Portuguesa no Ártico a "estudar sistema em rápida mudança devido às alterações climáticas"
- 27/08/2026 15:37
- Redação
A chamada para esta entrevista é feita a bordo do navio "Odón de Buen". Catarina Guerreiro é a única portuguesa nesta expedição internacional pelo Ártico. O objetivo desta missão – que está prestes a terminar e durou cerca de 1 mês – é estudar no mar da Gronelândia de que forma está a mudar a capacidade do oceano absorver dióxido de carbono da atmosfera (e como estas alterações podem influenciar o clima do planeta).
É a única representante portuguesa a bordo deste navio, desta missão internacional. Pergunto-lhe, em primeiro lugar, se nos consegue explicar, para leigos, qual é o objetivo desta missão?
Diria que o principal objetivo desta expedição é estudar um sistema que está atualmente em rápida mudança devido às alterações climáticas, que é a zona do Ártico, nomeadamente a região do Mar da Gronelândia. E nós queremos com esta equipa multidisciplinar contribuir para perceber de que forma é que estas tais rápidas mudanças no sistema oceanográfico da região estão a alterar a capacidade que o oceano naturalmente tem de absorver dióxido de carbono da atmosfera e de o exportar para maiores profundidades ao longo da coluna de água oceânica. Ou seja, o oceano tem este papel fundamental de, ao absorver CO2 da atmosfera, contribuir para regular as concentrações de dióxido de carbono e, portanto, do clima do nosso planeta.
Este papel passa muito por um mecanismo chamado bomba biológica do carbono, através da qual o plâncton marinho contribui precisamente para esta captura de dióxido de carbono atmosférico e, portanto, nós estamos aqui para estudar como é que esse mecanismo biogeoquímico está a funcionar. Para tentar perceber se ele está a ser alterado, se não, e de que maneira podemos antecipar o futuro deste funcionamento biogeoquímico no futuro, tendo em conta as atuais alterações do clima em grande parte relacionadas com as emissões de dióxido de carbono antropogénico.
Para já nós estamos, sobretudo, a adquirir observações, portanto, estamos a fazer colheita de amostras de água do mar para estudar uma série de parâmetros químicos, físicos, biológicos, estamos a fazer alguma monitorização em tempo real que nos vai permitindo perceber que grupos fitoplanctónicos e zooplanctónicos existem na região.
Só daqui a algum tempo, quando tivermos de facto a oportunidade de olhar para as nossas amostras, para os nossos parâmetros, e, sobretudo, quando tivermos a possibilidade de integrar toda esta informação multiparamétrica é que poderemos avançar com algumas conclusões preliminares.
Mas, para já, sabemos que estamos a atravessar um verão, ou um ano, que já está a ser um ano recorde em termos de temperaturas de água do mar – médias globais. Portanto, já ultrapassámos o recorde que tínhamos atingido no ano de 2024. Tudo isto é interessante, termos a oportunidade de estar aqui nesta região num ano de temperaturas recorde. Vamos ver o que é que os nossos dados nos trarão de informações, mas acho que só mais lá para a frente é que conseguiremos dizer algo a respeito disso.
O dia a dia é bastante repetitivo, devo dizer. Há um plano de amostragem que nós tentamos seguir o melhor possível para assegurar que conseguimos fazer todas as amostragens que foram originalmente planeadas e, portanto, dependendo do parâmetro que nós vamos estar a estudar no contexto da equipa, temos um horário específico que é sempre mais ou menos o mesmo todos os dias – a não ser que as condições oceanográficas ou meteorológicas mudem e tenhamos que fazer ajustes de planeamento, como aliás aconteceu no início da expedição, em que começámos a ter condições de agitação marítima bastante desfavorável, digamos, para operar os equipamentos que temos a bordo, e portanto tivemos que rapidamente ir refugiar-nos numa zona de fiordes na Islândia, até que a tempestade passasse, para então retomarmos o nosso planeamento.
Mas, regra geral, acordamos, tomamos um pequeno-almoço na sala de refeições, e começamos os nossos trabalhos que, regra geral, duram todo o dia. Acordamos relativamente cedo [pelas 8h00] e deitamo-nos com alguma frequência relativamente tarde.
A nível de condições para dormir, para estar no navio? Também é uma zona tipicamente muito fria. Como é que se tem sentido?
Tem sido fantástico, o navio "Odón de Buen" é um navio relativamente novo. É muito confortável, temos quartos muito bem equipados, tenho uma casa de banho só para mim, que é uma coisa que nem sempre acontece em navios oceanográficos, portanto, de facto as condições deste navio são excecionais.
Dentro do navio está sempre calor, ou seja, não temos problemas de temperatura fria. Apesar de lá fora estar muito frio, dentro do navio está sempre quentinho, está sempre confortável. Depois quando vamos fazer operações no deque, aí sim temos que nos agasalhar bastante, porque realmente estamos a latitudes onde faz sentido que esteja bastante frio, apesar de estarmos no verão boreal.
Portanto, mais lá para a frente, ao longo do ano, é que as temperaturas ficarão ainda mais difíceis de tolerar. Mas, para já, confesso que até está a ser uma expedição bastante confortável em termos de temperatura – pelo menos em comparação com uma expedição que fiz em 2019 à Antártida, aí sim um frio quase permanente. Desta vez está a ser bastante tolerável, digamos assim.
Neste momento não consigo apurar com toda a certeza, mas eu penso que a água do mar estava com cerca de 6 graus. Aqui dentro do navio não tenho nenhum casaco vestido, está-se completamente confortável.
É a única portuguesa a bordo. Os investigadores portugueses, ainda há boa formação por parte de Portugal para a Ciência, para conseguir colocar investigadores em expedições tão importantes como esta?
Eu, como investigadora do mar, penso que Portugal até que poderia investir um bocado mais na investigação do mar, tendo em conta a nossa vasta costa, a nossa vasta margem continental e também a história marítima. Pela minha experiência pessoal, parte um bocadinho do nosso espírito de iniciativa individual em colaborar com investigadores de países que têm competências técnicas e capacidades técnicas, nomeadamente navios oceanográficos, com os recursos necessários para fazer investigação no mar, sobretudo em condições de oceano aberto.
Portanto, acho que temos uma comunidade científica perfeitamente capaz de fazer investigação a nível oceânico, mas diria que ainda estamos um bocadinho dependentes destas colaborações internacionais para participar em campanhas verdadeiramente multidisciplinares. Penso que ainda há caminho a fazer mais em termos de capacidades técnicas, não em termos de capacidades científicas. Penso que aí temos uma comunidade muito boa e com imenso potencial.