Morreu Narana Coissoró, histórico do CDS, aos 94 anos
- 29/08/2026 07:18
- Redação
Morreu Narana Coissoró, antigo líder parlamentar do CDS e figura ímpar dos centristas, aos 94 anos. A notícia foi confirmada por uma fonte oficial do partido CDS.
Uma das suas últimas aparições públicas foi em 2024, altura em que o CDS voltava ao Parlamento depois de dois anos de ausência. Ao lado de Paulo Portas – com quem travou batalhas internas –, Coissoró foi à Assembleia da República para assinalar o momento simbólico de ver o seu partido de regresso.
Em reação, o partido do antigo centrista lamentou a morte de Coissoró, "protagonista de muitos combates ao serviço da dignidade da pessoa humana, da Democracia e da Liberdade".
"A partida do Professor Narana Coissoró deixa uma saudade profunda, mas também um legado que permanecerá bem vincado no Ensino, na Justiça, no CDS-PP e na história recente de Portugal", lê-se na nota de pesar.
Nasceu em Goa, Índia, na altura ainda sob administração portuguesa e só veio para Portugal aos 17 anos para estudar Direito na Universidade de Coimbra – o seu pai era advogado e o objetivo era seguir-lhe os passos.
Quando chega ao país para estudar Portugal ainda vivia sob a ditadura de Salazar e as crises estudantis iam incomodando o regime a partir das Universidades. Dessa altura diz não ter “boas recordações” assinala a falta de liberdade vivida durante o Estado Novo.
Ainda tirou o doutoramento em Londres e começou por trabalhar numa empresa ligada ao algodão em Lisboa. Tencionava ser professor universitário, mas veio o 25 de Abril e trocou-lhe as voltas. Acabou por ser isso, no entanto, a vida política meteu-se-lhe no caminho.
Os pais já estavam ligados à política em Goa, “eram todos políticos e politiqueiros”, conta o próprio. Faziam parte do Conselho do Governo português. O bichinho já existia e quando se dá a Revolução escolhe o CDS, ou melhor, é levado a escolher o CDS.
“Foi mais por causa da minha mulher”, conta numa entrevista ao 24 Notícias, no final de 2021. Diz que a sua vocação “era mais para o PSD”, mas a sua mulher já se tinha filiado no CDS e para “evitar confrontos” também se alistou nos centristas.
Entra para o Parlamento em 1976, na I legislatura, o CDS elege 42 deputados liderados por Diogo Freitas do Amaral.
Dois anos depois, em 1978, torna-se líder parlamentar dos centristas, lugar que ocupa durante 13 anos, até 1991. Em 1986 faz um discurso no Parlamento que, acredita o próprio, impede a aprovação da amnistia às FP-25.
Até quando o CDS foi depenado pelo PSD de Cavaco Silva e se tornou conhecido como o “partido do Táxi” (por serem só 4 deputados, que caberiam todos se chamassem um táxi), Narana Coissoró era líder da bancada.
Foi sempre um político sem papas na língua. Quando discordava da liderança do CDS ou tinha problemas pessoais com alguém dizia-o publicamente sem rodeios. “Orgulhoso quando o partido se porta bem e crítico quando se porta mal”, assim se descrevia.
Em 1999 torna-se vice-presidente da Assembleia da República, lugar que ocupa até 2005, ano em que encerra o seu capítulo de deputado.
Mantém sempre uma voz ativa no espaço público e segue com a sua carreira académica. Fundou o Instituto do Oriente, deu aulas no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas, na Universidade Lusófona e na Universidade Católica Portuguesa.
Fiel ao CDS até ao fim, apesar das críticas, Coissoró sempre garantiu que nunca abandonaria o partido: “Se pusessem um macaco à frente do partido, votava no macaco."
Ao longo da vida foi condecorado diversas vezes. Em 1993 é condecorado como Grande-Oficial da Ordem da Instrução Pública, em 1995 Grande-Oficial da Ordem Militar de Cristo, em 2006 recebe a Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique e em 2021, no dia em que fez 90 anos, recebeu a Grã-Cruz da Ordem da Instrução Pública das mãos do então presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa.
Tinha vários livros publicados, sobretudo dedicados ao estudo de Goa e da administração de antigas colónias portuguesas.