Português a caminho da F1? Noah Monteiro vai dar em 2027 “salto quase natural” para Fórmula 3 europeia
- 29/08/2026 06:29
- Redação
“Não há razão lógica para fazer mais um ano de Fórmula 4”, aponta o piloto que competiu na F1 pela Jordan e Midland (a mesma equipa, apenas com nome diferente). “O salto vai ser quase natural, seja ele na FREC [Campeonato de Fórmula Regional Europeia] ou na Eurocup-3".
Tanto a Fórmula Regional Europeia como a Eurocup-3 seguem regras de Fórmula Regional. São campeonatos de nível Fórmula 3 que se disputam nos vários continentes. Os carros, com motores de 270 cavalos de potência, servem de passo intermédio entre os carros de F4, com 160 cv, e os do Mundial de F3, com 380 cv, além de permitirem mais tempo de desenvolvimento aos pilotos antes da pressão de um campeonato mundial.
“Hoje em dia a Fórmula 3 é muito mais rápida, muito mais”, explica Tiago Monteiro, comparando com o carro que conduziu na viragem do milénio. “Anda-se muito pouco também. Há muito poucas oportunidades de testar o Fórmula 3 porque as regras limitam”.
“Depois há um problema financeiro”, admite o ex-piloto. Questionado sobre qual é o orçamento necessário para uma temporada no Mundial de Fórmula 3, Tiago Monteiro fala em “valores entre 1,5 milhões e dois milhões de euros”.
“Para a temporada só”, sublinha, esclarecendo que o valor apenas ‘compra’ o lugar do piloto numa equipa. “Tens que tentar fazer alguns testes com carros parecidos, que é o que todos fazem, alguns fazem em testes o equivalente de quilómetros a uma temporada, com carros muito parecidos e depois tens toda a estrutura, tens as viagens, tens isso tudo”.
A estrutura em torno do piloto pode incluir “driver coach”, para ajudar o piloto a melhorar aspetos da condução, e “mental coach”, para apoio e trabalho psicológico, assim como um preparador físico.
“Os resultados ajudam a diminuir esse valor. Não há dúvida. Eu estou a receber propostas destes campeonatos [FREC e Eurocup-3] com disparidades incríveis de valores, porque há equipas que têm capacidade financeira e querem mesmo este piloto, e por isso fazem um esforço financeiro maior, e há equipas que não têm tanta capacidade, mas que até são boas, por isso uma pessoa analisa na mesma”, explica Tiago Monteiro, apontando que “na Fórmula 3 será igual”.
O jovem Noah, com 16 anos, venceu o campeonato de inverno da F4 espanhola, e é agora o quarto classificado no campeonato ‘normal’. Antes da ronda em Jarama, no fim de semana passado, o português liderava a tabela de pontos, mas as três corridas nos arredores de Madrid foram mais problemáticas do que tem sido a norma este ano.
“Foi talvez o pior fim de semana dele este ano. Por várias razões, houve problemas claramente dele. Houve problemas de equipa, houve situações de corrida que acontecem, então com 36 pilotos em pista, muita coisa acontece”, afirma Tiago Monteiro, apontando que “é bom ele passar por estes momentos nesta fase”.
"Tem de aprender, como é óbvio, e os erros que ele comete, tem de entender porquê e como é que vai fazer melhor e as dificuldades que ele tem”, diz. Além disso, no segundo ano a competir em monolugares, continua a habituação a este tipo de carro e ao trabalho para extrair mais performance.
“Nunca é o carro perfeito, e ele está a começar a descobrir isso, a perceber que raramente vai ter um carro perfeitinho, e o grande trabalho dele vai ser adaptar-se ao carro naquela situação”, explica o pai e agente Tiago. “Claro que tem os seus engenheiros para ajudar para melhorar o carro, mas ele tem de explicar o que é que quer, o que é que precisa do carro”.
A boa posição no campeonato, revela, faz com que Noah Monteiro seja “muito cobiçado” por equipas para a mudança para o nível da Fórmula Regional. E, “mesmo que não ganhe o campeonato, o lógico será dar o salto”.
Gerir a carreira do filho é um trabalho complexo. Um exemplo é o de Anthony Hamilton, que foi sendo o responsável pela carreira de Lewis Hamilton desde os quatro empregos simultâneos que teve para pagar as corridas do jovem britânico nos karts até às negociações de contratos com a McLaren.
Essa gestão terminou em 2010, quando Lewis procurou separar as águas e que o pai fosse apenas pai. Ainda longe desse ponto com o filho Noah, Tiago Monteiro admite que o trabalho é “mais intenso”.
“Mais stressante também, mas também muito gratificante”, diz o agente, que gere a carreira de dez pilotos, incluindo a de António Félix da Costa. “Os meus pilotos são todos diferentes, a forma como eu falo com cada um, como eu posso lidar com cada um, é sempre diferente”.
“Trabalho diretamente com o teu filho é intenso, mas, ao mesmo tempo, é um prazer incrível, porque vivemos a mesma paixão, eu posso transmitir essa experiência toda, não tanto na pilotagem”, onde Noah “já tem uma estrutura muito boa à volta dele”, mas sim “mais a gestão do dia a dia de um piloto”.
“Gerir a pressão, aproveitar os momentos, quando temos de trabalhar em certas áreas, quando temos de trabalhar noutra, o que fazer para preparar melhor uma qualificação ou como depois preparar a corrida, essa parte toda, e é aí que eu tenho mais experiência de 28 anos de competição e estou a adorar transmitir isso”.
“Claro, o filho é sempre é sempre diferente, mas falo com ele como se fosse obviamente um qualquer outro dos meus pilotos”, diz Tiago Monteiro, antes de admitir que é “duro com ele também, se calhar mais duro do que com os outros, talvez, em certas áreas".
A experiência não tem sido sempre igual para Tiago Monteiro. O ex-piloto nunca competiu em karts, admitindo que, nessa fase inicial da carreira de Noah, “estava lá como espetador, sinceramente”.
“Juntei-me de pessoas que conheciam muito bem o meio. Ele tinha o Bruno Borlido, que foi um excelente piloto português de karts, que o ajudou muito, e eu confiava muito nele”, conta Tiago, antes de falar de um momento insólito.
“O meu filho tinha para aí oito anos e uma vez eu estava a criticar uns erros que ele estava a cometer numa pista de karting qualquer, e ele vira-se para mim a dizer, ‘mas estás a falar de quê? Tu nunca andaste nos karts’, e tinha razão na realidade, não é? Eu estava a ver de fora e não sabia bem do que estava a falar. Achei que era um bocado agressivo, mas adorei essa atitude dele na altura”, recorda um Tiago Monteiro sorridente.
Noah Monteiro tem pela frente mais três rondas, cada uma com três corridas, até ao final do campeonato da F4 espanhola. As rondas acontecem ao longo dos próximos três meses: em setembro o campeonato vai a Jerez de la Frontera, em outubro vai a Navarra, e em novembro as corridas são na pista de Barcelona.