temas e dos centros de dados que consomem grandes quantidades de energia e de água, José Eduardo Martins não acredita que se consiga falar seriamente sobre o problema.
“Ou esta discussão começa muito bem, ou deixamos de ouvir falar da Segurança Social nos termos patetas e maniqueístas que temos ouvido falar para entrarmos numa discussão verdadeiramente pateta e maniqueísta sobre este tema”, considerou o antigo deputado do PSD.
Uma das perguntas colocadas pelos alunos foi sobre a recente medida do Governo de entrar no capital da REN, José Eduardo Martins reconheceu que queria evitar falar do tema, mas sempre disse que foi um erro a decisão tomada no passado de vender parte da empresa aos chineses.
“Eu acho que nós cometemos um grande erro em privatizar uma parte da REN a um Estado estrangeiro. Foi em estado de necessidade, eu sei, tínhamos cá a ‘troika’, mas não é uma coisa boa. A rede elétrica cumpre quase uma função de soberania”, considera José Eduardo Martins.